Mulheres, sereias e aliens: The B-Sides

Faixa 6: Arrested development (uma carta de Marcel)

Olá, prezados. Marcel aqui.

Não sou muito bom com as palavras. Tipo, na verdade eu sou bem ruim. Tô destreinado. Meu talento pra elas nunca saiu de duas ou três frases, mais do que isso eu me perco todo. Começo a enrolar demais, ser prolixo, fugir do assunto principal… Tipo o que tô fazendo agora.

Na verdade, tô com esse espaço aberto aqui para escrever o que eu quiser, então a enrolação tem lá sua justificativa. Sou aquele cara que nunca consegue escolher filme na Netflix antes da pipoca acabar. Eu já desisti de gastar dinheiro com pipoca pro filme (sim, eu poderia pipocar o pacote depois de escolher o filme, mas quem disse que eu tenho disciplina para isso?).

Enfim. (Suspiro.)

Tudo é bem estranho quando você é personagem de um livro. Digo, ser um personagem já implica em não ser uma pessoa. Tenho que agir como uma pessoa mesmo não sendo uma. Assim, xô explicar melhor: sabe quando você é pequeno e pensa que seus professores só existem na escola, que, sei lá, eles evaporam quando pisam fora do batente de sua sala? Ser um personagem é um pouco assim.

É claro que eu, Marcel Souza, me entendo por pessoa. Fazer parte de um livro não é ser apenas aquelas palavras. Tenho número de RG, CPF e minhas fotos 3x4 são horrendas como as de qualquer um. Tem um monte de coisas sobre mim que não dariam um livro, mas que existem aqui dentro da minha cabeça. Tipo: eu comia terra quando pequeno. Muita terra. Descobri esses tempos que tem gente que come terra até depois de adulto, e para essas pessoas faz sentido contar algo assim em seus livros. Eu parei de comer terra quando botei uma minhoca na boca. Foi bem traumatizante, diga-se.

Também existem aquelas histórias que passam quase despercebidas durante o livro (exatamente por não serem importantes para o enredo) mas que são uma puta parte da minha personalidade. Por exemplo, meu rolo com a Viridiana. Comecei a beber muito mais enquanto estava com ela. A gente se dava super mal, mas ela engatilhou esse meu alcoolismo esportivo.

Mais curiosidades: meus olhos são bem pequenos (o que me faz usar lápis de olho vez ou outra) e ressecados (o que me faz usar colírio toda vez que uso lápis de olho). Também não tenho a melhor das visões. Tirei só os sisos de cima. Só compro detergente de coco. Já fiz um ménage uma vez, acho até estranho que nunca comentei isso no livro. Foi com aquela Natalie, saca?, e um amigo dela. Foi bem legal, mas trabalhoso demais.

Não é engraçado? Tipo, ser um personagem. Não ser a pessoa inteira. Acho que fazemos isso a todo tempo, com todos à nossa volta. Eu mesmo vejo as pessoas pela metade, mesmo porque 1. sou míope e 2. é psicologicamente impossível entender todas as particularidades de cada um. Vendo em retrospecto, sei que trato as mulheres (e as sereias e os aliens) de uma maneira muito rasa, às vezes até estér… este… estereu… coloco todo mundo em clichês. Sei lá, acho que me ajuda a seguir em frente. Não sou muito bom em me importar com as pessoas e sei que sou injusto em meu tratamento com grande parte delas. É uma escolha. Não tô aqui pra botar a culpa no meu passado, por mais que às vezes pareça que eu queira fazer o oposto.

Eu só sou um cara bem cansado das coisas. Das pessoas.

Não sou uma boa pessoa. Talvez seja um bom personagem feito às bases de uma péssima pessoa, mas já deixei de esperar perdão pelo mau comportamento. Creio que essa história funcione apenas por como eu vivo atrás de alguma redenção que sei que nunca terei. It’s arrested development.

Ah, eu gosto muito de Arrested Development. Já maratonei as quatro temporadas mais de uma vez.

Mas você não quer saber disso.

(Eu falei sério quando disse que sou péssimo com as palavras.)


Parece que tem uns outros textos relacionados nessas tal de B-Sides. Aí embaixo vão ter os links deles:

Faixas: 1 / 2 / 3 / 4 / 5

Se estiver a fim de passar raiva comigo reclamando da vida, tô lá em Mulheres, sereias e aliens na Amazon e no Wattpad. Dá uma passadinha lá e me garante a cerveja da semana.


P.S.: Parabéns por ter aguentado até aqui. Ó um coraçãozinho para eu não parecer tão malvado: ♥

Um abraço na boca,

Marcis.