Nós somos a geração dos amores embalados, dos beijos instantâneos e do sexo fordista

João Doederlein
Feb 11, 2016 · 2 min read
fotografia por Isabella Mariana

Cada vez mais os amores são despachados em sacos e embalados por cores. Enfileirados, endireitados, um por um. As vezes até entregues em caixas, com várias unidades. Somos da geração em que amores e paixões parecem serem vendidos em mercados, desses que tem em toda a esquina. Nossos amores são perecíveis e embalados a vácuo.

Sendo bem sincero, o amor sempre teve prazo de validade. Ele é como uma maçã. Quando está pra estragar, basta pegar sua semente e plantar. E regar e cuidar. E pronto, mais maçãs. Ou seja, o amor sempre teve o desafio de precisar ser renovado, o velho papo de conquistar a mesma pessoa todos os dias. E isso é bem verdadeiro. Quando não acontece, vivemos o que temos vivido agora. Amores e paixões sendo consumidos em massa, um atrás do outro, sem intervalo. Somos a geração do imediatismo amoroso, do beijo instantâneo, do sexo fordista.

A juventude é um mercado em que em cada estante tem alguém se vendendo e alguém pra ser comprado. Não que seja errado, não cabe a mim julgar o amor. Mas como todo o produto embalado, ele pode ser artificial até demais. Cada qual com seu valor, e paixões de três minutos tem o seu, com toda a certeza. Somos humanos, temos desejos e muitos, muitos medos. Estamos sujeitos a solidão, principalmente num mundo em que a liberdade encontra cada vez mais sua representação. E daí temos a liberdade de estarmos sozinhos, de amarmos a própria solidão. O que não é pecado, muito pelo contrário. Na medida que os amores se tornam vorazes e velozes, amar a si mesmo torna-se cada vez mais necessário.

E aí algo que não se vende no mercado: amor próprio. Esse é feito à moda antiga. Somos toda uma geração em que cada vez mais procura se transbordar ao invés de se preencher.

E mesmo com todo esse mercado de amores embalados e instantâneos, de fácil reposição, eu vejo que muitas pessoas tem procurado por diversidade. Vai ver enjoaram das emoções padrões que vinham nos sachês de cada paixão.

Vai ver querem agora um amor feito à mão. Que leva tempo e aprendizado. Receitas nas primeiras vezes costumam dar errado. Mas é só tentar mais uma vez, e quantas mais precisar.

Amor pra dar errado basta temperar demais, ou de menos. Vai de acordo com o gosto do casal.

João Doederlein

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Ressignificador de palavras profissional, poeta de apartamento, e criador do Contos Mal Contados http://on.fb.me/1PW436R

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