
Respeitar os tempos
Cheguei, mas o coração quis ficar. Já fazem mais de 72 horas que eu estou em silêncio, tentando entender a mescla de sentimentos que me percorrem. N’O Caminho do Sertão fui me encontrar, me baguncei todinha e descobri mais de mim e do outro do que eu pensava ser capaz.
Apreendi tonalidades de vida, verde, verso e sonho que não cabem na palavra. Vi a faceta mais pura do amor. Fui eu, somente eu. Me despi de equipamentos, coberturas, narrativas e da crença de que eu poderia registrar em totalidade o que é a travessia. Fui aceita sendo eu, somente eu. Me permiti conhecer e ser conhecida, ser interpelada por realidades e pessoas. Me permiti um banho no Rio Urucuia, onde tudo o que importava era sentir o batismo daquelas águas, sem registro. Me permiti esquecer de tudo, ser corpo, chinelo, calça, blusa. Fiz o impensável, subi ao Vão dos Buracos de noite, sem câmera, despretensiosa, tomada pela vontade de compartilhar o momento. Vi o céu mais estrelado da minha vida.

Nunca recebi tanto, nunca senti tanta esperança vinda do outro que acaba de me conhecer. Espero ter podido dar-me inteira também, como recebi. Entendi que não registrar é também respeitar os tempos, e que receber relatos é um ato de coragem e confiança. Me permiti contar sobre mim, me entreguei ao simples, amei o breve. Senti. Na pausa, vi que comunicar é de corpo inteiro. Que transborda. Aceitei as pequenas perdas. Tempo, um presente que o Sertão me deu sem pedir nada em troca.
Recebi o alimento das mãos de quem luta para que o agronegócio não siga avançando. Fui cuidada por quem caminhou e caminha sol a sol no cerrado. Fui abençoada por doses imensuráveis de generosidade. Tudo o que eu recebia, tentava repassar. Foi assim que me vi ajudante do Seu Bergs, boa ouvinte, e vi cartões de memória, sapatos, cantis, meias e remédios espalhados por aí. Ouvi, e abrindo minhas convicções para a intervenção do outro, vi que a vereda, que era tão bela aos meus olhos, na verdade, estava muito vazia. Vi também que o que há de mais sublime na tradição oral e na vida sertaneja, está ameaçado. Vi tanta coisa que não cabe no relato.
Só agora consegui falar, despejar relato, dor, amor e vida em texto. Ao longe de 10 dias, me tornei todo, grupo, e travessia. O mosaico de parcialidades se dá na crença de que somos todos comunicadores, e meu principal desafio era me desprender do olhar viciado, que tudo registra, e embarcar num universo sensorial. Nessa caminhada de desidentificação e descostume, me aceitei. Travessia.
As melhores fotos desta viagem são, sem dúvidas, as que eu escolhi perder.
Por Agatha Azevedo, no dia 20 de julho de 2017
