Visibilidade lésbica — Meninas, estou solteira

O mês de agosto não tem lá uma fama muito boa, apesar disso, eu adoro (mesmo sendo meu inferno astral — alô, astrólogos). É o mês do orgulho lésbico então é um período em que eu vejo muito material sobre nós circulando: estatísticas, textos, poemas, vídeos, fotos. E é lindo nos ver um pouco mais visíveis nesse mar de esquecimento.

Fotos de casais aparecem aos montes, e acho que do mesmo modo que cada lésbica morre um pouco quando vemos casos de assassinato por lesbofobia, que cada uma de nós sente a dor de quem é expulsa de casa, cada uma de nós também se enche de felicidade ao ver duas mulheres se amando e vivendo esse amor que a sociedade fez ser motivo de guerra.

Eu nunca passei nenhum agosto namorando. Nem um aniversário, nem um dia dos namorados. Eu vivi um amor recíproco uma vez e quando terminou eu morri de medo de não ter mais a beleza e o companheirismo que existe na relação entre duas mulheres, de se entregar tão livremente pra alguém e segurar sua mão mesmo sabendo dos olhares e violências que estamos sujeitas.

Eu já sabia que era lésbica aos 14 sem ter beijado mulher, e isso, claro, levantou algumas dúvidas de “como você sabe se você nunca ficou com uma mulher?”. Eu já ouvi de outras lésbicas, mais novas ou mais velhas que eu que, de certo modo, parece que para os outros, nossa identidade depende do estar com alguém. É difícil fugir da ideia de um relacionamento monogâmico e do caminho namorar-casar-ter filhos.

Não acho que seja restrita à lesbianidade essa dependência de estar com alguém para saber quem somos. Mesmo sendo mulheres da fase do empoderamento, do voto, da carreira profissional, ainda crescemos ensinadas ao casamento e à posição de mãe e esposa. Você pode ser uma mulher independente e bem sucedida, mas eu aposto que alguém vai te perguntar se você não pretende casar ou o porquê de você ainda não estar com alguém.

Eu cresci com a ideia do relacionamento sendo o final feliz e, mesmo tendo me desvinculado cedo da hetenormatividade, o sentimento de precisar de uma relação amorosa para ser feliz foi — e é — algo mais difícil de me desvincular.

Apesar de acreditar que isso é algo comum entre mulheres no geral, acho que existe para as lésbicas algo a mais. Primeiramente, existe o peso do estereótipo do relacionamento lésbico como uma fase ou brincadeira — uma relação que não é levada a sério por não envolver um homem — , além de querermos fugir da ideia da homossexualidade como sinônimo de promiscuidade. Mas também, existe uma solidão que é peculiar a nós que vivemos na sombra, que sofremos todos os dias com o silenciamento na sociedade heteropatriarcal, no movimento lgbt e no feminismo.

Uma opressão que nos acompanha há séculos, desacreditando nossa sexualidade por ela não depender do homem e que tenta, de diversas maneiras, nos transformar em errôneas consequências da falta de amor, da falta de desejo, da vontade de chamar atenção do olhar masculino, quando na verdade tudo que queremos é sermos vistas além da categoria mais acessada dos sites de pornografia.

Eu realmente andava com mais medo de ser vítima de violência quando namorava, quando saiamos de mão dada e fazíamos coisas de casais, que são tão banais para os heteros mas são uma pequena batalha para nós. Ao mesmo tempo, existe um medo diferente ao voltar para casa sozinha. De não ter a possibilidade de criar uma família, quando vivo com a rejeição da minha. De que, numa sociedade que não ama quem sou, não irei encontrar o amor nos braços de uma mulher.

É um exercício diário para mim, sentir a intimidade e a paixão — diferente do estar apaixonado — a cada mulher que eu toco, que eu olho e beijo, sem sentir uma falha de não ter o segundo encontro, por não ter o relacionamento saudável, feliz e monogâmico. De não deixar me afetar quando sou usada como brinquedo e fetiche por quem não é lésbica. De em cada relação, saber mais sobre quem eu sou, mas também saber o que significa ser lésbica quando acordo sozinha, quando pego o ônibus, quando saio com meus amigos, quando vou trabalhar.

Eu acredito que essa solidão seja comum entre muitas lésbicas, talvez eu esteja errada, talvez não. De qualquer modo, no dia da visibilidade lésbica eu gostaria de desejar toda felicidade aos casais e, a todas sapatonas solteiras por aí: saibam que não estão sozinhas. Leiam e ouçam o que as outras lésbicas tem a dizer, conversem, se conheçam — existe um apoio muito enriquecedor nessas amizades — . Nós não nos resumimos a nossa sexualidade, mas é inegável o peso que isso tem e o quão importante que sejamos e gritemos LÉSBICAS, de mãos dadas umas com as outras, namoradas, amantes, ou não.