mudanças

eu não me lembro como começou.

não sei quando exatamente – no meio do caos do meu quarto e da minha cabeça – essa cama passou a parecer maior e mais fria.

não saberia dizer como passei a sorrir para objetos inanimados como quem perdeu o contato com a realidade – talvez eu houvesse, realmente, o perdido.

sei que, em algum momento, aqueles cabelos se tornaram mais macios quando entrelaçados entre meus dedos e aqueles olhos passaram a tomar cores mais vivas quando encontravam os meus.

não sei quando parei de procurar em suas feições o afeto que não me foi dado antes, ou quando todos os meus outros amores se tornaram irrelevantes.

não sei quando, como ou por que um furacão como eu tornou-se brisa, para então querer ser vento e soprar aquele rosto toda vez que as janelas são abertas,

mas talvez seja por ele.


Imagem: “Water the flowers” por Mark Samsonovich.