O Brasil de Tarantino

Quentin Tarantino é um dos maiores diretores de cinema da atualidade, chegando a ser elevado ao patamar das grandes lendas da sétima arte (Kubrick, Hitchcock, entre outros). Entretanto a maior crítica aos seus filmes é o excesso de violência, que pelo seu talento, concordo ser desnecessária, mesmo que seja sua estética, sua “marca pessoal”. Isso me faz lembrar outra maravilha com abundante hostilidade: o Brasil. Na atualidade, vivemos verdadeiros “tempos de violência”; cenas como PMs cometendo chacinas, bandidos mais bem armados que a polícia e até civis virando “Justiceiros” e punindo bandido (sem levar em conta os Direitos Humanos), parecem ter saído de um filme. Para nós isso se torna tão corriqueiro, que punir com a morte se torna normal, uma verdadeira “banalização do mal” (termo cunhado pela filósofa Hannah Arendt).
Por causa disso erguem-se bandeiras falaciosas, como da a redução da maioridade penal, “bandido bom é bandido morto”, pena de morte, todas querendo ser protagonistas do “longa-metragem da vida real”. Numa reviravolta do roteiro brasileiro, o “plot twist” faz como que heróis se tornem vilões e acusados virem vítimas, mas a constante se matem: O índice da violência e criminalidade aumentou no Brasil a níveis aterradores (segundo o Mapa da Violência 2016, houve um recorde de homicídios no Brasil, ultrapassando a marca de 59,5 mil mortes violentas em 2014). Diferente do cinema, isso não me diverte, me assusta e me faz pensar “Qual a causa disso tudo?”.
Uma das causas é, contraditoriamente, a própria polícia. Entendo que a vida policial é difícil, necessária e extremamente estressante, no entanto isso não é justificativa para aqueles que usam da farda para aplicar a lei não segundo o que foram instruídos, mas sim como “acham” que sabem o que o infrator merece, seja por meio de torturas físicas ou psicológicas. Como nos mostra cineasta brasileiro, José Padilha, em seu filme “Tropa de Elite”, a polícia brasileira tem casos de corrupção, é “amarrada” em muita burocracia e é um peão político do governo municipal, estadual e federal, por vezes só agindo para angariar votos. Até o personagem principal do filme, Capitão Nascimento, que era para ser um retrato de um policial violento, virou herói nacional, tamanha nossa perda de valores. Com isso tudo, a criminalidade e a violência sobem, logo quando a polícia age, reprime de forma brutal e excessiva. Por falar em brutalidade, cito os PMs, que transformam, muitas vezes, os quartéis em açougues ao torturarem e matarem largamente. Prova disso foi que ao excluir das estatísticas as mortes cometidas por PMs de folga em “legítima defesa”, ampliou-se a queda de homicídios em São Paulo, já que nas horas vagas eles montam grupos de extermínios com o lema “Bandido bom é bandido morto”. Isso é um dos motivos que fez a própria ONU pedir para que Brasil para que se criem medidas que acabem com a violência extralegal, ou com a instituição da polícia militar, uma vez que temos um péssimo histórico de militares interferindo no âmbito civil.
Com um polícia ineficiente, por vezes com preconceitos sociorraciais, os homicídios e outros crimes se tornam consequências, não a causa. Nas periferias, os cidadãos sem segurança e/ou temendo os policiais, ficam à mercê do aliciamento de criminosos. Por causa exatamente disso que surgem menores infratores, de trombadinhas à “mini traficantes”. A comitiva dos indignados pede a redução da maioridade penal, mas como a culpa não é da idade, isso só serve de placebo. Tal ação é desesperada e sem fundamentos, pois ao se prender um “bandido” de dezesseis anos, logo virá um de quatorze, depois um de doze, um de dez e assim por diante, chegando ao ponto de prendermos bebês ao saírem da maternidade. Lugar de jovem é na escola, pra crescer e se tornar um brasileiro produtivo e até, quem sabe, um futuro policial que ajudará sua comunidade, como muitos bons policiais fazem (e se o sistema de medidas socioeducativas, como a FEBEM, só consegue recuperar certa porcentagem de jovens, a culpa não é do sistema e sim de quem o administra.). A adoção da maioridade penal só vai travar ainda mais a mobilidade das classes sociais que, aliás, é outra grande causa de violência e delitos nas cidades. Essa solução, mais fantasiosa que qualquer filme, condenará as próximas gerações, que são o futuro da nação.
Por último, saindo da brincadeira de “policia e ladrão”, temos uma situação que mais parece uma obra hollywoodiana, os “Justiceiros”, que tem se destacado nesse cenário de violência. Não, não estou falando de mascarados e superpoderosos, e sim de civis, que pela revolta, não pela justiça, se acham no direito de punir os outros, mesmo que os criminosos estejam detidos ou por que querem resolver suas pendências não na justiça, e sim na bala. Esses casos que são mostrados, ou melhor, “espetacularizados” em certos programas televisivos me enchem de nojo, seja as brigas por terras no Norte do país ou até mesmo uma discussão no trânsito que acaba errado, por que me faz perceber o quanto o brasileiro perdeu a empatia com outro, o quão a morte se tornou banal e quão Pindorama parece não ter mudado desde os tempos coloniais. Os grupos justiceiros, que se acham heróis, além de bárbaros, são algo que anula a justiça, já que seus “julgamentos” ferem o artigo XI da Declaração Universal dos Direitos Humanos que diz :“Toda a pessoa acusada de um ato delituoso presume–se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas (…)”, logo quem os praticam são tão ruins quanto os criminosos. 
Você quer prender bandidos? Ótimo, faça o concurso para entrar na polícia. Se você a acha ineficiente, ajude-a a melhorar, não faça o trabalho dela pior que ela. Por esse mesmo motivo não adianta o porte de arma, por que se os bandidos atacam até oficiais em serviço, acha que você com uma pistola é um alvo menos fácil? Acha que o melhor para o país é ver todos armados andando pelas ruas? Por que, meu amigo, isso é coisa de filme pós-apocalíptico. Deixe os policiais fazerem o trabalho deles, pois você não vê um arquiteto invadindo um hospital e fazendo uma cirurgia e nem um padeiro ensinando um programador a criar uma criptografia. Logo, que cada um faça aquilo que se formou para fazer.
Minha consideração final é que se nada mudar, prevejo um Brasil de crianças em presídios abarrotados, guerras incessantes entre policiais e bandidos nas ruas, grupos de extermino de ambos os lados fazendo massacres e civis aleatórios armados matando quem acham que deve morrer, todos ignorando a justiça. Pode até ser isso irá parecer com um filme de Tarantino, mas sem suas belas trilhas sonoras, com mais sangue e não será ficção. Se isso não puder ser evitado, que ao menos os grandes e verdadeiros criminosos, os que ocupam cadeiras na Câmara, sejam retalhados por katanas, ao estilo “Kill Bill”, pegos em tiroteios como em “Pulp Fiction” ou queimados vivos como em “Bastardos Inglórios”. Bandido bom é bandido morto, não é ?