Querida Wendy, sou um dos garotos perdidos que diziam as histórias do Peter Pan

foto por Sarah Outeiro

Querida Wendy,

sou um dos garotos sem terra, que procuraram incansavelmente por ânimos na vida fortes o suficiente para manter a mente acreditando e o coração pulsando.

Sou um dos garotos perdidos que diziam as histórias do Peter Pan. Geralmente saíamos voando por aí, mas até mesmo os garotos perdidos um dia enfrentam a realidade. Até mesmo eles, sonhadores da resistência, que juraram sonhar eternamente, voltam para terras reais de pessoas irreais em tempos surreais.

Enfrentamos a realidade de que viver sem terra não é tão ruim assim. Afinal, quando voltamos ao mundo, somos obrigados a vivermos em terra sem vida. Em terra sem amor. Ao invés de estaremos na mira de um pirata legionário, passamos o resto da vida sob a mira do julgamento alheio. E quem julga, não são piratas, são médicos, engenheiros, advogados, nutricionistas, publicitários, jornalistas, biólogos, veterinários. São gente como a gente.

São iguais apontando dedos e preconceitos para iguais.

Antes de afirmar que alguém é inferior, deveriam saber que ambos já choraram por amor. Já passaram noites acordados por causa de alguém. Já esbravejaram sozinhos em casa, sem ninguém pra ouvir. Já sonharam em serem coisas que desistiram de ser. Ambos tiveram que enfrentar a realidade de que viver voando por aí não era coisa de gente adulta.

Aqui, nessa terra, gente adulta… não pode sonhar, Wendy. É tão triste.