Meus olhos verdes, não lhe pertencem.

AVISO: NÃO SE TRATA DE RACISMO REVERSO, ISSO NÃO EXISTE. Seja paciente e aberto ao diálogo. Obrigado.

Estamos todos, sempre, sendo julgados sob os olhos alheios. As mulheres sob os olhos dos homens, os pobres sob os olhos da elite, trabalhadores sob patrões, e o contrário também. Olhares e julgamentos. Que a todo momento estão a lhe colocar em seu devido lugar. Por que afinal, na atual sociedade, liberdade é o que se tem quando se esta no lugar certo. E o lugar certo é determinado pelos outros.

Uma vez caminhava no Parque Ibirapuera acompanhado da mais alta fidalguia e nobre das companhias. Como muitas vezes na minha vida, eu era o único homem ali. Caminhávamos despretensiosas, falas irônicas e superficiais. Ao passarmos próximo do Museu Afro Brasil, uma delas comentou sobre o espaço, que havia estado ali com sua descendência para lhe mostrar as raízes de suas ascendências.

Ao comentar que eu gostaria de logo estar ali com minha descendência e também lhes mostrar suas raízes ascendentes, fui tornado outro. Sob riso e gargalhada fui colocado no meu devido lugar: — Com esses olhos verdes Afonso? Só se forem raízes germânicas!

Depois de publicado texto em que me recuso a explicitar minha sexualidade, seja ela qualquer. Isso foi o suficiente para que as pessoas se sentissem a vontade de rotular qualquer homem em minha presença, como provável namorado. Ou de simplesmente me pressionarem para que eu esclareça de fato o que sou. E neste caso, pressões gerais, afinal sob os olhos deles sou: — Hetero né? — Há, que coragem, também sou bi! — Finalmente bicha, bem vindo ao mundo gay.

Todos, por desconsiderar minha autodeterminação.

Sob os nosso olhos, há sempre o desejo de conhecer. Mas sempre sob os nossos olhos. Isso significa que quase sempre, estamos a catalogar e classificar as pessoas à nossa volta, sob os nossos próprios códigos de valores. Quando esse movimento torna-se majoritário ou determinante, torna-se portanto opressor, o que podemos hoje chamar de racismo ou preconceito. Mas mesmo minoritário, ele é também agressivo.

Sou consciente da minha posição privilegiada na atual sociedade. Como homem branco, de olhos verdes, proveniente da elite financeira e educacional do meu país de origem, e detentor de dupla cidadania européia. Isso faz de mim um ser humano com acesso e mobilidades raras quando comparado ao resto da humanidade. Mas não posso mudar o que sou ou de onde eu vim. E o que sou, não determina como devo me portar diante de seus olhos.

A liberdade por si só questiona e incomoda os olhares. Vai-se uma inocência. Um mundo que por tanto julgar, torna-se injusto. Por querer viver, é preciso lutar, e por lutar não se vive. O julgo acompanha a dizer que são fracos os que vivem e tolos os que lutam. Quem ira nos salvar? Ninguém. Pelo julgo jamais venceremos, e qualquer morte será infame.

Por isso a autodeterminação é ato fundamental de liberdade. A recusa é também ato de rebelião. A vinda da minha filha me salvou de uma visão, hoje, absolutamente estranha em minha vida. Não quero ser o que se espera desse homem que vós escreve. Talvez, a minha recusa, seja mesmo desconforto. E por gerar desconforto, usam os mesmo adjetivos comigo, num esforço de me realocar onde deveria estar. O que só me faz mais invisível aos seus olhos.

De não atender suas expectativas e anseios, sou indigno. Tal qual como os filhos de portugueses e índios, pior é aquele que por opção se recusa ao pertencimento. Não sei das tuas violências sofridas, jamais saberei. Tu, não sabes as minhas. Por que competir e nos obrigar ao vínculo por sofrimento? Por que o sofrimento como medida de comunhão?

Na solidão humana, quero ter outra companhia, fora dessa medida. Meus olhos verdes, não servirão aos seus propósitos.