Fotografia por Sarah Outeiro
“Ela tá namorando”, sua amiga me disse em plena madrugada.

Namorando. Justo você, que disse estar apaixonada pela solidão. Você, que disse ter a certeza de não ser capaz de me olhar com o mesmo brilho dos meus olhos ao ver você. Você, que de todas as meninas e mulheres dessa vida, da minha vida, me fez encontrar conforto pra ser eu mesmo. E me encorajou quando me contive, e me pediu pra me jogar. Pra me amar. Pra amar você.

E você, que de todas as pessoas, seria a última a viajar meus pensamentos com outro alguém sem previsão de solidão nos próximos dias. Você seria a última que em meus sonhos estaria entrelaçada com outros lábios. Você que hoje fuma com outro alguém. O envolve na fumaça dos seus beijos escuros de batom, enquanto eu ainda fico surdo de ouvir o som da sua voz de sessenta dias atrás. Você que parecia perdida, mas sempre bem vista, e nunca esquecida do caminho que queria seguir. Segura da fortuna que lhe esperava no dia seguinte, não dava moral pra qualquer incerteza que pudesse te atormentar ou amendrontar. Você que era forte e voraz, que devorava todo e qualquer amor que de mim pudesse nascer.

E você, que me fez perceber o quanto a vida é de fato doída e que nenhuma boa ferida fecha sem arder. Porquê machucado bom é aquele que dá história pra contar e trabalho pra sarar, que sangra sem avisar, mancha pra sempre os curativos e não dói ao menor sinal de esquecimento.

E você, que foi por diversas vezes minha escolha, única e certeira, escolheria alguém que não eu. Você, que de mim recebeu unicidade e desejo, não respondeu nem sequer com um ‘último beijo’. Eu era mais um. Só um. Nenhum. Nosso ultimo encontro foi num banco de pedra sob um sol tímido de passar por entre as folhas e ouvir o nosso ‘adeus’. Nosso adeus foi na sua mensagem no whatsapp. Nosso adeus foi na minha resposta. Nosso adeus foi na meu desespero via mensagem em plena madrugada do seu aniversário. Nosso adeus foi na resposta, de fato reconfortante, mas ainda sim muito atuante nesse teatro que era o meu peito até então.

Você, que me entortou o mundo pro outro lado, de cabeça pra baixo e completamente esfumaçado. Você, que mesmo sem dizer uma palavra, cria todo um diálogo em mim. Você, que me fez jurar sobriedade de amor. Você, que me fez mais do que nunca desejar quebrar promessas e me embebedar nos lábios de outro alguém. Você, que não me deixa escrever sobre outra mulher. Você, que mesmo sem me procurar, vive me encontrando numa lembrança ou outra.

Você, que disse estar gostando da solidão depois de três anos namorando, voltou a namorar. Isabel, sua amada solidão tem um nome, e hoje eu descobri que não é o meu.

"Cigarro por cigarro, enche-se o cinzeiro"