O Desgosto do Confeiteiro

Você consegue se lembrar do melhor doce que já comeu na sua vida? Vamos pensar nele um pouco. Por trás desse doce estava com certeza um profissional que sabia muito bem o que estava fazendo: O confeiteiro.

O confeiteiro sempre amou fazer doces, dentro da cozinha de sua casa, simples, sem muitas frescuras, mas todos que experimentavam diziam que ele tinha talento. O confeiteiro, resolveu então tornar o seu talento em profissão. Fez cursos. Muitos. Mesmo sabendo como se faz um pão de ló, fez o curso do básico do básico e não é que mesmo sabendo ele aprendeu truques novos? Se especializou, passou pelo chocolate, pelas caldas, pastas e coberturas, pelos recheios, pela pâtisserie, pela tradição dos doces da Toscana, pela cocada brasileira, enfim… viajou o mundo através de sabores sem sair do lugar. Achou que não era suficiente e entrou na faculdade de gastronomia, graduando-se e entendo que o doce e o salgado se complementam perfeitamente ao finalizar um surpreendente caramelo com flor de sal.

A cabeça do confeiteiro é um mar de idéias diárias, de técnicas, de contas exatas de xícaras de chás + colheres de sopa. E o resultado: Doces perfeitos, aqueles que você com certeza já experimentou uma vez na vida e que foi inesquecível.

Até aqui a nossa história está doce. Porém, o confeiteiro tem que se deparar diariamente com os amadores, não estou falando das avós ou titias que amam fazer doces para a família, pois essas trabalham com amor envolvido, mas aqueles que querem ganhar dinheiro, que acham que sabem o que estão fazendo, que fazem pela metade do preço do confeiteiro, usam produtos de segunda linha, não querem saber de novos cursos, afinal tempo é dinheiro.

1 hora perdida em um curso é 1 hora de contatos nas redes sociais divulgando o cento de seus docinhos a preços indecentes.

O confeiteiro tem vontade de chorar ao ver os posts nas redes sociais, vários likes, vários pedidos, mas se consola ao ver logo abaixo o tanto de reclamações e desapontamentos com o serviço mal feito.

Será que esse relato começa a te soar familiar, mesmo você não sabendo fazer um simples brigadeiro de panela? SIM! A história do confeiteiro é o reflexo do que acontece hoje nas prestações de serviço, seja freelance ou CLT.

Enxergamos o nosso talento e queremos nos especializar. Nos graduamos, pós graduamos, “mestramos”, fazemos cursos, nos reciclamos a cada ano (pois as novidades estão surgindo numa velocidade surreal), lemos muito, muito mesmo, toda a bibliografia possível para absorvermos o conhecimento dos experts e nos tornarmos um também. E o que recebemos em troca de tudo isso? “Meu sobrinho faz por bem menos esse mesmo trabalho que você está me cobrando uma fortuna” ou “Estamos te dispensando, pois seu salário é muito alto, não temos como continuar com você em nossa folha de pagamento, passaremos sua função ao seu estagiário” Ok, não estamos discutindo aqui a capacidade do sobrinho e nem do estagiário, mas sim experiência combinada com conhecimento, porque sabemos que não vai ficar profissional, em algum momento um detalhe vai escapar e será crucial. Se fosse simples assim as maiores empresas do mundo não teriam CEO´s de 70 anos, nem profissionais em cargos de confiança com anos de empresa.

A moça da rua da minha tia tá aprendendo a fazer bolo, e mandou essa foto* ai de cima pra mostrar como tá indo o curso e que ela cobra baratinho o quilo do bolo pra quem quiser fazer com ela.

Por enquanto, acho que ninguém quer um bolo desse como centro de mesa do aniversário do filho, a intenção e a boa vontade podem até ser das melhores, mas não satisfazem a necessidade do público final. Moça da rua da minha tia, você ainda tem um longo caminho para percorrer, acalma-se!

O confeiteiro não aprendeu a fazer quindim sem cheiro de ovo de primeira, fez várias e várias vezes, usou as técnicas que aprendeu e enfim chegou no quindim perfeito sem nenhum cheiro desagradável. O mesmo acontece com profissionais de qualquer área, experiência é algo valioso pro mundo corporativo de hoje, mesmo tendo pouca idade, a pessoa pode sim ser experiente, ter tirado de cada trabalho uma lição, mas só consegue isso quem realmente quer.

A geração atual é de pessoas cada vez mais superficiais, que sabem um pouco de tudo, mas que no fundo não são especialistas em nada, que ao primeiro sinal de problema, querem sentar e chorar, não tem a expertise de dar a volta por cima ou tirar da manga um salvador plano B, simplesmente por que não sabem ou porque sabem apenas fazer um pão de ló.

Como diz Abraham Maslow “Para quem só sabe usar martelo, todo problema é um prego.”

Usar a mesma receita para problemas diferentes não vai adiantar, o sobrinho trabalhar assim, o estagiário também, pois são da geração da superficialidade do problema, só sabem a receita que male má aprenderam na faculdade e acham que tá bom. O resultado? O começo tá ótimo, mas o resultado final será visivelmente desastroso, igual o bolo aí de cima.

Melhor do que fazer um bom trabalho é fazer o trabalho ser lembrado a longo prazo como excelente, coisas bem feitas, perduram e são lembradas por muitos e por muito tempo.

Não deixe de perseguir a experiência e o conhecimento, se jogue, erre, aprenda, refaça, e quando chegar numa estatura de profissional não deixe ninguém e nenhuma corporação depreciar o seu valor real diante do mercado. Você investiu tempo, dinheiros, horas de sono, abriu mão da sua vida social, não é justo, não mesmo!! Há quem prefira pagar mais por um excelente profissional, há empresas fazem questão de ter um salário alto em sua folha de pagamento, pois sabe que aquele profissional raro está dentro das quatro paredes dela sendo agregador.

Apesar dos desgostos que encontra no caminho, o confeiteiro segue com seus doces perfeitos, tem prazer em cada novo sabor, em ver os olhos de quem experimenta seus doces brilharem, isso recompensa qualquer dissabor da vida e o motiva correr atrás de mais conhecimento.

Continue em frente, aliando conhecimento com experiência e orgulhando-se de ser o o melhor confeiteiro da sua área de atuação!

*Foto fictícia, retirada do Google e história também, apenas para ilustrar melhor o texto.