Heróis de fora do Panteão

Histórias de trabalhadores que cercam o monumento

José Virgulino da Silva Filho tem 68 anos e passa o dia subindo a rampa do Panteão dos Heróis da Pátria e Liberdade Tancredo Neves com uma sacola cheia de cocos em suas costas. Ele se apresenta como bisneto de Lampião e passa o dia sentado com seus produtos em frente ao monumento dedicado aos heróis brasileiros. Conhecido por todos, ele tem 39 anos de vivência na Praça dos Três Poderes. Carrega a fama de primeiro vendedor da praça.

‘Seu’ Virgulino parece saber tudo sobre ela. “Vi botar as pedras nesse lugar”, se referindo à calçada portuguesa que se estende pelo local. Já é uma entidade; seus infinitos apelidos confirmam isso: Zé da praça, Zé do coco, Zé do óculos, Louco dos pombos… Mas é por Virgulino que ele prefere atender. O décimo filho de Maria Diniz da Silva e José Virgulino da Silva não queria mais sentir fome e por isso saiu para procurar educação. Caiu em Brasília. De Pernambuco foi para o Rio de Janeiro e virou pedreiro; em São Paulo, camelô; e em Brasília se consolidou como vendedor ambulante.

Virgulino passa o dia subindo a rampa do Panteão com uma sacola cheia de cocos. Foto: Arthur Menescal

Essa é apenas uma das histórias de quem trabalha ao redor do Monumento Panteão da Pátria e Liberdade Tancredo Neves, localizado na Praça dos Três Poderes, no centro de Brasília. Não se acham heróis, não são famosos e lidam com as dificuldades de quem tenta ganhar um salário-mínimo em uma das cidades mais caras do Brasil.

No caso de Virgulino, todos esses anos na praça o deixaram íntimo do Panteão da Pátria, mas não tão íntimo dos heróis imortalizados lá dentro. Quem inspira ‘Seu’ Virgulino é alguém não muito distante: seu pai. Embora suas lembranças levassem ao sofrimento que era acompanhar a vida difícil no campo, os ensinamos do pai sobre a importância do trabalho o mantiveram vivo e deram-lhe a vida que ele e sua família podem desfrutar hoje.

“Nunca saiu, os calos”, diz enquanto mostra as mãos. Uma vida dedicada ao trabalho garantiu seu sucesso em Brasília. E essa luta diária lhe garantiu um status de herói, dado a si mesmo. “Eu sou um herói, herói é aquele que luta pela vida, aquele que luta para criar um filho”.

“Nunca saiu, os calos”, diz Virgulino mostrando as mãos. Foto: Arthur Menescal

O movimento na praça agora é baixo e ele não consegue nem um terço do que ganhava antes. O que lhe resta é continuar trabalhando, como sempre fez. “Vou trabalhar até morrer”. É desconfortante pensar em um fim desses para uma figura como ele, generosa e trabalhadora. “Vai uma aguinha, meu filho?”, ofereceu, no início do encontro. Os maus tempos não o impediram dar água a um estranho que lhe pedia uma entrevista. O otimismo de ‘Seu’ Virgulino vai continuar a mantê-lo na busca de seus objetivos.

Virgulino teve a infância tirada pelo trabalho. Hoje está realizado com a vida que pode tirar da Capital, porém “com o dinheiro que eu tiro hoje, eu não conseguiria sustentar os meus filhos”, lamenta. Seu ambiente de trabalho está sucateado, não tem nada para oferecer aos turistas. “O ambiente não é mais atrativo. Parece que a chama se apagou”, diz o herói anônimo do Panteão.

Vigia e lavador

A porta do ônibus se abre e o ar da Capital preenche o pulmão de quem chega atrás de seu futuro. O vigia e lavador de carros Antônio Ribeiro, 50, sustenta três filhos e trabalha ao lado do Panteão. Chega cedo todos os dias. Seus clientes estacionam o carro e logo o procuram para entregar a chave do carro, só pegam de volta ao final do dia. Nesse tempo, Antônio tem de se virar para lavar todos os carros e não decepcionar a entrega. Enquanto isso, vigia e ajuda a achar vagas para quem chega. Conhece todos os seus clientes pelo modelo do carro e o nome. “Esse gol aí é do José”.

Chegou na capital com 18 anos e logo sentiu a onda de otimismo quando veio morar com a irmã. Quando criança, vivia a brutalidade do trabalho infantil. Quebrar pedras era a sua função e a saída de sua irmã da Paraíba foi o necessário para que ele também tentasse outro rumo. A chegada em Brasília foi marcada por três dias de ócio, solidão e incerteza. Antônio chegou aqui com uma mala de madeira e o telefone da irmã anotado para chamá-la até a rodoviária. Bom, esse papel com o número, ele perdeu.

Antônio com a chave na mão fala:“essa chave aqui é de uma Fiat Toro, modelo novo, a cliente confia comigo, aqui todos confiam. Vamos ali pra vocês verem como tá limpinha”. Foto: Arthur Menescal

Já em solo candango, ele revirou seus bolsos à procura do telefone de sua irmã. Nada. Não lhe restou escolha: foi forçado a conviver com passageiros, andarilhos e vendedores. As noites eram longas nos bancos de concreto, mas o vai e vem de passageiros o permitiam uma sensação de segurança. Ao final, uma policial o ajudou a localizar a sua irmã.

Sua chegada foi turbulenta e pouco esperançosa, mas se deixar abater nunca foi uma opção. Antônio costuma dizer que a sua mãe é a sua maior heroína, porque “era uma mulher trabalhadeira” e o ensinou a trabalhar desde cedo. O trabalho é braçal e desgastante, mas no fim das contas, importante. E essa importância que ele dá ao trabalho o fez vencer na nova terra. Criou três filhos circulando por empregos informais em toda a capital. Deu tudo que era necessário a todos: comida, educação e amor. Foi o cumprimento de seu dever como pai: compromisso com a sua família.

Miniaturas da capital

Não demorou muito e encontramos outra história inspiradora: a do casal Lucas Moreira de apenas 23 anos, e Luciana Moreira Torres, 25, casados há cerca de dois anos. Vieram para Brasília buscar maiores oportunidades, pois em Anápolis (GO), onde moram e possuem uma oficina de arte, não há tantos turistas e monumentos. Eles vendem miniaturas dos monumentos em cima de uma carrinho de mão, com dois banquinhos na Praça dos Três Poderes, em frente ao Panteão.

Ele, que estudou até a quarta série, é artista e escultor de objetos em resina de fibra e vidro, faz peças delicadas dos principais monumentos da Capital, como a Catedral, a Torre de TV, o Congresso e o Palácio do Planalto, e os vende na Praça dos Três Poderes, local comum de turistas, apesar da queda no número de visitantes ao longo do tempo.

“Isso é um dom, uma arte, tenho orgulho do meu trabalho”, afirma Lucas. Foto: Arthur Menescal

Luciana apoia o trabalho e a arte do marido e, por acaso, o acompanhava na nova empreitada. Antes, vendiam as peças para outros vendedores ambulantes, mas decidiram tentar a própria sorte. Ela terminou o Ensino Médio, cursa faculdade de Direito e pretende, com seu trabalho, ajudar Lucas a aumentar a produção. São os mais novos na família da praça.

Ambos não conhecem muito bem Brasília, muito menos o Panteão. “Sei pegar o viaduto para ir pra casa”, afirma Lucas. Após explicação sobre a casa dos Heróis da Pátria, eles logo falam de seus próprios heróis. Ela têm os avós como referência: “Sou quem sou pela criação de meus avós”. Ele, o arquiteto Oscar Niemeyer: “Se não fosse ele e os desenhos dele, eu não teria emprego”. Lucas diz que não pretende parar nunca: “Isso é um dom! Já tentei trabalhar com outras coisas, mas nasci pra isso aqui mesmo”, completa. Ambos concordam quando dizem que “ser herói é zelar, cuidar e ter cidadania”.

O monumento em questão, cenário de todas essas histórias, foi inaugurado em 7 de setembro de 1986. Atualmente, o Livro dos Heróis da Pátria conta com 50 nomes: 44 Heróis e 6 Heroínas. O primeiro nome a ser escrito foi o de Tiradentes, em 21 de abril de 1992. O nome de Luís Gonzaga Pinto da Gama, intelectual negro no Brasil escravocrata no século XIX, foi o último a ser incluído, em 16 de janeiro de 2018.

O Livro, de páginas pesadas feitas de aço, encontra-se dentro do Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves. A existência dessa lista de Heróis não é muito popular e muitas pessoas não conhecem o lugar, ou só viram ele por fora. Os nomes ali escritos são conhecidos individualmente pelos seus feitos, não por estarem homenageados no Livro.

Quando a AGEFIS aparece “quase todo mundo é pernas pra que te quero”, menos os mais velhos, como seu Virgulino que já não foge mais da fiscalização. Ele simplesmente deixa levar o que tem ali e, no dia seguinte, volta com coisas novas. “Eu já me acostumei; já nem corro mais”, reforça.

Pessoas como Antônio, Lucas, Luciana, Virgulino e outros ao redor do Panteão são heróis anônimos da Pátria. Hoje sem homenagens, sem símbolo para representá-los e enfrentando as dificuldades de um trabalho informal, eles buscam o protagonismo de suas próprias histórias; buscam o heroísmo em suas própria vidas.

Por Frederico Beck, com colaboração de Arthur Menescal

Supervisão de Luiz Cláudio Ferreira