Mortes e ladeiras do jornalismo
Newsletter Jornalismo e Tal #1| 02/09/2018
“o que mudou na era digital? como se adaptar? fake news? qual o papel do jornalista?” e outras questões

“O jornalismo está morto”, dizem todos. Contudo, diferente do que ocorre com outras mortes, nós — leitores, jornalistas, jornais — não podemos viver o luto como ele merece ser vivido e, após isso, simplesmente tomar um café e seguir a vida.
Não dá para superar a morte de algo que representa uma fatia generosa do que fazemos, vivemos e, gostando ou não, somos. É por isso que o jornalismo morre muitas vezes, e de várias formas, mas isso nunca é, e nem pode ser, definitivo.
Convenhamos, não é de hoje que anunciamos, em uma triste metalinguagem, que o jornalismo conhecido até então — feito de papel, mantido por assinaturas e concentrado em poucos e grande veículos de comunicação — não resistiria por muito mais tempo. Foi o que refletiu Alberto Villas, por exemplo, ao colocar jornalistas e taxistas em uma luta única de “duas profissões descendo a ladeira”.
E como o jornalismo vem enfrentando essa ladeira?
Alexandre Lenzi bem expressão que neste momento é importante aceitar as mudanças e, claro, repensar o jornalismo.
“Mudanças de mentalidade, de comportamento e de ação prática no fazer jornalismo. É fundamental preservar a essência, o jornalismo reconhecido como utilidade pública, a informação verdadeira e relevante para uma sociedade democrática, o trabalho de apuração e checagem devidamente realizado com responsabilidade por profissionais. Mas resistir ao que muda em todo o entorno profissional na era digital é, além de não se preparar para o futuro, negar o próprio presente.”
Entre memes, GIFs, links, listas, vídeos e textos enxutos, o fazer jornalístico tem, cada vez mais, sentido a necessidade de acompanhar os formatos e as possibilidades das plataformas em que se inseriu. Essa inserção significou abrir mão de muitas questões, antes sob o poder dos veículos de comunicação, como o relativo controle sobre a distribuição do conteúdo ao público, e a administração de publicidades.
Algo assim já vinha sendo dito em 2017, por meio do relatório “A imprensa nas plataformas”, de Emily Bell e Taylor Owen (Tow Center for Digital Journalism). Vale a pena ressuscitar dois trechos importantes da pesqusia. O primeiro:
“Várias empresas de tecnologia — incluindo Apple, Google, Snapchat, Twitter e, acima de tudo, Facebook — assumiram boa parte das funções de organizações de imprensa. Querendo ou não, viraram atores cruciais no ecossistema do jornalismo. Um punhado de plataformas hoje controla a distribuição e a apresentação da informação, a monetização da publicação e a relação com o público. E, ainda que se importem com a saúde do jornalismo, sua razão de existir não é essa.”
O segundo:
“Mídias sociais e buscadores não são plataformas neutras. Fazem, sim, uma edição ou ‘curadoria’ da informação que apresentam. Plataformas já começam a reconhecer o papel que exercem na provisão de notícias”.
Esse reconhecimento de papel, por parte das plataformas, implica a tomada de atitudes e a implementação de ações que tornem mais seguro o que é compartilhado através delas, combatendo, por exemplo, a disseminação de fakes news.
Embora ainda seja cedo para avaliar a eficácia de algumas iniciativas, já se observa a movimentação de grandes empresas de tecnologia no sentido de não se isentar por completo da responsabilidade para/com o jornalismo. É o caso do Google, que lançou, em março, o Google News Initiative (GNI). No texto de lançamento do GNI, três objetivos foram destacados:
- Elevar e fortalecer o jornalismo de qualidade
- Evoluir os modelos de negócios para promover um crescimento sustentável
- Empoderar empresas de notícias com inovações tecnológicas
Em julho, a empresa agiu novamente, já por meio do GNI, para “melhorar a experiência com jornalismo no YouTube”, em uma ação que anuncia novidades para o jornalismo dentro e fora da plataforma.
A jornalista Hellen Bizerra destacou muito bem que fake news se combate com ajuda do público. Isso mesmo, com a sua ajuda, leitor. “É preciso duvidar, porque a dúvida é o início do verdadeiro combate às mentiras”. Então, duvide!
Hellen ainda lança algumas reflexões simples que deveriam virar ritual antes de qualquer um de nós clicar em compartilhar: “O que temos feito para evitar difundir notícias falsas na internet? Estamos realmente preocupados com a procedência dos conteúdos que compartilhamos?”.
Extraída do texto, aqui vai uma receitinha básica elaborada especificamente para ajudar a desmascarar a maioria das fake news:
- Se a fonte não é confiável e conhecida, é provável que seja um boato;
- Se o discurso é alarmista e/ou extremamente partidário, é provável que seja boato;
- Se o texto pede para ser compartilhado de forma muito insistente, é provável que seja boato;
- Se com uma busca rápida, você não encontrar repercussões da informação em outros veículos de comunicação (jornais, portais de notícias de renome, revistas) é MUITO PROVÁVEL que seja boato.
O programa Encontro com Fátima Bernardes do dia 8 de agosto aborda de uma forma bem prática como lidar com as fake news, em uma brincadeira chamada “Fato ou Fake”. O programa teve a participação de Fabro Steibel, professor da ESPM-Rio.
Migração para o digital e fake news: então essa é a ladeira que está matando o jornalismo?
Não, ainda há muito a ser considerado:
- Qual o papel do jornalista neste cenário digital?
- O que fazer com a infinidade de dados disponíveis na internet?
- Como dialogar com diferentes públicos e gerações?
- Como promover “engajamento”?
A Media Party 2018 foi uma boa oportunidade para debater essas e outras questões. O evento reuniu mais mais de 1.400 jornalista em Buenos Aires, de 22 a 24 de agosto e, durante o encontro, falou-se de tudo um pouco, desde os desafios dos últimos anos para o jornalismo, que já bem conhecemos e citamos alguns, até o lançamento do emoji de mate, como cita a publicação do IJNet sobre o evento.
O texto do IJNet destaca e pontua três temas que são “o quente” do jornalismo atualmente, abordando as muitas incertezas e os caminhos que podem ser trilhados por jornalistas e veículos de comunicação nesta fase de transformações:
- Ferramentas para visualizar dados
“Os Panama Papers são um lembrete do poder dos dados para revelar a corrupção, derrubar políticos e mudar a percepção de um país no cenário mundial. No mais recente exemplo desse poder, repórteres na Argentina receberam um conjunto de cadernos que indicavam subornos concedidos por Cristina Kirchner durante seu tempo como presidente. Eles transformaram a enorme quantidade de informações nos cadernos em uma reportagem coesa para o público”.
Esse exemplo ilustra muito bem um dos caminhos, talvez o principal, que ainda cabem ao bom profissional de jornalismo, mesmo na bagunça do mundo digital: em meio a um mundo de dados e informações disponíveis a qualquer pessoa, ainda é o jornalista quem organiza, entende e expõe de forma adequada o que esses dados significam.
Confira: “Manual de Jornalismo de Dados”, de Jonathan Gray, Liliana Bounegru e Lucy Chambers
Em 2012 o relatório do jornalismo pós-industrial, de C. W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky, já nos antecipava esse papel a (ainda) ser desempenhado pelos jornalistas:
“O jornalista não foi substituído — foi deslocado para um ponto mais acima na cadeia editorial. Já não produz observações iniciais, mas exerce uma função cuja ênfase é verificar, interpretar e dar sentido à enxurrada de texto, áudio, fotos e vídeos produzida pelo público”.
- Engajamento de comunidade é a nova norma
“Não é mais suficiente para o jornalista publicar um único artigo e ir embora esperando que o público leia o que escreveu. Em vez disso, deve estar constantemente pensando e interagindo com seu público, criando uma experiência de usuário única e divertida […] A experiência do usuário está se tornando uma parte essencial da mídia”.
Há pouco tempo, o IJNet publicou também uma tradução autorizada do texto do Nieman Lab, que consiste em uma análise dos erros e acertos da BBC em busca de novos formatos de reportagem. Chama a atenção a busca dos britânicos por proporcionar uma boa experiência aos leitores, investindo na tecnologia. Isso também se conecta com o tópico a seguir.
- A apresentação da informação está mudando com as gerações mais jovens
“Novos formatos podem irritar as gerações mais velhas, que preferem mídias mais tradicionais, mas novos meios de comunicação […] têm como alvo a geração do milênio com uma mídia acessível e interessante para o público mais jovem. Eles usam GIFs, vídeos curtos, memes e histórias pessoais para apresentar informações, sem sacrificar a qualidade do conteúdo.”
Aqui, vale destacar o papel dos memes na internet e, inevitavelmente, seu contato com o jornalismo.

Entendendo a existência desse contexto em que os memes também estão presentes no jornalismo, é preciso analisar as diversas implicações que disso surgem, como quando o meme se torna mais importante que a notícia:
“Afinal, a constante transformação de pautas jornalísticas em piadas e memes não implica na desvalorização dos assuntos retratados?”
Já deu para ter uma boa visão de tudo que está “mandando o jornalismo para sua morte ladeira abaixo” (frase bem espalhafatosa mesmo, pois condiz com o alarde que tanto se vê quando o assunto é este). O site Meio&Mensagem, inclusive, trouxe um bom resumo do livro-pesquisa The Journalistic Connection, dos dinamarqueses Per Westergaard e Soren Schultz Jorgensen, que aborda justamente o fato de que “a crise do jornalismo […] é estrutural, não apenas um problema de tecnologia ou modelos de negócios esgotados”.
Mas não é o fim do mundo (ou do jornalismo), pelo menos não ainda. É só mais uma ladeira com a qual temos que lidar.
