Uma mulher à frente do seu tempo
Exemplo de força, determinação e sucesso, Cecília Freitas quebrou tabus e conquistou o seu espaço na publicidade.


No final do mês da mulher, aproveitamos para contar um pouco da história da publicitária, sócia da BG9, que continua fazendo história, mostrando que é possível enfrentar desafios e preconceitos para crescer na profissão que ainda é em sua maioria dominada por homens. Ela fez diferença.
Nascida no município de Pesqueira, no agreste pernambucano, a publicitária Cecília Freitas começou a carreira como funcionária pública concursada aos 19 anos de idade. Primeiro, pensou em ser jornalista. Por gostar de ler tornou-se bibliotecária. Começou o curso de comunicação em Brasília, voltou para o Recife para ser secretária do então Governador de Pernambuco Eraldo Gueiros. Viu Suape nascer. Na faculdade de comunicação — propaganda, ajudou a criar uma agência laboratório na UFPE. Foi quando nasceu a semente da Agência Gruponove, formada incialmente por nove mulheres. Isso em 1973, aos 27 anos de idade. Teve coragem de pedir demissão do serviço público, perdendo a estabilidade da função, para entrar de cabeça na propaganda. Deu certo. Nesses mais de 40 anos, sempre buscou se reinventar. No ano passado, uniu o Gruponove com a Plano B) e ajudou a criar a BG9, que já nasceu como uma das mais importantes e criativas agências pernambucanas. Outro movimento ousado para o mercado. Isso porque a BG9 faz parte da holding Duca, maior negócio da área de publicidade, inovação e comunicação do Norte e Nordeste.
Como e por que você saiu de Pesqueira e veio para o Recife?
Cecília Freitas — Saí de Pesqueira com apenas dois anos. A nossa chegada foi muito difícil. Meu pai tinha morrido há pouco tempo e saímos de uma cidade onde conhecíamos tudo e todos para outro lugar desconhecido para começar do zero. Esta grande conquista e o sucesso dessa operação foi mérito exclusivo da minha mãe.
O que a levou a optar pelo curso de Publicidade que em Pernambuco ainda estava começando?
Cecília Freitas — A primeira parte do meu curso de Comunicação Social foi feita em Brasília onde descobri a cadeira de Propaganda e me interessei por ela. Quando voltei a Pernambuco, fiz parte da primeira turma do curso de Comunicação Social do Norte e Nordeste. Foi na Universidade Federal de Pernambuco e funcionava provisoriamente no Cecosne. Comecei na área de criação, antes de me dedicar ao planejamento e atendimento. Trouxe para Pernambuco a primeira medalha de Ouro no Prêmio Colunistas Nacional, em dupla com minha antiga sócia Lucinha.
Como surgiu a ideia de fundar o Gruponove?
Cecília Freitas — Ainda na Faculdade, éramos todas alunas do Curso de Comunicação Social da UFPE e lutávamos para tornar o aprendizado da propaganda mais prático. Junto com Lucinha Moreira comandamos um grupo que inicialmente criou uma agência laboratório dentro da Universidade — Meio Publicidade — e não tendo o sucesso esperado, resolvemos buscar conhecimento por conta própria. Pagávamos aulas do nosso próprio bolso que não tinham nenhum valor curricular. Queríamos apenas aprender. Aí surgiu o Gruponove. Nove mulheres, nove estudantes e nove sócias. A mais segura equação para um negócio dar errado. Mas deu certo. Investimos tempo e dinheiro. Nos finais de semana, passávamos limpando a sala que alugamos para trabalhar e aprender.
Quais os primeiros desafios da agência?
Cecília Freitas — Logo no início, perdemos uma das nossas sócias em um acidente de carro em São Paulo. Um diretor de criação paulista que estava aqui no Recife, tornou-se sócio, mas logo ele voltou para São Paulo e mais quatro sócias viram que não tinham vocação para a profissão. Ficamos apenas quatro mulheres à frente de uma agência que foi fundada sem nenhum cliente. Eles foram chegando aos poucos, depois de muito trabalho e estudos.
Quem foram os primeiros clientes?
Cecília Freitas — O primeiro cliente foi a Ceará Calçados, depois a Noralar, grande conta de varejo. Foi quando tivemos o primeiro choque de preconceito. Começaram a dizer que nós mulheres tínhamos alguma relação pessoal com os donos para conseguir a conta. Depois, conquistamos contas como a Raymundo da Fonte, que está há 35 anos na agência, a Nordeste Segurança, que hoje é a Prosegur, uma conta nacional que conquistamos depois de uma concorrência com agências nacionais.
Como foi lidar com os preconceitos?
Cecília Freitas — Nós fomos testadas diariamente. Foi mais fácil lidar com os clientes, afinal eles querem resultados. Foi mais difícil lidar com o público interno, funcionários homens, que não queriam ser liderados por mulheres. Mas, conseguimos. Em três anos, já havíamos conseguido reconhecimento do mercado e começamos a ganhar premiações. Ousadia foi sempre a nossa marca. Sempre demos o passo maior do que as nossas pernas e deu certo.
Para nós, crise não é novidade. O que nos ajudou foi ter a capacidade de saber crescer com os nossos clientes. Nos reinventando sempre.


Quais foram os principais desafios? Em algum momento você pensou em desistir ou mudar de profissão?
Cecília Freitas — Nunca pensei, um só segundo, em deixar a propaganda nem mudar de profissão. Tenho uma outra empresa, a Pousada Villa Boa Vista mas quando me perguntam minha profissão eu afirmo: publicitária. Desafios no mundo dos negócios é uma coisa permanente. Eles só vão mudando de forma com o passar do tempo. Passamos por todas as crises econômicas brasileiras, sete planos econômicos, altos e baixos. Para nós, crise não é novidade. O que nos ajudou foi ter a capacidade de saber crescer com os nossos clientes. Nos reinventando sempre.
Como e por que surgiu a ideia de se unir a Plano b)?
Cecília Freitas — Nunca nos acomodamos. Buscamos sempre ter uma visão de longo prazo, pensar mais nos clientes do que na agência. Como nascemos em uma universidade, sempre tivemos a preocupação de formar talentos, sempre tivemos jovens na agência para oxigenar as nossas decisões, trazendo criatividade e mantendo a ousadia. Já estávamos sentindo que era hora de dar outro passo maior para rejuvenescer a empresa. Com a criação de novos meios de comunicação, não estávamos mais conseguindo rejuvenescer sozinhos. Então, fomos para o mercado buscar uma complementariedade. Buscamos uma agência ousada, jovem e inquieta como nós. Ou seja, a Plano b). A empatia era gigante e passamos um tempo paquerando até que resolvemos nos unir. Fizemos uma movimentação ousada e complexa, mas sempre com foco na visão de futuro que sempre perseguimos. A BG9 não representa só a criação de mais uma agência. Passamos a fazer parte de um movimento muito maior que vai impactar todo o mercado de publicidade do Norte e Nordeste.
E para o futuro?
Cecília Freitas — Continuar sempre a nos reinventar, aproveitando as oportunidades para crescer sempre de forma ousada e criativa. Lembrando que nós é que fazemos a nossa história.