Legado Legião

Como um especial da tv resgatou minha história de fã

Eu nem tinha planos de ver o especial Por Toda Minha Vida hoje, mas já estava no sofá cansada de chorar com a série #Justiça, fiquei por ali e fui sendo resgatada por Renato. Há anos sem ouvir #LegiãoUrbana (fora o que toca aqui e ali sem a gente escolher), a inevitável nostalgia daquelas canções me fez reconhecer que devo muito do que sou hoje à Legião, a Renato Russo.

Obrigada, mãe!

O Descobrimento do Brasil foi o meu primeiro CD, presente da minha mãe. Aprendi todas as músicas desse disco e a maioria das anteriores (tinha o maior orgulho de saber de cor a letra de Faroeste Caboclo e Eduardo e Mônica). Segui comprando cds da banda, cheguei a ter até os discos solos de Renato (que me ajudaram a falar inglês e a saber as três ou quatro palavras em italiano que lembro).

Não deu tempo de ir a nenhum show, fui uma fã tardia e nem sonhava que, um dia, conheceria de perto o cenário árido de Brasília, tido por aí como o berço do rock nacional. Quando Renato morreu, não senti de imediato o impacto. Mais tarde, na faculdade, era meio brega admitir que era fã de Legião, e fui deixando de lado meus cds do Renato e me aventurando pelos rocks internacionais, MPB e etc, até ser irremediavelmente picada pelo vírus da música alternativa.

Hoje, tenho as capas perdidas e um ou outro cd arranhado, mas ainda sei as músicas e ainda me emociono com aqueles acordes simples. Repensando a minha trajetória com a banda, vejo que suas músicas me ajudaram a despertar algo de consciência política. Por ali, tive um vislumbre do inconformismo, da dor de envelhecer (eu que nem sonhava o que poderia ser o tal retorno de Saturno), do medo da violência e me senti plenamente representada com toda a revolta com as aulas de química.

E pensando mais um pouco, acho razoável admitir que Legião Urbana era Renato Russo. Fui a um show do Dado cantando Legião e desejo a ele tudo de bom nessa vida, mas o show não me convenceu. No cinema, vi o filme Somos tão Jovens, que nem é muito bom, mas dá pra pescar umas partes importantes da história e ter uma ideia do cenário de onde surgiu a banda. Já a adaptação de Faroeste Caboclo achei incrível. A música desafiadora de 9 minutos rendeu um filmão.

Se não viu, veja!

A voz de Renato Russo soa muito atual para mim. Ainda estou por aqui me perguntando porque a violência é tão fascinante e como comemoramos como idiotas a cada fevereiro e feriado. Ainda quero um amor que vença as dificuldade de Eduardo e Mônica, e acho que em cima dos telhados as antenas de tv tocam música urbana. E toda vez que passo pela principal via de Brasília, canto a ladainha que fecha o álbum Uma Outra Estação, lançado depois que Renato já tinha ido:

Nossa Senhora do Cerrado
Protetora dos pedestres que atravessam o Eixão às seis horas da tarde
Fazei com que eu chegue são e salvo da casa da Noélia

(Travessia do Eixão — Uma Outra Estação)

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