A implosão do Edifício Glória

Todos nas sacadas. Cervejas, champanhes, panelas, apitos e vuvuzelas. Da laje só a marca era diferente, mas as bebidas e aparatos eram os mesmos. A vuvuzela na verdade, nem a marca, só o preço. O dia era singular, a implosão do Edifício Glória já tinha virado caso de polícia. A associação de moradores do bairro, mais vista como desatarefada e apegada, já havia se acorrentado, abraçado, e feito danças folclóricas pela preservação do edifício. Gerou boa mídia e muitas risadas. O povo queira mesmo era ver a casa cair.

E é preciso delimitar que povo, é a gente. Sem beira. A gente gosta de delimitar umas diferenças, mas acho que é por que as semelhanças são mesmo insuportáveis. Ora povo é povo, e todo aquele que deveria estar vigilante sobre o não povo. Agora, não povo, esse é mais difícil de delimitar. Não povo, não existe. Mas existe, é que ele que tem a vara na mão. Vara o negro, vara o pobre, vara o insolente e o indecente. Essa vara não é povo, dizem que é demência. Mas o povo também gosta de ter a sua vara.

Mas como dizia, estavam todos para ver o Edifício Glória, ou na verdade, ver o fim do Glória. Varas em controles, online e nas calçadas. Diziam todos que era letra morta, que o mundo mudou. Vejam só que sabedoria! Como aqueles entrevistados depois do Coliseu, jogo é jogo e agradeço a Deus! Todos eles com seus consoles de varas.

Glória fora edificado como um sonho. Deu lugar a um pesadelo, mas ninguém achou prático. Era muito bonito, mas não atendia as nossas expectativas, era meio chato sabe? A frente do seu tempo tentaram de tudo nele, nada vingou. O moço até fez sua morada na cobertura, pra provar que segura. Coitado, morreu cantando a glória, sem nada pra sí. Caiu e nunca mais se viu. Com o passar do tempo, ninguém mais sabia o que fazer com aquilo, nem sabiam mais por que tinham mesmo feito. O não saber era tão grande que na verdade ninguém sabia era nada.

O negócio, é que chegou um prefeito bom mesmo. Daqueles madrugador. Botou a enquete no ar e deu voz ao Povo. Que homem, que estadista! O povo nunca esteve no Glória, disseram logo: tirem de lá! Pois foi um bafafá e um saravá. Tira e põe, vai e volta, depois de anos chegou a cerimônia. Estranho que continuam todos a não saber, o que fazer, o que tirar ou o que colocar. Queriam mesmo era votar e ver o Glória ruir. Ninguém tinha sonho nenhum.

Não sonhavam com o Glória, nem sonhavam o que fazer do vácuo do Glória. Queriam era tirar da frente. Cada laje sonhava com a vista de sacada e as sacadas com a vista lá de cima. Era um frenesi, teve contagem regressiva, balão e despedida: Tchau Querida! Tchau Querido!

Era hora e veio a bateria. Cada pedra que caia, um corpo estremecia. Era uma gritaria, choro e nostalgia. Toda gente se divertia, o barulho era tanto que ninguém ouvia, era tudo uma putaria, xingando o rival, a sogra e vizinha. O edifício ruía, a pedra caía e a gente bebia. Acabou a explosão, mas ainda tinha aquela agonia, o que viria da fumaça? O que teria lá no chão?

Quando tudo acabou, foi mesmo bem sem graça. Pois lá do Edifício Glória, não saiu nada não. Ficou todo mundo meio besta, com a cara no chão. A sacada agora via a laje que chiava da sacada vigiar o seu quinhão. No lugar do Glória botaram uma praça, e como era, pelo menos de alguns, de se esperar, veio o prefeito nela, a sua vara colocar.

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