Arrival, 2016.

“Memory is a strange thing. It doesn’t work like i thought it did. We are so bound by time; by its order.” Arrival, 2016.

Uma das grandes coisas que aprendi com o tempo é que nenhuma estória é uma fuga da realidade, mas sim um instrumento para encontra-la. Isso continua com filmes. Nada é apenas entretenimento quando a alma de um autor se esconde em seus pequenos fragmentos. A verdade é que as vezes o autor é tão fugitivo de sua realidade que não consegue expressa-la.

Alguns filmes nos fazem procurar nossa realidade.

Imagine que você se levanta de uma poltrona com a memória de quando no quintal de sua casa você se sujava na areia brincado com seu irmão, aquele mesmo que você lembra de brigar tantas vezes em outra memória que habita a mesma linha, aquele mesmo que em um segundo deixou a todos uma sensação de desespero, sensação que faz você lembrar do primeiro dia na escola, do seu primeiro colega, do seu primeiro amor, que lhe lembra da sua expulsão, dos gritos de sua mãe, dos braços dela e que lhe faz lembrar um milhão de memórias suas e de seus mais profundos relacionamentos.

Me pergunto porque nunca consideramos viver essas memórias dentro de nós mesmos nossa própria forma de viagem no tempo. Talvez porque sempre que nos permitimos pensar em viajar no tempo achamos mais interessante visitar o futuro do que rever o passado, claro se a nós nada for permitido mudar, todos queremos mudar algum pedaço do passado interessado em experienciar um novo presente. Mas como racionais nos questionamos mais os porquês de fazer algo do que questionamos nossas ações do passado. E se realmente conseguíssemos ver o resultado? Aí é quando entra a nossa maior irracionalidade. Alguns momentos, sentimentos e prazeres, valem o sofrimento. E nós sabemos disso.

Existe significado na mão do cientista que experiencia a crosta do desconhecido pela primeira vez, ou quando descobrimos que os seres com os quais eles estão lidando são capazes de se comunicar por uma linguagem tão complexa que se equipara ao amor, medo, ódio, saudade, sentimentos humanos, ou quando o diretor opta por passar de um plano detalhe á um plano médio que centraliza Louise Banks em frente a palavra “Oferecer Arma”, ou quando em nossa frente acontece um paralelo entre a forma que os heptapods nos oferecem sua maior arma com quando nós recebemos a notícia final através de jornais de todo mundo, isso tudo é apenas a introdução de uma relação. E como Dra. Louise Banks diz logo no início, “I remember moments in the middle”.

Em certo ponto do filme Banks diz a sua filha que seu nome é um “Palíndromo” e não apenas por impulso mas por sentimento transmitido, você sabe o que aquilo significa. Mesmo a um linguístico capaz de definir quais os termos que compõem a palavra ou o significado exato dela, o filme impõe um novo. Porque filmes devem impor o novo.

Mas Arrival faz isso de forma diferente, ele não senta com você e lhe dá as regras, ele lhe apresenta fatos e conversa com você sobre relações humanas e como nós como espécies reagimos a nós mesmos como uma espécie tão dividida. Nos sentimos tão ameaçados pela nossa racionalidade que quando enxergamos uma diferente temos medo de como ela funciona. Relações humanas são intensas, tão intensas que atropelam a nossa racionalidade particular.

O senso de permanência em nós é tão forte ao pisar o chão quanto o senso de finitude. Mas enquanto chego em casa e recito a minha mãe um texto do porque me emocionei com um filme e me deparo falando sobre a falta e a felicidade que meu avô ainda faz; me questiono se o senso de permanência ou morte também se esconde em nossa mente. Nas lembranças que transbordam e quebram a nossa humana noção de tempo.

Porque Arrival fala sobre humanidade através da sua linguagem mais complexa. O Tempo. E a forma que lidamos com o tempo altera a forma como enxergamos o mundo e as nossas relações com ele. E eles Chegaram pra nos questionar isso.

Adaptado do Conto “História da Sua Vida” do reconhecidamente gênio Ted Chiang, roteiro escrito por Eric Heiresser, dirigido pelo cineasta Denis Villeneuve, com cinematografia de Bradford Young e estrelado pela talentosa Amy Adams, Arrival chegou no dia 24 de novembro de 2016.