Sobreviver nunca será viver

Lá vai a baixa auto estima me puxando. Juro que não é por querer. Eu tento todo dia dizer para mim mesma ao olhar no espelho(clichê, mas consigo e preciso me ver. Ver além da aparência)que eu posso, que eu consigo, que nunca é tarde demais.

Quero deixar claro que esse texto é extremamente pessoal. Hoje vou e preciso falar sobre mim. Sei que existem pessoas em situações muito piores que a minha e isso me machuca mais por ver o quão fraca eu sou. Sim, eu sou fraca. Não sei quando isso começou. Minha mãe dizia que era algo genético, que nasci assim. Talvez ela tivesse e tenha razão(apesar de morta suas palavras ficaram).

Não posso dizer que não tive uma infância como a maioria das crianças deveria ter. Mas me lembro que desde aquela época eu me sentia estranha. Estranha comigo, com minha aparência, com ser preterida(palavra forte eu sei). Lembro que nas ocasiões das festa juninas na escola, o patinho feio aqui era sempre escolhida para ser o homem do casal da quadrilha. Era a mais alta da turma. Ficava sempre no final e os meninos faziam troça, zoavam com a minha cara para não dizer a palavra bullying. E o que eu fazia? Guardava tudo para mim como sempre fiz e ainda faço. Afinal, sempre fui eu ESTRANHA? O que é ser estranha? É não conseguir se adaptar a esse mundo que a toda hora te arranca mais do que você consegue suportar? É atestar que nós mulheres desde o nosso nascimento somos marcadas como gado( Sim, sei que existem diferenças quanto a raça, classe, etnia e sexualidade). É não poder ser quem você queria ser? Mas quem você queria ser, Bia?

Eu queria ser EU mas sem esse sentimento de impotência, de incredulidade, de tristeza, dor por ser quem eu sou. Não ser padrão e tentar entrar nesse esquema da “Aparência é fundamental”. Me mata aos poucos. Porque até a mais padrão, a mulher que pode ser considerada a mais bonita do mundo, tem algo fora do padrão boneca inflável(Novamente sei que dependendo da raça, etnia, classe e sexualidade isso piora).

E por quê estou dissecando quase isso? Porque eu me meti( como diria a minha avó) a trabalhar ou pelo o menos tentar trabalhar com arte. Mais específico no teatro e cinema. E ver principalmente no cinema e TV, uma indústria que lida e impõe de muitas formas uma derrota às mulheres, me deixa em depressão não só por mim mas por todas mulheres que não conseguem um papel porque são “gordinhas” demais, ou como já me disseram “ masculinas” demais, ou negra demais( caso Globeleza) ou demais feia para este padrão eurocêntrico caucasiano magro + esteticamente projetado e cirurgicamente calculado.

Eu tenho em mente em escrever um outro texto com um título mais ou menos “ As mulheres não têm o direito de ser.” Ser como forem, magras, gordas, o direito de envelhecer, de não querer usar maquiagem, de não usar roupas femininas, de não serem femininas se não quiserem. De ter suas linhas de expressão, suas rugas, suas celulites, estrias, peito caído que seja. Um fio de cabelo branco numa mulher- “ Nossa como você tá precisando de tinta para pintar o cabelo. Está muito desleixada”. Para homem: “ Que homem charmoso”. Mulher gorda — “ Vai fazer academia que você está obesa”. Homem com a famosa barriga de chopp — “ É a graca do papai”. E mulheres heteros aceitam e a sociedade aceita como NORMAL.

E isso AINDA é reproduzido na indústria de entretenimento( Cinema, TV ou Teatro). E é a indústria que desde criança quis trabalhar. É a indústria que me fez ir ao cinema com 14 anos sozinha ver o primeiro filme do Senhor dos anéis e chorar no final com os créditos dizendo que um dia meu nome estaria lá. Passados 16 anos onde estou? Eu sou um robô? Preciso reproduzir essa sociedade maquiavélica? Preciso me submeter a trocentos tratamentos estéticos e cirurgias para ser chamada para trabalhar onde o talento( se tenho ou não verão na hora)deveria ser o chamado. Oi Sadako, toque esse telefone. Saia da TV e arranque esse abismo em minha alma.

Eu quero viver não apenas sobreviver.

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