Motive!

Cursando o 5º período de Direito, bolsista, sem estágio, com sérias dúvidas sobre o curso e sonhando com mil e uma outras carreiras que me fariam mais feliz — mas deixariam meus pais um tanto decepcionados — sou, atualmente, uma crise itinerante que faz piadas com o próprio desespero para dar a impressão que está tudo sob controle.

Tudo piora quando percebo que não sou a única a me encaixar nesse perfil. Com amigos e até mesmo meu companheiro vivendo desesperos parecidos, me pergunto se essa fase vai demorar a passar (e até mesmo se é uma fase) enquanto fico levemente indignada com a desigualdade de oportunidades que, como bolsista e oriunda de família menos abastada, eu enxergo nos mais diversos âmbitos da vida, tanto na minha quanto nas dos outros que compartilham comigo perfil semelhante.

Mas, Amanda, escreveste esse texto só pra reclamar, mulher?

Não! É que, neste 14 de agosto de 2017, eu me dei conta de uma grande verdade que preciso compartilhar com quem quer que ouse dar alguns minutos de atenção para o que eu tenha a dizer.


A segunda começou meio pra baixo. Acordei tarde e pensando seriamente em sequer levantar da cama (não tinha ninguém em casa, ninguém me julgaria). O celular vibrou e, ao abrir aquele balãozinho verde, uma fotinho das duas coisinhas mais amadas da minha vida me arrancou um sorriso gostoso — desses de quem se rende às felicidadezinhas que podem ser achadas em um dia cinza. “Quando a menina quer banhar sozinha”, dizia a legenda da foto, que mostrava um papai bobo e o meu “brindezinho” preferido de mc lanche feliz (vulgo minha enteada), ela com um sorrisinho traquina e o cabelo espumando com shampoo entre as pequenas mãozinhas um tanto desengonçadas. Levantei. E tive que correr com o almoço para não chegar atrasada na faculdade de novo.

Atrasei.

Algumas horas morrendo de tédio na aula de hermenêutica e algumas outras horas morrendo de rir na aula de falência e recuperação de empresas e pronto, 17h30. Hora de ir para a entrevista de monitoria que eu já considerava faltar para não chegar muito tarde ao shopping — tinha cinema 18h30 com a pequena e o papai bobo.

Decidi ir à entrevista. A decisão mais acertada do dia!

A resposta fundamental para a vida, o universo e tudo o mais pode ser 42 (se não entenderam a referência, google it E LEIAM ESSE LIVRO MARAVILHOSO)…mas eu, hoje, ao cruzar a porta da sala e me sentar na cadeira para ser entrevistada, descobri que a resposta fundamental para a minha vida, o meu universo e tudo o mais naquele momento era: M-O-T-I-V-A-Ç-Ã-O!!

Era uma entrevista com um dos professores que eu mais admirava na faculdade e com quem eu achava não ter uma boa reputação por ter sido aluna dele em um semestre no qual uma série de problemas pessoais me renderam uma quase reprovação por falta, apesar de sempre ter alcançada notas muito boas. Eu não estava das mais esperançosas para a entrevista — pelos motivos já ditos e porque esperança estava em falta na minha coleção de sentimentos havia algum tempo.

Sentei com um sorriso no rosto e me esforçando para demonstrar positividade. Respondi a uma pergunta básica que ele me direcionou sobre as motivações de eu ter escolhido concorrer à monitoria da disciplina dele e…~tah dah~…“Amanda, você foi a melhor surpresa que eu tive ao ver os candidatos dessa entrevista…” (não foram as exatas palavras dele, mas juro que foi algo assim). E em seguida veio uma chuva de elogios e palavras extremamente encorajadoras de uma pessoa que eu admiro tanto e cujas ótimas impressões a meu respeito eu jamais poderia supor existentes. Segunda (ou vida acadêmica) salva com sucesso!


Aprovadíssima na entrevista — e com uma injeção imensa de ânimo e orgulho próprio — cruzei a porta da sala mais um vez, agora em direção ao corredor, e um contentamento que eu não sentia há muito tempo me inundou de maneira tal que eu não conseguia segurar o sorriso e os batimentos acelerados do meu coração. Depois daquela entrevista praticamente já não existia descredito em relação ao curso, à minha carreira e ao meu lugar naquele cenário todo. Eu queria abraçar o professor com todas as minhas forças e dizer: “a sua motivação salvou uma vida acadêmica praticamente falida! Obrigada!”. Mas eu fiquei um pouco envergonhada (risos).

Agora eu estou aqui, sentada em frente ao notebook, às 00h13 da terça, transbordante de energia, com um horizonte inteiro diante de mim e, melhor ainda, com caminhos sendo traçados em direção a ele. Tudo devido a uma coisinha simples e que muitas vezes a gente esquece de praticar: motivação!

Na correria da vida — e muitas vezes anestesiados pela rotina — a gente acaba ignorando a importância de pequenos atos, das coisas que transmitimos e que deixamos de transmitir. Empatia, simpatia, positividade, tudo isso é extremamente vital e ao mesmo tempo tão negligenciado. Não são poucas as vezes em que simplesmente não nos damos conta de que quando direcionamos a uma pessoa o nosso reconhecimento, plantamos nela uma sementinha de sucesso que pode ser decisiva. Nos acostumamos muito a cobrar resultados, criticar erros e esquecemos de motivar, recompensar e agradecer.

Hoje, naquela entrevista, o reconhecimento do professor me salvou de uma maneira que eu provavelmente jamais serei capaz de descrever e, na primeira oportunidade, eu vou transmitir a ele toda a minha gratidão porque eu também sei que ao fazer isso também irei motivá-lo enquanto pessoa e profissional.

Quanto a você, que me concedeu sua atenção até o final deste texto, a você fica o meu mais sincero agradecimento e o seguinte apelo:

Motive! A sua motivação pode ser aquilo que vai evitar que a trilha de alguém vire deserto.

Texto escrito ao som de Don’t give up - Sia