Cara Gente Branca, sou filho de empregada sim. Mas e daí?

Terminei de ver ontem a nova série da Netflix, Cara Gente Branca (ou Dear White People). Eu me vi em muitas das personagens centrais, sobretudo em Samantha White, por ela em alguns momentos ser considerada “não tão negra”, por sua pele não ser tão escura. Bem como, em especial, por ela ser vista enquanto uma persona non grata no meio universitário.

Quando pequeno, minha mãe acabava me levando, vez ou outra, para seus locais de trabalho, para dentro das casas dos seus patrões. Ela era ora empregada doméstica, ora diarista. E às vezes - como sua jornada diária de trabalho ainda era estipulada na época pelos patrões por não existir equiparação aos direitos previstos na CLT - ela passava o dia inteiro trabalhando. Me levar, em geral nos fins de semana, seria, então, uma despreocupação. Ou simplesmente uma forma de passar algum tempo comigo, com seu próprio filho. Ou um pouco dos dois.

O problema maior disso era que eu carregava comigo uma percepção bastante perversa sobre meu corpo, que era agravada quando eu chegava naquelas casas indiscutivelmente mais confortáveis, grandes, bonitas e brancas que a minha: eu me sentia sujo, muito sujo. O problema era minha pele, a cor dela. Eu sentia que ela estava encardida. Seja pelo sol que eu tomava, seja porque de algum modo o espectro da pobreza do meu bairro e casa trazia intrinsecamente uma sensação de sujeira. Eu só sabia, em suma, que minha pele não era tão escura, logo, acreditava que poderia se tornar mais clara. Eu só precisaria tomar banho, muitos banhos ao dia. Em torno de, no mínimo, cinco, me esfregando com muita força, evitando me sujar depois e sair ao sol. Em alguns momentos eu até me convencia de que aquele conjunto de práticas estava surtindo efeito. Até me deparar com aqueles ambientes elitizados que minha mãe trabalhava, forjados por pessoas brancas e pela branquitude.

Era um baque perceber que minha pele nunca seria clara o suficiente, não importasse o que eu fizesse, que eu nunca iria parecer com os filhos dos patrões da minha mãe. As pessoas diziam que eu havia “herdado” da minha mãe a cor negra dela, mas que eu era meu pai inteiro. Eu sempre quis que tivesse ocorrido o inverso. Desejava ter herdado a branquitude do meu pai. Ainda mais porque parecia que ter herdado a cor da minha mãe trazia inerentemente uma outra herança, a de que eu precisava ser e me portar como ela em todos os lugares. Eu precisava ser subserviente, humilde, gentil e grato de forma constante, não só nos seus locais de trabalho. Lá era explícito que eu deveria nutrir posturas servilistas: o lugar destinado a mim na mesa da cozinha e em outros espaços da casa, o tom de voz ameno, o uso do banheiro com extrema cautela, a gratidão que eu deveria ter quando ganhava roupas e brinquedos velhos e a inação adotada quando os filhos dos patrões me batiam ou xingavam.

No entanto, ser uma criança de pele mais escura sempre me exigiu ser quieto, calmo, calado e limpinho em qualquer ambiente. Ninguém me elogiava se eu assim não fosse. Aliás, não me elogiavam em si, mas sim o fato de eu quase não ser notado ou de não incomodar. Eu não tinha direito a ser hiperativo, por exemplo. Ninguém ria ou compreendia se eu cometesse alguma “bagunça”. Se assim acontecesse, eu provoca uma irritação descomunal, era reprovado por meio de gritos. Fui percebendo que eu não despertava reações gratuitas de gostar ou carinho. Que meu corpo “sujo e fedorento” era o impeditivo. Que, pelo visto, não era só eu a única pessoa que sentia que ele aparentava ser assim.

Foi aí que passei a rejeitar a herança indireta que a cor da minha mãe me conferia. Não queria continuar suprimindo meu eu para ser tolerado. Passei a questionar as cobranças por uma postura assujeitada. Passei a ler qualquer coisa, em excesso, sem parar. Desde quadrinhos da DC à Machado de Assis. Passei a me destacar ainda mais na escola, a me posicionar, a me fazer ouvir. Queria que me notassem, que percebessem que eu estava ali e sabia falar mais do que “com licença”, “por favor” e “obrigado”. Entretanto, rapidamente confundiram minha tentativa de não me sentir e nem me portar como pior com querer ser “melhor do que os outros”. Algo como foi retratado no filme Que Horas Ela Volta? e verbalizado expressamente pela personagem Jéssica, filha da empregada Val.

Ser filho da empregada me territorializava, me demarcava. Eu não podia escapar de uma maneira de ser dócil, não à toa não só racializada, como igualmente generificada/feminizada. O espaço público dito como destinado aos homens, no sentido macro e micro, não me abarcava. Eu era o filho da empregada, da cor de uma empregada. Eu deveria ser criado para ocupar no futuro outras funções e posições sociais que exigissem de mim não uma suposta arrogância, voz, intelectualidade. Eu deveria ser o porteiro do prédio, o motorista, o jardineiro, o faz-tudo. Figuras em que a masculinidade destoa da hegemônica, no que diz respeito à liderança ou capacidade de liderar. Para isso eu não poderia ser metido. Não poderia viver afundado nos livros. Tanto que quando me tornei adolescente os patrões da minha mãe, de regra, mandavam-na arranjar algo para eu trabalhar, para que eu começasse a criar o espírito da coisa e não me desviasse, virando um acomodado-vagabundo sem gosto pelo trabalho. Em contrapartida, eles desejavam que seus filhos brancos ficassem inundados nos livros. Minhas virtudes eram, portanto, bastante aristotélicas, essencializadas e essencializantes.

Samantha White, em Cara Gente Branca, paga um preço alto não só por ocupar o espaço acadêmico, mas por se destacar nele, por querer e se empenhar nisso, escancarando o racismo e as tensões raciais existentes e estruturantes da própria Universidade. Eu quando entrei no curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba, por meio das ações afirmativas e vindo do interior, sei bem o me esperava. Minhas intervenções nas aulas, minhas boas notas, meu envolvimento no movimento estudantil de esquerda, minha experiência como estagiário em um escritório de advocacia longe de ser da minha família, meu empenho na pesquisa e extensão desde o primeiro período, minha posição de monitor e, enfim, todo e qualquer destaque produzido pela minha dedicação à experiência da graduação me fez e faz ser lido como arrogante, metido, egocêntrico. Dizem que eu não deveria ser assim, que eu poderia ser mais agradável se me esforçasse para mudar um pouco.

Eles só não sabem que a minha vida toda eu tentei mudar, me adequar ao que esperavam socialmente de mim. Contudo, ao compreender que as tentativas de esfregar com sabão minha pele não a tornavam mais clara, eu tive a certeza de que não conseguiria esse feito, eu nunca conseguiria ser totalmente aceito, tolerado. Em resumo, eu não poderia ser branco. Eu sendo negro serei uma persona non grata a nível sistemático a vida inteira e a culpa disso não é minha. Jamais será. Não adianta que eu me esforce em paralelo e individualmente. Meus esforços hoje são direcionados ao coletivo, com pretensões de subversão de um sistema que me fez sentir culpa e ódio de quem sou por muito tempo já.

No mais, que mudem às expectativas e olhares históricos que recaem sobre nós negros se é tão desconfortante notar que ultimamente escapamos do que esperavam que fôssemos. Não irei regredir às figuras marcadamente racializadas e servis que me foram vomitadas como únicas opções quando eu era criança. Sou um filho de empregada doméstica sim, com muito orgulho. Mas e daí? Isso não diz quase nada sobre mim, nem muito menos sobre como devo me portar ou até onde posso chegar.