Beijando o espelho

amando a si mesmo no reflexo do outro


Vocês já ouviram falar na revista Seleções? É uma revistinha bem pequenininha–parece um gibi para adultos–repleta de um conteúdo incongruente de tão diverso: nela já li piadas com militares, uma biografia de Antoine de Saint-Exupéry e um monte de dicas de alimentação e saúde que nunca segui. Eu só as encontrei até hoje no meio da acumulação organizada que era a casa de minha tia Su (que Deus a tenha, inclusive) e leio ocasionalmente desde que eu ainda nem sabia o que era uma cueca boxer.

Teve uma matéria que li, no entanto, cuja mensagem persiste até hoje na minha cabeça que sabe muito bem o que é uma cueca boxer. Era a matéria de capa, estampada com o rosto milionário da Angelina Jolie, e seu conteúdo era sobre como as pessoas tendem a se atrair pelo que é familiar a elas, contrariando aquele dito popular batidíssimo sobre os opostos se envolverem. A Jolie foi escolhida pela boa ilustração do anti-ditado: uma das atrizes mais consagradas de Hollywood havia (creio que) recentemente se unido a um dos atores mais consagrados de Hollywood, um tal de Brad Pitt–e, coincidentemente, ambos eram, são (e, com a graça dos deuses, sempre serão) donos de uma beleza estonteante.

Imagem para fins contemplativos.

A premissa da matéria partia da ideia que essa junção de trapos se deu pelo simples motivo de ambos estarem em um patamar muito parecido em suas vidas–perante si mesmos e perante o mundo–e, por isso, se completarem dessa maneira um pouco narcisista mas ao mesmo tempo inevitável. Ela era embasada cientificamente (de uma maneira parecida com o que é falado nessa matéria da revista Galileu), o que evitou que minha cabeça pré-boxer a ignorasse completamente como fiz com as recomendações anti-refrigerante.

Mas foi só após as cuecas boxer que vi os iguais se atraindo de maneira prática. E foi um pouco assustador, na verdade, ver a repetição de padrões nas pessoas pelas quais me senti atraído durante a vida. Muitas vezes me afeiçoo por um aspecto de uma pessoa que 1. possuo e considero bom em mim ou 2. não possuo e consideraria bom em mim.

Ou até mesmo 3. eu possuía e consideraria bom se ainda possuísse.

E aposto que vocês também fazem isso.

Não é algo ruim. Não é como se a Angelina estivesse olhando o Brad na foto lá em cima só porque ele é um reflexo dela. Digo, não por isso, mas também por isso: afinal, não é satisfatório estar com alguém que faz com que você sinta que está no caminho certo? Sentir-se merecedor de alguém que você admira é um trunfo do qual poucos podem desfrutar.

É o que dizem: você não pode amar alguém se não amar a si mesmo antes. Isso faz mais sentido a partir do ponto que você considera que só amando a si mesmo que você entende até onde seu amor pode chegar. Amar mais o outro do que a si mesmo é negar sua identidade, mas ao mesmo tempo assumir a desse outro–você se submete ao narcisismo alheio e vive essa vida que não é sua para que a outra vida se sinta satisfeita consigo mesma.

Por outro lado, é claro que as diferenças desempenham um papel crucial em um relacionamento. Figurinhas têm que ser trocadas constantemente para que o jogo continue. Mas há limites, sempre há limites, e eles vêm de todas as formas e cores. Às vezes algo fora desses limites é contrabalanceado por algo que se encaixa em todos os requisitos, e aí, feitas as suturas, volta-se a andar, mas–ainda falando no jogo que continua–tudo depende do equilíbrio das cartas nas mãos.

Ainda é uma verdade agridoce que tento engolir, assumo. Às vezes pego fotos antigas minhas com algumas pessoas e tento dissociá-las de mim, mas alguns elementos se confundem tanto que me pergunto se tudo que amei nessas pessoas foi o meu reflexo em seus olhos.

Ou talvez eu só esteja tentando justificar meu narcisismo.

Mas creio que você faria o mesmo no meu lugar.


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