Mais autoafirmação ideológica na prova do ENEM

Mais afirmação ideológica no ENEM… A questão abaixo, ainda na prova de inglês comenta uma poesia de uma autora indiana sobre o seu inglês, um inglês misturado com sua língua materna, possivelmente o hindi (já que há várias línguas na Índia) e que isto revela sua identidade.

É verdade, nada a contestar, afinal a cultura que inclui a língua é algo extremamente dinâmico em uma perspectiva histórica e as migrações, influências da mídia, ainda mais hoje em dia tornam as mudanças inevitáveis. A questão subjacente é que isto posto em uma prova quer dizer o quê? Assim como a valorização de um “dialeto LGBT”, a prova em si não deveria apontar para uma fragmentação da comunicação como norte. Não se trata de negar a riqueza das particularidades subculturais, mas que neste momento a norma culta tem que ser valorizada, pois ela sim é fundamental para integração de vários povos em uma linguagem comum e não me refiro aqui, especificamente, ao inglês. Fazer o contrário seria como usarmos um sistema de pesos e medidas diverso do nosso porque há imigrantes anglofónos entre nós. E se tu achas a comparação muito forçada é porque nunca passou na cabeça que este grupo também é outro que deve ter sua identidade assegurada.

Reitero, em um momento e lugar, uma prova nacional de seleção para entrada na universidade em que se presume que um conteúdo seja uniforme a todos garantindo assim isonomia nas condições de avaliação é justo ressaltar (e cobrar) as diferenças?

A questão de inglês acima não cobra, exatamente, o domínio do léxico misto entre inglês e alguma língua indiana, mas ela colabora com um tijolo neste edifício ideológico que foi a prova do Enem 2018.

Anselmo Heidrich

7 nov. 18