N(amor)o Livre

Arte: Marcelo Lima
O amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro mas eu vou te libertar
O que é que eu quero se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar”

Os versos da música “A maçã”, de Raul Seixas, escritos em 1975, traduzem o sentimento dos enamorados que decidiram se aventurar em relacionamentos não convencionais. A temática da poesia, que criou polêmica no país naquela época, não enfrenta tanto tabu no século 21. Passada a revolução sexual, a ditadura militar, os piores anos de contaminação pela Aids, casais têm compreendido que não são um do outro. Esse é o caso da nova história de amor do estudante Fábio Gabriel Campos, de 21 anos.

Ele e a companheira comemoram o Dia dos Namorados, no dia 12 de junho, como qualquer casal. Ambos vão presentear um ao outro e estão ansiosos pela data. Quem olha os dois de mãos dadas no cinema imagina que o namoro é convencional. Mas eles possuem um acordo sobre o compromisso: é permitido, para os dois, se relacionarem com outras pessoas. Eles vivem o chamado “relacionamento aberto” e juram: querem ser felizes para sempre. Histórias como a deles inspiram uns e causam olhares torcidos em outros. Seja como for, trata-se de um pacto de amor.

Fábio explica que escolheu o relacionamento aberto por causa de experiências ruins em namoros ditos “normais”. É a primeira vez que ele tenta algo diferente e a relação já dura dois meses, ainda em fase de adaptação. “Às vezes, lógico que o ego fala mais alto, né? Mas para mim não é normal, eu estou me ajustando ainda a isso. Tem pouco tempo.” Ele relembra que a decisão foi conversada entre o casal, mas a iniciativa partiu da companheira. O principal argumento da garota foi a diferença de idade entre os dois. “Ela estuda no ensino médio ainda. É um pouco mais nova que eu. Eu, na faculdade, tenho minha vida. Ela deu essa opção e a gente entrou em um consenso e resolveu fazer assim”.

O trato, no entanto, não ocorreu de imediato. “Para ela aceitar isso e eu aceitar isso a gente teve que passar por algumas situações. ‘Você pode sair com outras meninas e eu também posso sair com outros garotos, mas a gente tem que ter um bom senso’”. E a segurança foi parte essencial do processo. “A gente precisou gerar uma confiança pra ser mais tranquilo tanto pra mim quanto pra ela e ter uma relação mais a fundo depois de ficar”.

Entre as dificuldades desse tipo de relação, Fábio aprende a lidar principalmente com o preconceito. “Até para minha própria família é difícil. Tipo: ‘Ah, não vou levar em casa para o almoço em família porque não é nada sério’”. Independente disso, o estudante confia na legitimidade do namoro e defende que existe, sim, compromisso. “Um namoro sério envolve muita coisa, mas o namoro aberto também envolve muita coisa. Envolve entendimento, envolve você estar do lado da pessoa que você gosta. Nos momentos que você quer, que você precisa, tem uma pessoa do seu lado. É namoro”.

A estudante Vitória Freire, de 18 anos, está em um relacionamento aberto há três meses e conta que a decisão foi implícita, pois ambas as garotas se relacionam com outras pessoas desde o início da união. Apesar do acordo, o ciúme está presente. “É difícil, complicado. Muito ciúme e possessividade envolvidos. Da parte das duas, mas principalmente dela”. Vitória considera que relacionamento aberto não é igual a namoro. “Quando eu penso em namoro, eu penso num casalzinho monogâmico e tudo mais. E não num poli amor e tal. Então acho que é outro tipo de relacionamento, está em outro âmbito”. Apesar disso, ela diz que se sente muito feliz com a relação. “Eu não me vejo com outra pessoa agora”.

Gabriel Miranda Torres de Azevedo, de 23 anos, não se vê mais em outro relacionamento do tipo. Depois de fazer amizade com um homem pela internet, descobriu que ele também era gay. Assim, começou o que Azevedo chama de amizade colorida e que durou por três meses. “Eu não pegava ninguém, mas ele podia pegar, porque era uma amizade colorida e era aberta”, explicou.

O universitário relata que as pessoas não tinham reações negativas ao relacionamento. Até achavam diferente, por não ser comum, mas apoiavam: “Galera falava: ‘Que massa, cara. Espero que você seja feliz’”. A relação acabou quando o outro envolvido informou que namorava outra pessoa. Azevedo não considera o que aconteceu como uma traição, mas como uma ilusão. O que, para ele, é ainda pior.

Agora, com tudo terminado, Gabriel não acha que um relacionamento aberto possa ser chamado de namoro. “Eu acho que namoro é namoro. Amizade colorida é amizade colorida”, concluiu. Segundo ele, em um namoro existe compromisso e em relacionamentos abertos, não.

Solteira, a estudante Lara Nepomuceno, de 20 anos, esteve em um namoro aberto até metade do ano passado. O status atual se dá porque ela está em um ‘rolo’ ainda não definido, mas que também é aberto. Eles “ficam” com outras pessoas não por causa da indefinição da relação, mas porque os dois são poligâmicos. Lara gosta de compartilhar as coisas boas que ele dá para ela como companheiro. “Eu fico muito feliz que ele esteja se relacionando com outras pessoas também e que as pessoas façam bem pra ele tanto quanto eu faço”.

É o que a estudante diz quando as pessoas questionam a relação. Segundo ela, esperar ciúmes é parte do senso comum. No entanto, querer ficar com outras pessoas é uma decisão natural. No namoro anterior, os dois decidiram ficar fixo, mas ela trazia o diálogo sobre abertura. “Não fazia sentido fechar porque a gente sentia atração por outras pessoas e era mais fácil assim. Foi um consenso”, definiu.

O término ocorreu porque, na opinião da estudante de psicologia, os dois não tinham muita experiência com relacionamentos e são jovens. Ele se envolveu com outra pessoa com quem namora atualmente. Lara afirma que faltou definir direito o núcleo da relação. Ela passou por um momento difícil na vida, com crise de depressão e ataque de pânico. Por ser um relacionamento aberto, ele não achou que tinha o compromisso de estar lá para ela. “Eu estava muito insegura, muito instável e ele meio que me pediu a permissão para sair com uma menina com quem eu já tinha um problema”.

O “rolo” atual começou três meses atrás, com o melhor amigo de Lara. Em outro momento de fragilidade emocional e psicológica, ela teve asco de homens em geral e ele foi o único com quem ela se sentiu confortável. Eles se envolveram e passaram a “ficar”. “A gente conversa bastante sobre e eu sempre bato na tecla de que não quero me fechar. Eu não gosto de monogamia mesmo”.

A estudante não se apega à ideia de manter outras relações abertas ou fechadas. Até o momento, a monogamia não faz sentido para ela. Ela propõe que o conceito de trair ao ficar com alguém por quem se sente atração envolve trair a si mesmo por não deixar a vontade aflorar. “É um relacionamento e ele é tão verídico quanto qualquer outro. Seja de amizade, familiar. É um relacionamento. É real e tão forte quanto”.

“O que você busca em um namoro? Você busca a ideia de ter ao seu lado uma pessoa que teoricamente é só sua? Você busca companheirismos?”, é o que questiona o historiador e cientista político Frederico Tomé. Ele acredita que o namoro aberto é, sim, namoro. Mas, desde que as duas partes entendam assim. O antropólogo cita o conceito de “amor líquido” para definir esse tipo de relação. “Hoje, alguns autores vão chamar de pós-moderno, ou como (Zigmunt) Bauman gosta de falar, em uma época em que as relações são líquidas, o amor é líquido”.

Para alguns, os relacionamentos abertos parecem uma tendência em crescimento. Tomé, todavia, discorda. Para ele, não é a tendência que aumenta e, sim, a visibilidade. “Como se trata de uma questão nova, não os relacionamentos abertos, mas a aceitação social de que eles são possíveis, então nós percebemos hoje um número maior de adeptos a esse tipo de relacionamento”. Ele encara a questão como um acréscimo às variadas possibilidades de relacionamentos. “Da mesma maneira que a gente fala de um relacionamento livre, um namoro aberto, há pessoas que falam também em se guardar sexualmente para o pós-casamento. Então, perceba, não que exista uma tendência, mas há possibilidades”.

O historiador acrescentou que existem aspectos positivos nesses relacionamentos, mas não funcionam da mesma forma para todos: “se entre essas duas pessoas houver alguma um pouco mais ciumenta, com características bastante possessivas, talvez o relacionamento aberto seja mais uma dificuldade”. Mais importante, para o cientista social, é a discussão da posse sobre outro alguém. Segundo ele, em um namoro fechado, uma pessoa pertence aos desejos e vontades da outra, o que a inibe de satisfazer os próprios desejos. “Dentro dessa lógica, o ciúme e a possessão são peças fundamentais nessa construção conceitual do namoro clássico”.

O cientista social conhece pessoas que precisam estar em relacionamentos com mais do que dois envolvidos. Cita alguns dos argumentos para as relações. Os parceiros diferentes podem acompanhar em situações que agradam vontades diferentes. Um pode ser boa companhia para o cinema, outro para restaurantes. “São esses momentos da nossa vida cotidiana que talvez, esse relacionamento aberto possa preencher”, supõe.

Mas, mesmo com uma aceitação social maior, existem repressões contra esses relacionamentos. Para o antropólogo Frederico Tomé, elas são mais fortes sobre as mulheres que sobre os homens. “Quando temos a imagem de um homem com inúmeras namoradas, ele é o garanhão. Quando temos uma mulher com inúmeros namorados, há uma visão pejorativa e os apelidos dados a essa mulher são a contento desse elemento pejorativo”, explicou. Raul Seixas e versos de amantes defendem, outros acham impossível… “Infinita tua beleza, Como podes ficar presa, Que nem santa num altar…”

Por Bruna Maury e Vinícius Brandão

Arte: Marcelo Lima e Vinícius Brandão

Fotos: Vinícius Brandão

Filmagem: Bruna Maury e Vinícius Brandão

Edição de vídeo: Vinícius Brandão

Edição: Luiz Claudio Ferreira e Katrine Boaventura

As imagens dos entrevistados foram cobertas a pedido deles.