Para os que não estiverem compreendendo o sentido de um blog sobre gamificação falar sobre história política do Brasil, aqui vai a explicação.
A missão do Projeto #AJogada é reunir pessoas, ferramentas e conhecimento para tornar possível uma nova administração 100% gamificada.
A importância de falar de administração assunto que tanta gente acha chato, é em virtude de uma característica inerente à sua natureza. O efeito da administração sobre a realidade é algo que torna a realidade ao nosso redor evoluída apenas na mesma medida que as ferramentas de administração que utilizamos nos possibilita.

Em outras palavras: ferramentas avançadas de administração = civilização avançada.
Causa > efeito.
Da história da pedra lascada à espaçonave, a história humana é a história da evolução da ferramenta. E a ferramenta é o artefato tecnológico que permite a administração dos resultados quando se intenciona conectar a realidade de uma circunstância à uma possibilidade que exista na imaginação do usuário da ferramenta, ou administrador.
Para entender a nossa história precisamos primeiro entender a história dos nossos antepassados.
O Estado Moderno ocidental começou em Portugal.
“Em 1297 foram definidas as fronteiras no tratado de Alcanizes, tornando Portugal no mais antigo Estado-nação da Europa. Nos séculos XV e XVII, como resultado de pioneirismo na Era dos Descobrimentos, Portugal expandiu a influência ocidental e estabeleceu um império que incluía possessões na África, Ásia, Oceânia e América do Sul, tornando-se a potência económica, política e militar mais importante de todo o mundo. O Império Português foi o primeiro império global da história e também o mais duradouro dos impérios coloniais europeus, abrangendo quase 600 anos de existência, desde a conquista de Ceuta em 1415, até à transferência de soberania de Macau para a China em 1999. No entanto, a importância internacional do país foi bastante reduzida durante o século XIX, especialmente após a independência do Brasil, a sua maior colónia.”

A formação do Estado português se deu em meio a um movimento de expansão da sua influencia territorial protagonizada por lideranças muito anteriores. A Igreja Católica e reis militares, que no ano 1095 iniciaram um o movimento das cruzadas com a intenção de realizar conquistas territoriais sobre os avanços dos povos árabes no oriente e no ocidente, na península Ibérica.
No momento da sua formação, o Estado-nação português se estabeleceu em torno de ferramentas administrativas de tecnologia praticamente medieval. Desde a sua formação, a grande virtude do império português que se fez notória foi a sua capacidade militar de manter domínio e unidade de seus territórios. Apesar de sua diminuta dimensão territorial hoje, no momento de seu surgimento, Portugal foi o país de mais largas dimensões territoriais de toda a Europa. Pois naquele período o território europeu era uma malha de pequenos reinos e principados chamados de feudos. Pequenas porções territoriais de economia rural estabelecidas em torno de um castelo fortificado onde habitava a administração e onde os camponeses podiam se proteger de invasores e os nobres guerreiros realizavam a proteção militar do espaço.


A próxima realização empreendedora do império português naquele momento foi o desenvolvimento de novas tecnologias náuticas. A localização privilegiada, o extenso litoral e a necessidade de estabelecer novas rotas comerciais com o oriente, impulsionaram o interesse português pela navegação. Alguns instrumentos náuticos, conhecidos desde a antiguidade, legados pelos árabes à Europa, foram então aperfeiçoados pelos navegadores portugueses, como é o caso da bússola, do astrolábio, da balestilha, da ampulheta e do quadrante. Outra inovação importantíssima dos portugueses foi o desenvolvimento de novas embarcações, como a caravela, com a qual o Brasil foi descoberto por Pedro Alvares Cabral. A coroa portuguesa também foi capaz de estabelecer inovadores sistemas administrativos para o Estado que tornaram possível ao monarca ter consciencia sobre os eventos em seu extenso domínio territorial tornando possível administrá-lo.


É necessário comentar a relevância destes pontos. As ferramentas acima citadas foram fruto de uma fantástica visão empreendedora dos reis portugueses para aquele período. Estas ferramentas protagonizaram na europa um movimento econômico e político gerador de profundas transformações que poderíamos chamar de Revolução Mercantilista. As ferramentas náuticas acima, assim como as embarcações modernas, tiveram o poder de encerrar a Idade Média, num movimento que causou o surgimento de vários países e a formação de vários estados nacionais num efeito dominó, em que Portugal foi seguida por Espanha, Holanda, França e Inglaterra até que se iniciou a Revolução Industrial pelas mãos dos ingleses que posteriormente perderam a vanguarda do mundo ocidental para os alemães e depois americanos. Os portugueses foram os primeiros visionários do mundo globalizado em que hoje vivemos.
O Estado brasileiro e seus sistemas administrativos
Os sistemas administrativos que o Estado português, desde o princípio, implantou no Brasil carregaram a herança da administração vigente na sua época. Uma administração medieval mercantilista.

Imagine a responsabilidade assumida dos descobridores de um território continental como o Brasil em garantir a sua posse e o seu controle. Foi a principal preocupação da coroa portugesa em relação ao território brasileiro que inicialmente decidiu dividir em imensas tiras de terra chamadas de capitanieas hereditárias. O próprio nome revela o quanto estas unidades adminsitrativas carregam os princípios medievais de administração em sua concepção. Muitos deles presentes até hoje na nossa realidade.
De 1500 a 1822 o império porguês administrou o Brasil com o propósito exclusivo de enriquecimento da coroa, pois esta era a inteligência administrativa que conhecía.
Modernamente comparamos o desenvolvimento brasileiro com o desenvolvimento norte-americano ou de outros países e nos causa angústia notar o quanto somos atrasados mas pouco compreendemos a causa deste aparente atraso. Fomos fruto da primeira grande empreitada do homem medieval europeu em formar o primeiro estado-nação moderno e em sair do seu ostracismo para explorar o mundo. Somos o primeiro experimento de Estado moderno. E em razão do pioneirismo português ficamos isolados de grandes inovações culturais que outros povos europeus promoveram inspirados pela experiência portuguesa.

Esta aparente contradição de, o pioneiro tornar-se o último, é explicada pelo que na administração chamamos de dilema do inovador.
Este dilema explica por que, por exemplo, no início do século a Ford criou a produção em série de automóveis mas não manteve a liderança perdendo-a para a Chevrolet. As empresas de máquina de escrever não foram as protagonistas da tecnologia sucessora, o computador pessoal. Assim como o computador pessoal, que nasceu da Apple, não se popularizou pela Apple mas sim pela cadeia de produtos criadas pela Microsoft. Que não protagonizou a revolução da computação mobile atual, que foi realizada pela Apple. Que não manteve a liderança pois o sistema operacional móvel mais usado hoje é o Google Android e não o iOS por ela criado.
Inovar é lançar um novo paradigma, mas ao mesmo tempo, servir de apoio para que outro suba em seus ombros e lhe supere. O que, obviamente, não significa que inovar seja ruim. Ao contrário, inovação é a grande força geradora de lucros para todas as indústrias.
Portugal foi pioneira na criação do Estado-nação moderno e na criação do jogo mercantilista. Mas foi superada neste jogo pela Espanha que foi superada pela Holanda, que foi superada pela Inglaterra e esta para Alemanha no tabuleiro europeu e para os Estados Unidos no tabuleiro do jogo global. Tudo isto só foi possível por que estas nações tiveram o exemplo portugues para aprenderem e se espelharem, antes de se lançarem em suas empreitadas.
De 1500 a 1822 o Brasil foi uma colonia mercantilista administrada com a tecnologia 1.0 herdada do primeiro Estado-nação mercantilista moderno originário de um movimento religioso-militar que foi as cruzadas.
Imagine quantas inovações culturais foram possibilitadas a partir da experiência portuguesa e que ficaram fora do nosso alcance por sermos fruto do pioneirismo da monarquia portuguesa.

Houve a revolução protestante na Alemanha, as inovações comerciais holandesas como as companhias das indias, o ideário iluminista francês da revolução francesa, a revolução industrial protagonizada pela Inglaterra. E até este momento, no século XIX, o Estado português e a monarquia portuguesa permaneceram agarrados aos modelos e técnicas administrativas do período mercantilista. Enquanto os ânimos revolucionários se aqueceram na europa e resultaram no império napoleônico a monarquia portuguesa transferiu-se para o Brasil, em 1808. E quando foi embora, em 1822, o Brasil se tornou independente mas manteve as estruturas monarquicas até o ano de 1889 quando nos tornamos República.
A moral desta história é que o Estado brasileiro viveu a maior parte da sua história sob paradigmas monarquistas de administração, imune às inovações republicanas que estiveram profundamente presentes na constituição dos Estados Unidos, por exemplo. Lá o modelo já chegou na versão 1.5. Somente em 15 de novembro de 1889, mais de cem anos depois da formação da república nos Estados Unidos, para um paradigma oligárquico de administração. Que ainda manteve muitos dos ferramentais monarquistas de administraçao pois a oligarquia é constituida de uma estrutura muito semelhante a esta. A república brasileira nunca foi mais do que isso.

Um exemplo de como o ferramental administrativo monarquico ainda é presente na organização do nosso Estado se encontra no ainda presente militarismo das forças do Estado brasileiro. Herança do estado português cruzadista que foi extremamente competente em suas conquistas militares frente aos mouros e em manter integrado um território continental como o brasileiro. Conquista que talvez tenha sido a mais importante da nossa história pois fragmentados, dificilmente teríamos alcançado o status de sexta economia global que alcançamos.
O Brasil do futuro — system under update
A corrupção endêmica, a ineficiencia sistêmica e as tensões sociais crescentes, são nada mais do que reflexos de que o sistema administrativo brasileiro chegou ao limite de sua capacidade de operação nas bases do paradigma em que foi constituido, o Estado moderno estabelecido pela monarquia portuguesa do século XIII.
Da mesma maneira que o seu computador com Windows precisa ser formatado de tempos em tempos pois, assim que se instala o sistema e se passa a usa-lo, o sistema já fica sujeito à corrupção por virus, spyware e malware, o Brasil está prestes a realizar um enorme update em seus sistemas adminstrativos.

A evolução das ferramentas modernas de trabalho, criadas a partir da era da informação, criaram como consequencia um novo paradigma de organização empresarial. A organização com organograma em piramide, arquitetura presente na organização militar, e adaptada ao estado, está sendo progressivamente sucedida por uma arquitetura mais eficiente, a arquitetura horizontal em rede nas empresas desta nova era tecnológica.
Com talento para se relacionar em redes, com os usuários mais ativos da internet hoje (apesar da infraestrutura sofrível e preços absurdos), com facilidade cultural e genética para se adaptar a realidades complexas e diversidade, povo social e criativo, numa era em que a economia gira em torno do conteúdo, o Brasil é hoje, provavelmente, o país mais preparado do ocidente, e talvez do mundo, para adaptar a arquitetura de rede às ferramentas administrativas do Estado. E a ter sucesso em larga escala neste desafio.

Este update em nosso sistema para a sua versão 2.0 significaria o paradigma shift, ou completo abandono dos paradigmas hierárquicos de administração pública importados da organização militar, estabelecidos pelo primeiro estado Estado-nação do ocidente, para a adoção de um paradigma de participação distribuida nas decisões, importados da rede de computadores em que não há uma autoridade central tomadora de decisões, mas apenas a própria rede e seus agentes. Como num formigueiro ou numa tribo de indios.
Todos os problemas sociais e administrativos que estamos experimentando hoje não são sinal de um monumental atraso do nosso país em relação aos demais. São sinal do amadurecimento que o sistema administrativo do Estado-nação ocidental já viveu em um ciclo completo de existência. E que está pronto para um imenso update civilizacional, como o que Portugal protagonizou séculos atrás encerrando a Idade Média. Temos uma enorme tarefa criativa a realizar: como imaginaremos e implementaremos a civilização pós-estado-nação?

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