Eu odeio você

- Eu odeio você. — Disse rispidamente.

- Por quê? — Questionou com aquele tom de voz mais baixo e detestável que por vezes entoava em um terrorismo emocional frustrado, com quase nenhum efeito sobre mim.

- Sobretudo porque você me torna amável e frágil. — Resumi minha afirmação e toda aquela semântica conubial nas justificativas que vieram primeiro aos lábios.

Em uma fantasia construída na camada mais fina e tola do meu ser, desejei ser a princesa indefesa de um conto de fadas subtil, encarcerada em uma torre de palavras reprimidas. À espera da liberdade trazida por seu príncipe de oponente espada, com o pomo dourado, lâmina reluzente e uma jóia em sua sita. Um papel que nunca me pertenceu, e certamente, jamais seria, outrora o dispenso com mais avidez — e pesar — que a raposa ao desdenhar as uvas. — Mas você é amável… Eu sabia que no fundo eu o assustava.

Ele poderia estar sendo sincero… E provavelmente estava, ciente de que sempre escondera meu pior lado e que seu amor era por pouco maior que seu medo. Mas a racionalidade do evento implicava em outra demanda, que eu jamais deveria adiar. Erro exclusivamente meu.

Revirei os olhos e prossegui como se não tivesse o escutado:

- E sei que sendo deliberadamente humana, como você me torna, nada irá me proteger quando algo me atingir. Nem você, nem ninguém.

Eu concluí, como uma infanta a espera de sua retificação. O filho pródigo que em seu declínio kamikaze desejou voltar mais que tudo.

Com a esperança fictícia de que ele fosse impedir minha pequena revolução orgulhosa com o decreto de que me protegeria do mundo, vi minha imagem desfocada.

Suspirei uma última vez.

Mas como um algoz, ele se calou, e confirmei que, afinal, mesmo em sua presença, eu sempre vou estar sozinha.

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