Ser LGBT em agência

Lembro que queria cursar Arquitetura, mas era curso de gay. Inseguro, me incomodava com piadas sobre o assunto. Pensei em fugir pra Publicidade e ouvi o mesmo deboche. Mas como eram deboches menos recorrentes do que os deboches sobre arquitetos, preferi ser publicitário. Era menos gay.

Entrei em Publicidade e passei a conviver também com estudantes de jornalismo, cinema, artes cênicas, letras. Um ambiente relativamente livre e diverso, salvo piadas desnecessárias aqui e ali. No geral, era um lugar bem mais receptivo do que prédios com cursos como engenharia. Logo pensei que trabalhar em agência seria uma extensão da universidade no que diz respeito a representatividade e aceitação.

Descobri em simples contas de cabeça que agências têm menos pessoas LGBT do que as salas e os corredores da universidade. Não significa que não existem pessoas LGBT, mas esperava lugares mais acolhedores, onde fosse possível dar pinta sem ficar constrangido com olhares.

Sylvia Rivera, ativista transgênero e bissexual, procurando por pessoas trans dentro das agências.

Encontrei gays, lésbicas e bissexuais. Poucos deles abertos sobre sua sexualidade. Alguns reservados sobre a vida pessoal. Um e outro que se expressa sem se conter. Donos e diretores? Gatos pingados.

Não encontrei pessoas transgênero.

Dentro da própria sigla, há uma subdivisão de representatividade. Se homo e bissexuais ouvem piadas ignorantes no meio do expediente, o que dizer de pessoas trans? Elas sequer estão sentadas na cadeira pra ouvir as tais piadas. Quem acaba escutando a ignorância sobre trans e travestis somos nós, o restante da sigla.

Desde que entrei no mercado, vivenciei algumas situações e ouvi outras por parte de amigos. Lembro que alguns colegas de trabalho estavam vendo fotos de uma festa de outra agência. Scroll pra cima, scroll pra baixo, uma das imagens era a de um rapaz gay dando bastante pinta com um short jeans, meio Joanne da Gaga. Ouvi silêncio. Uma voz masculina soltou:

"Esse o dono tá comendo"

Depois ouvi risadas.

Hoje esse tipo de situação ficou mais rara no meu círculo profissional e social, mas é curioso como a forma que você anda, senta, fala ou se veste ainda pode ser motivo de deboche em ambientes aparentemente descolados. É um descolado que se revela opressor nas entrelinhas.

Jodie Foster constrangida.

Sem dúvidas, trabalhar em agência é muito mais agradável para um LGBT do que em outros locais de trabalho onde, por exemplo, uma mulher tem obrigação de usar maquiagem e salto alto. Mas as agências em geral têm uma ignorância não explicitada. É a opressão associada ao machismo velado. Ninguém vai lhe expulsar ou xingar diretamente. Ninguém vai virar a cara para você. Mas alguém vai achar seu jeito engraçado e fofocar sobre sua sexualidade. Alguém vai lhe achar fresco, ou sapatão demais, ou pedir pra você escolher qual dos dois lados da faca cortar. São percepções de mundo que reforçam a opressão por meio do humor, associando gêneros e sexualidades diversas a algo pejorativo.

Apesar da abertura, ainda vejo colegas receosos em expressar e verbalizar o que são, em falar sobre a vida pessoal tranquilamente, enquanto pessoas não-LGBT conversam sobre esses assuntos sem pudor e em alto e bom som. Se aquelas pessoas não se sentem confortáveis para serem o que são sem vergonha, é sinal de que algo está errado.

Então se você está lendo esse texto, sendo ou não LGBT, sugiro duas atitudes super simples e fáceis de seguir:

Lição 1: Não faça piadas.

Sasha Velour, homem gay e drag queen.

Quer ser engraçado? Faça piadas sobre seu time, sua série favorita. Não ria nem faça os outros rirem sobre o gênero ou a sexualidade de alguém. Dar pinta não é pejorativo. Ser uma mulher com estereótipo masculino não é pejorativo. Ter relações com pessoas de gêneros diferentes não é pejorativo. Ser transgênero não é pejorativo. Não deboche, não ria, não fofoque, não xingue.

Bethânia repreendendo a piadinha só com o olhar.

Lição 2: se ouvir piada, repreenda.

Seja consciente. Se ouvir uma pessoa reproduzindo piadas LGBTfóbicas e machistas, interrompa o discurso dela. Se for mais confortável para você, chame-a em um cantinho ou mande uma mensagem por chat. Se ficar oprimido demais pra não se expressar com palavras, pelo menos não ria e deixe claro que se incomodou com o comentário. Outra opção é usar as suas redes sociais para compartilhar conteúdo que ajude o outro a ter mais consciência.

Sejamos felizes, porque merecemos.

João Gabriel Freire, bicha e planejamento digital da BG9.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.