Imagens Borradas & Histórias Por Trás Delas
Imagens captadas borradas não-intencionalmente, que não falam por si, mas ajudam a contar histórias .
Astronauta

Depois de quatro anos de viagem pelo espaço, a nave pousa em Lisiteia, uma das Luas de Jupiter. Mas não houve emoção na chegada. As perdas ao longo da viagem deixaram um amargo na boca da única sobrevivente na Cápsula Z3u-5. Não havia com quem comemorar. A comunicação com a Terra cessara desde que ainda eram seis empolgados astronautas. Agora, para ela, Lisiteia era somente um deserto, como sua alma, com crateras comparáveis apenas às que seus companheiros deixaram em seu coração.
Abstracionístico

As primeiras pinceladas não lhe diziam nada. Aleatórias. Vibrantes, sim, “mas sem propósito”, pensava. A pintura figurativa era sua vida, embora não raro se via às voltas com anseios abstratos. Manifestações policrômicas amórficas se multiplicavam em sua mente e se projetavam sem sua permissão no branco das telas que olhava. Mas o apreço pelo formalismo o colocava em constante embate com aquele impulso visceral, que parecia querer romper seu rígido casco modelado pelo tempo. Por anos lutou essa guerra interna. Por anos se negou a liberdade. Quando a visão lhe faltou, o desejo reprimido substituiu seus olhos e a forma perdeu seu sentido à cor.
Um Sol na Terra

“Um Sol na Terra”. Assim descreveu o fotógrafo que registrou a explosão de proporções inimagináveis, fruto da guerra interna de uma cidade abandonada a própria sorte. O objeto responsável pela captura foi um celular antigo, achado poucos instantes antes no meio da viela onde morava. Seus vizinhos já haviam ido embora e, provavelmente, o aparelho era de um deles, caído, pisoteado, com a lente arranhada. O homem, um senhor de sessenta e poucos, nem sabia que tinha feito a fotografia, até o acharem deitado do lado de fora de sua casa. Ainda assustado, ele levantou com ajuda dos socorristas, pegou o velho aparelho e seguiu para a ambulância. No caminho percebeu sua obra. A destruição arrasou tudo até cinco metros a frente do local onde tirou a foto.
Esperança

Dos anjos guardiões dos sentimentos humanos, o único a não voltar foi o encarregado pela esperança. Ainda que houvesse voado incessantemente tentando encontrar os limites daquele território, desistiu, enebriando pelo sentimento que buscava compreender.
Ausência

…
Estrelas cadentes

Um toque de botão, um código inserido, uma confirmação. Não houve questionamento, apenas um “sim, senhor”. Não houve hesitação, apenas mais uma ordem cumprida. Os mísseis foram lançados selando o destino de desconhecidos distantes. Na inocência do olhar das vítimas, um espetáculo de estrelas cadentes iluminou seu último céu.
A cor do nada

Corriam em vão para todos os lados. Saiam do alto dos galhos, das tocas dentro da terra, dos troncos ocos apodrecidos no chão, debaixo das folhas secas. As cores se transmutaram. Tudo era preto ou amarelo avermelhado. Tudo era luz ou sombra. Tudo queimava. Tudo era fogo. E o tudo cedeu lugar ao nada. E, sem vida, a terra ficou sem cor.
O Corpo

Pensando nas pessoas que sofriam ao seu redor, na angústia e dor que pensava a sua existência causar, ele se atirou pela janela do prédio em que morava no 13º andar. Durante a queda observou, em sua última oportunidade, a beleza do horizonte que tanto o fascinou, desde tenra idade.
Vultos

Às vezes, quando bebia, via vultos, formas embaçadas, coisas se mexendo, girando. Às vezes, quando via vultos, bebia.
Névoa

Naquela noite sombria voltava cansada, voando vigorosamente por entre as nuvens. Deixava pra trás a tristeza de um dia de sol que não conseguiu ofuscar.
Furto

Deixado na mesa sozinho a espreita dos olhos maliciosos. Na primeira oportunidade ele levou consigo. Sem que a vítima soubesse, o celular tirou uma foto do seu observador. Capturou sua imagem, furtou.
Verde

Esmeralda, piscina, oliva, musgo, bandeira, primavera. Os verdes a encantavam, enquanto ela girava incansavelmente pela floresta em busca de seu próprio tom: esperança.
Tempestade de Areia

Dias no deserto não os prepararam para a força das areias. Areias que mudam de cor, direção, que mudam a convicção de quem as tenta domar.
Natureza Selvagem

Escorregou. Viu sua vida passar por entre os olhos, por entre os dedos, pelas bolhas que saíram de sua boca. E o verde das folhas se tornou o preto do fundo do rio. E o fundo do rio se tornou seu.
Guerra

Das varandas se viam os homens armados correndo. A guerra estava em todos os lugares. Explosões, tiros, gritos de dor e desespero ecoavam pelas ruas e becos.
Gigantes

Suas grandes bocas, abertas, sedentas e vorazes disputavam o último copo de esperança, num embate sangrento e derradeiro.
Aranha

Presa no tempo, no espaço, ao alcance dos dedos, na última teia que foi capaz de produzir. Cristalizada, guarda incontáveis segredos dentro de si.
Universos Paralelos

A transição entre universos paralelos cria a sensação de dobra espaço-temporal.
Luz

A luz não está para todos, mas ainda há quem desvie.
Chão

O chão de sua casa foi a última imagem vista por ela ao cair na sala.
Cometa

Foi por pouco, mas a passagem do cometa foi registrada por um fotógrafo amador, de forma acidental quando este tentava limpar a lente de sua câmera.
Cruz

A luz da cruz iluminou os céus, numa rajada de esperança sobre os corpos cansados dos soldados da fé.
Cirurgia

Ao abrir os olhos, essa foi a primeira imagem que viu. Após uma delicada cirurgia de visão, ele foi encontrado debaixo dos escombros do hospital onde fora curado.
Passos

Os passos, espaços, esparsos, ex-passos.
Registro

Uma registro histórico jaz escondido sob a bancada de um antigo bar no Centro do Rio. A placa identifica um móvel que viveu mais do que a árvore que lhe deu origem.
