Mulheres, sereias e aliens: The B-Sides

Faixa 5: #MSA (primeiro rascunho)

Alaor Rocha
Jul 22, 2017 · 12 min read

Essa é a penúltima parte de uma série de posts que tenho feito contando com trechos derivados do meu livro Mulheres, sereias e aliens. Leia também as partes 1, 2, 3 e 4!


Arranque

“A questão é a seguinte”, disse meu pai no velório de sua terceira esposa, minha segunda madrasta. Pigarreou, tremeu lábios semichorosos e a questão é a seguinte: “será que ela encontrou a carta?”

Sua amante era romântica e banhava seus envelopes em perfume barato com aroma de tutti frutti, cigarro e um toque de bacon na frigideira (ninguém é de ferro). Chamava Glória e tinha a maturidade de um peixe beta, mas era romântica e era disso que meu pai precisava.

A mulher no caixão aberto, em contrapartida, tinha tanto romantismo quanto um filme do Steven Seagal.

Mas agradecerei eternamente por essa jaqueta de couro, Vera. Fica bem melhor em mim do que em você.

“Acho que não, viu?”, respondi, evasivo. Nem mesmo meu pai havia lido. Sua sede de romance se satisfazia ao saber que havia a carta, o conteúdo pouco importava. Talvez nem Glória saiba o que escreveu ali, fugaz como é.

“Foi do nada, mesmo…”, meu pai comentou mais para ele do que para mim. Nosso coração dá cãibra, não sei. Tem hora que ele desiste de bater. Falta de potássio? Minha madrasta precisava de banana, então.

Bem, não dá para para esperar muito de um relacionamento onde um quer romance e o outro quer banana. Bebi água do copo descartável em meio a um sorriso desagradável: que mau gosto para piadas, Marcel.

A única coisa pior que o meu mau gosto para piadas é o mau gosto de meu pai para mulher.

André Dahmer diz que cuzinho é prova de amor. Minha mãe deu até as narinas para o diretor do meu colégio para eu conseguir aquela bolsa integral.

Minha mãe me ama muito.

Sempre dou um jeito de arrancar algo de uma mulher. Não falo em beijos, roupas, suspiros: olhe meu diploma do ensino médio. A jaqueta de couro que já está fedendo de tanta chuva que tomei embaixo de janela de donzela.

Nunca arranquei amor de mulher. Puxei meu pai: minha própria vida é meu humor negro favorito.

Deve ser de família. Meu avô paterno tem tanta história descabida que tenho lá minhas dúvidas sobre ele ainda ter algo entre as pernas além de uma cicatriz infeccionada. Todo dia de ação de graças (herança de guerra, esse costume) ele dá um jeito de puxar os netos para um canto e falar de alguma judia safada dos anos quarenta. Isso desde meus onze anos, quando eu ainda achava que só as putas beijavam de língua.

Assim começou a genética autoimposta da sacanagem. E esses genes são dominantes até hoje.

“Primeiro velório que vou onde não chove”, pensei logo antes de ver Lola correndo em minha direção. Corra, Lola, corra. Corra antes que chova. Tenho que arrancar algo de você.

Minha paz.

Vidro

No começo da noite, seus olhos ainda estão na órbita casual. Na manhã seguinte, seu baço é um feto de cachalote sendo eletrocutado dentro de sua pele. Os pedregulhos em seu esqueleto — aprendi na escola que eles se chamam órgãos (valeu, mãe!) — te puxam para baixo assim que você tenta se erguer. Sua cabeça é um leviatã que se recusa a sair do fundo do oceano. Você se arrepende de tudo que não consegue lembrar.

Má.

Mamá.

Marcel.

Aquela voz te chama, aquela voz que soa etereamente familiar como a voz de Deus soaria. Você vê a luz.

Eu vi a luz e ela estava nos olhos de Lola.

Nos olhos dela reside o fogo do inferno.

E ali pude enxergar meu arrependimento e agonia, pois ela teve o que queria. Minha mente não conseguia processar um mais um, mas o suor repentino que esfriou meu cóccix sabia de tudo. Elementar, caro Marcel.

“Você conseguiu”, disse quando senti minha língua como um músculo movível e não como uma chapa de ferro dentro da boca.

“Eu te amo”, e seus lábios tocaram os meus com euforia e lascívia o bastante para retomar flashes daquele ontem. “Obrigada por tudo”.

“Minha vida não merece isso”, reclamei com a voz da barata de Kafka.

Qualquer um poderia dizer que ela estava apaixonada por mim. Os olhinhos maquiados brilhantes, os cabelos despenteados como sem importância, a respiração tranquila de quem nunca se arrependeu. Ela é linda e eu seria o homem mais sortudo da Terra por ter alguém como a Lola beijando meus pés e lábios.

Mas sei reconhecer uma obsessão. Ela mataria por mim, e isso não é algo bom. Ela talvez já tenha matado por mim, e isso foi o mais próximo de amor que já recebi de uma mulher.

Sem que ela precisasse dar o boga por mim, naturalmente.

Meu primeiro trabalho foi numa daquelas lojas de muambas superfaturadas, ou, como os shopping centers chamam, variedades. Sempre tive um fascínio infantil por todos aqueles produtinhos delicados que poderiam trincar com um olhar torto. Imagine um Marcel de sete, oito anos apertando os olhos para tentar quebrar um elefantinho de vidro. Não dessa vez, jedi, e estapeei o bicho para o chão. Eu estava descalço e até hoje deve ter algum caco de elefante nos meus pés.

Lola ainda não era loira quando começou a trabalhar na loja. Era uma terça-feira de Copa do Mundo e tinha tanto verde e amarelo nas prateleiras que eu me sentia uma arara no zoológico. Os cabelinhos amarronzados dela deslizavam tímidos pelos corredores como um esquilo fugidio. Eu tinha que caçar seu rosto por ali.

Naquela época, a boca de Lola só servia para falar com os clientes. Sempre preferi assim.

Minha mãe falava demais. Eu não sabia falar mais do que três palavras — que bem provavelmente eram “Du”, “Dudu” e “Edu” — e ela me expunha para as amigas como a nova sonata ao luar. Ela não se orgulhava de mim, só queria mais um motivo para continuar falando. Era mais um assunto para ela, como o final da novela ou a vizinha que não depilava as axilas (até hoje não depila) (até hoje está solteira) (maldita sociedade patriarcal). Assim como um roedor que precisa gastar os dentes para não acabar vítima de si mesmo, essa era minha mãe e sua língua.

Ela poderia muito bem ter morrido sufocada pelas palavras que não dizia. Eram muitas, eram todas, minha memória não conhece dona Clara quieta. Mesmo triste, taciturna, fazia questão de chorar todas as pitangas da América Central no telefone; se faltava assunto com meu pai, os dois logo acabavam na cama para ela poder gritar e, pelo visto, rezar.

Ai, meu deus.

Amooor.

Meu deus.

Amém, Marcelzinho.

Mamis não morreu por asfixia, no entanto.

Não temos muita sorte com vidro, se você quer saber. Copo em casa sempre foi de plástico porque dona Clara trincava vidro com a voz era ainda mais desastrada do que falante. Teu corpo ossudo saía batendo nas coisas feito baqueta, tec tec pá.

Quando o pote de vidro bateu no crânio dela, fez só pá.

E crec.

Não foi uma boa noite. Quer dizer, teve pizza, então poderia ter sido muito pior.

Sei que isso foi um ou dois anos após o episódio da bolsa de estudos. Os músculos faciais do meu pai não se convertiam em sorriso há meses. Havia uma aura negra, espessa feito graxa, atada ao lombo dele, que se arrastava pelo cotidiano com a disposição de um cão atropelado.

Brigas domiciliares eram constantes. Sempre tratei isso como parte da vida de todos: no primeiro colégio onde estudei, era uma questão de milagre ver um casal de pais felizes. Dali para frente encontrei com mais casais assim, felizmente — gente rica sabe fingir melhor. Em casa, então, ver meu pai quebrando dona Clara na base da vassourada era parte do cronograma. Era o mais próximo de amor que eu conhecia.

Pensava que eu teria que bater muito na minha esposa para mostrar meu amor por ela.

Isso explicava os gritos e orações no quarto.

Era amor.

Eu já bati muito na Lola. De arrancar sangue. Pele. Respeito.

Talvez isso explique minha falta de sorte com as mulheres.

Mas só talvez.

Gostava muito de um comercial quando pequeno. Meu pai chegou a gravá-lo em VHS para o Marcelzinho. Lembro que anos depois acabei gravando um show da Céline Dion por cima, e “My Heart Will Go On” ficava falhando, misturando com o áudio da propaganda. Converti para DVD: mesma coisa.

Essa era a preferida de uma ex minha. Deus escreve certo por linhas tortas.

Qualquer dia conto sobre a Natália, mas esse dia não será hoje.

Hoje tem a propaganda. Tinha uma garotinha bonitinha de uns seis, sete anos. Aquele sorriso que chama atenção de pedófilo, os dentinhos separados. Andava pela cidade com as mãos em conchinha, sozinha (chamando atenção de pedófilo), abrindo-as quando passava por algumas pessoas. As que estavam tristes, amuadas por motivos vários. E naquelas mãos ela guardava o invisível, o invisível que distribuía a esses homens e mulheres na cidade cinza. Chegava em casa e deixava o conteúdo etéreo em um potinho de vidro rotulado “felicidade”.

Lá vai Marcelzinho querer potes de vidro no quarto para guardar felicidade, paz e amor. Dias depois, dona Clara e seu Horácio trazem o garoto para casa após um dia de escola e lá estão eles, reluzentes como se preenchidos com a luz da lâmpada do quarto. Ficavam em cima do criado-mudo, onde o pequeno eu conseguia alcançar sem precisar da ponta dos pés — ou seja, sem precisar quebrá-los.

Nunca preenchi os potes até a boca.

Pra ser sincero, se passaram da metade eu posso bater palmas ao pôr-do-sol agora mesmo.

Era sexta-feira, dia de alugar jogo. Meu Nintendo 64 estava só esperando pelo Smash Bros, meu polegar imaginário deslizando por aquele prato chinês que chamaram de controle analógico. Eu jogava com o Kirby, engolindo e cuspindo (referência imprópria intencional), quando ouvi os berros. Parte dos efeitos sonoros da casa, meus pais odiando um ao outro porque a gravata sumiu ou o fogão está mais oleoso que o cabelo do Beetlejuice.

Minha mãe tinha o costume de me levar o prato do jantar quando eu me perdia no universo em 64-bits. Naquela noite tinha pizza, e ouvi as havaianas estapeando o piso enquanto os sapatos de meu pai seguiam o rastro, os gritos ficando cada vez mais próximos.

Mas não era como se eu estivesse ali, entende? Não era como se eu fosse uma pessoa e aquilo fosse me influenciar. Meus pedaços de portuguesa chegaram em cima do criado-mudo oposto ao dos potinhos, e os gritos continuaram. A voz estridente da minha mãe, a voz esganiçada do meu pai. A mão aberta dele arrancando dignidade do rosto dela. Kirby ficou pausado em uma posição constrangedora — uma bolota rosa falante tomando um chute de um elfo mudo resume muito bem minha geração — enquanto eu tentava apartar a briga, inútil como a foto de um extintor em um incêndio. Fui jogado para o lado por seu Horácio feito um saco de arroz que ficou no caminho. A violência continuaria sobre minha cama, onde minha mãe jazia com um filete de sangue cuspido pela narina.

Os gritos continuaram.

Continuam até hoje.

Passo de carro na frente daquela casa e os gritos ecoam, estão entranhados na parede.

E o vidro quebrando, também.

Lola é desastrada — e digo mais: Lola é um desastre. Quebrava mais porcelanas na loja do que seu salário podia pagar. Foi no almoxarifado que trocamos as primeiras palavras: “quer ajuda?”, ofereci, quando vi um daruma estilhaçado no chão, ela tentando recolher os cacos com as mãos nuas. Ela sorriu, encabulada, as bochechas vermelhas e inchadas como espinhas internas. Sorriu apenas, e busquei pá e vassoura.

Varri os restos, limpei a bagunça, levei o daruma do cliente dela. Lola ficou no almoxarifado tentando organizar a seção de papelaria, onde nada quebrava (mas rasgava). Dava a impressão que ela não tinha a menor ideia do que fazia. Todo momento, todo movimento era uma incógnita. Não daquelas bonitas, apaixonantes feito Mr. Darcy:

Lola não sabe o que faz.

Demorou dois dias para quebrar mais um daruma.

Parecia um sinal. Resolvi apostar com ela, então. Pintei o olho direito de um daruma inteiro e disse que pintaria o esquerdo se ela ficasse um mês sem destruir alguma mercadoria.

Sabe quando fui pintar esse diabo? Cinco anos depois.

Sua casa só tem copos descartáveis. Ela só usa bijuteria, coisa barata, coisa substituível. A vida de Lola é essa inconstância: já contei vinte e sete penteados e cores diferentes em seus cabelos.

Eu não sei o nome verdadeiro dela.

Lola? Um apelido que eu dei, o codinome beija-flor.

Ela bateu todos os meus segredos no liquidificador e bebeu até vomitar.

Meu pai agarrou o potinho onde eu guardava a felicidade. Suas mãos suadas aderiram ao vidro como ventosas de um sapo. Ele quebrou o pote na cabeça da minha mãe e vi os cacos se desprendendo dos cabelos dela como a casca despedaçada de um ovo. Eu gritava, incapaz, espectador.

Os vizinhos chamaram a polícia, os gritos foram altos demais. Dona Clara foi para o hospital sem o menor vestígio de consciência. Era um saco de ossos tremendo numa maca, empurrada como um amontoado de galhos.

Poderia não ter sido tão grave se o impacto não tivesse empurrado sua cabeça para minha cabeceira. Foi grave, pois, e passei as semanas seguintes com meus avós paternos — eu ainda não tinha idade para ouvir as sacanagens do meu avô naquela época.

Dona Clara passou seus próximos nove anos de vida com os miolos fora do lugar. “Ovos mexidos”, eu pensava, ainda na metáfora do ovo quebrado. Ficou demente, paraplégica, uma versão sorridente e muda do Stephen Hawking. Seus olhos giravam sem ordem ou lógica, gude no linóleo, e suas falas não passavam de murmúrios e ocasionais guinchos.

Vendo por esse lado, minha mãe se comunicava muito bem com a internet discada.

Quase uma década vivendo assim e fui entender recentemente o porquê da tragédia grega: o potinho, a felicidade.

Em mais uma incrível piada de mau gosto, seu Horácio quebrou felicidade no crânio de sua primeira esposa. Foram nove anos sendo irremediavelmente feliz.

Morreu com um sorriso no rosto.


Escrevi esses capítulos lá pra 2014, durante minha breve estadia em um cursinho pré-vestibular (tão breve que até hoje estou devendo algumas mensalidades referentes ao período em que não compareci a ele). Se tem algo que aprendi com minha experiência de escrita, esse algo é: o tédio offline é uma das melhores ferramentas para produzir. Escrevi livros inteiros desempregado em casa, com um notebook e algumas músicas que eu baixava no meu trabalho; até mesmo minha primeira história maior do que duas páginas (nesse caso, acabaram sendo mais de cinquenta folhas do meu caderno escolar) foi escrita durante todas as aulas que eu resolvia ignorar no terceirão.

Segredo: eu amo esses capítulos. Por mais que sejam o embrião do que se tornou o Mulheres…, eles têm um frescor que me fez pensar, enquanto preparava esse post, por que não segui com a linha de pensamento desse rascunho. Talvez tenha a ver com uma necessidade sazonal de me colocar na história — pelo menos dessa vez, sabe? Antes desse livro, o mais próximo que eu havia chegado de histórias grandes assim vacilou entre uma ficção urbana bem desconectada da minha realidade (que abandonei após 20 mil palavras por não saber como seguir com ela) e um livro 100% pessoal que só poucos gatos pingados tiveram o desprazer de ler.

Entre uma ode ao passado e uma brincadeira com o futuro, amalgamei esse sentimento e dissimulei as pessoalidades em Mulheres…, fazendo dele algum tipo de filho mutante de duas cabeças: uma olhando para frente, outra para trás.

Persiste a questão: eu gosto desse livro? Gosto, e pra caramba. É um livro confortável para mim. Algo que eu precisava escrever em vez de algo que eu queria, e é sempre bom cumprir com o que nos prometemos. Entretanto, fica na boca aquele gostinho amargo de não ir muito além de minhas memórias perturbadas e piadas que, de tão internas, só têm graça para mim.

Lá em 2014, a história de Marcel tinha uma leveza que infelizmente foi se perdendo com o tempo, mas é o preço que se paga ao se debruçar sobre uma história. Hoje em dia, não sei dizer o que é verdade: se Marcel tem um pouco de mim ou se eu acabei roubando um pouco de Marcel.

Pode ter sido os dois.

Acho que sempre acaba sendo os dois.


Semana que vem eu prometo que acabo com essa série — e com texto inédito em vez de requentar histórias, viu? Enquanto isso, vá lá encontrar Mulheres, sereias e aliens na Amazon e no Wattpad. Até sábado!

Alaor Rocha

Written by

Redator, LinkedIn Campus Editor e louco dos podcasts. Meus livros são baratinhos: http://bit.ly/alalarocha ★

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