Política ou Truque de Mágica?

Um bom mágico nunca conta seus truques
A comunicação é um dos fatores decisivos no cenário político de uma sociedade. Independente do regime político, seja ele neoliberal, socialista, militar, teocrático, etc. a comunicação sempre será um ponto importante. Numa ditadura, ela representa a resistência contra a censura e, ao mesmo tempo, do outro lado, serve de propaganda para a manutenção simbólica do poder. Numa democracia, por sua vez, a tensão existente na comunicação se dá pela liberdade de expressão e de imprensa, gerando discursos divergentes por parte dos comunicadores e da população, mas que se manifestam livremente e são fator-chave para a manutenção da própria democracia.
Visto que há esta liberdade, o governo está à mercê do que será dito sobre ele nos canais de comunicação. Não há controle sobre o que será dito. Portanto, o próprio poder político deve fazer uso da comunicação para se defender e informar à opinião pública seus argumentos, fatos, intenções, etc.
Assim, de um lado temos a imprensa, teoricamente a serviço da verdade, comunicando os fatos referentes ao governo, quer eles sejam benéficos ou prejudiciais à imagem dos poderes políticos e, do outro lado, temos o governo em exercício, que visa manter uma boa imagem e a ordem. No meio disso, temos a opinião pública, que é bombardeada por versões dos fatos pela imprensa, pelo governo, pela oposição e pela realidade — isto é, por aquilo que elas veem acontecer no dia a dia. Não adianta o governo dizer que a saúde está ótima se a população constata o contrário nos hospitais, e nem a oposição atacar os investimentos em educação se o povo percebe evidente melhora nas escolas. A realidade, em geral, tem primazia sobre os discursos. No entanto, a comunicação ainda é extremamente poderosa. Ela não pode, a princípio, modificar efetivamente a realidade da mesma forma que os poderes legais e militares, por exemplo, mas ela tem o poder simbólico, que se forma a partir de táticas semelhantes às de um mágico: desviar a atenção, impressionar e iludir.
DESVIAR A ATENÇÃO
Os meios de comunicação não decidem o que as pessoas irão pensar sobre um assunto, mas decidem sobre quais assuntos as pessoas irão falar (teoria da Agenda-Setting). Se o governo melhorou a educação mas está em crise econômica, a imprensa com interesses de oposição pode estabelecer uma pauta apenas focada na economia, por exemplo. Como um ilusionista desviando a atenção para realizar seu truque. Esta tática é muito bem demonstrada no filme Mera Coincidência (1997), em que o presidente estadunidense se envolve em um escândalo sexual, e a equipe responsável pela sua imagem pública fabrica uma guerra falsa na Albânia para que a população e a imprensa esqueçam o caso do presidente.
De fato, não se pode falar sobre tudo que está acontecendo numa sociedade. É preciso fazer uma edição, e isso é um dos dilemas que rondam o jornalismo: o que deve e o que não deve entrar na pauta? Essa definição nem sempre se mantém restrita ao que é mais importante para o público, passando muitas vezes pelo filtro de interesses pessoais do veículo, dos patrocinadores e do próprio poder público. A edição com finalidades políticas foi evidente no famoso debate entre Collor e Lula em 1989. A Rede Globo, no dia seguinte à transmissão ao vivo do debate, mostrou uma versão editada com aqueles que seriam os melhores momentos, mas que evidentemente favoreciam a imagem de Fernando Collor em detrimento da imagem do candidato petista.
A emissora de Roberto Marinho, para além deste episódio do debate, já vinha defendendo o candidato do PRN. Roberto Marinho julgou Collor “mais assentado, mais ponderado, mais equilibrado, com suas boas ideias privatistas”, do que os outros concorrentes. Se o candidato continuasse nesse caminho, acrescentou, “vou influir o máximo a favor dele”.
IMPRESSIONAR
Um mágico ruim é aquele que simplesmente pega uma carta do baralho e mostra aos seus espectadores. Um mágico bom é aquele que cria suspense, tensão, conta uma pequena história, cria metáforas, puxa a carta tal como um cavaleiro puxa a espada, demora para revelar o naipe e, finalmente, a mostra ao público como se segurasse o Santo Graal em suas mãos. O primeiro truque poderá gerar algumas palmas, mas o segundo deixará a plateia boquiaberta e impressionada.
A comunicação tem o poder de impressionar. Algo simples pode se tornar espetáculo para o público, deixando-o ansioso e sedento por mais daquilo. Comunicando-se dessa forma, é muito mais fácil de convencer as pessoas sobre algo. Já não se apela mais apenas à razão para apresentar os fatos. O que entra em jogo é a emoção, da qual o espectador não tem total controle e, caso seja “fisgado”, se deixa levar.
Quanto mais entretenimento as mídias oferecerem ao povo, mais as chances de captar a atenção dele. Capturar a atenção, em especial a atenção emotiva, dá controle aos meios, pois quanto mais uma pessoa toma conhecimento dos fatos da realidade através do filtro da mídia, mais ele acredita que o mundo é tal como é mostrado por esses canais (teoria da cultivação de Gerbner).
Dentro desta nova realidade midiática, a política não fica de fora do processo de espetacularização. O governo se comunica midiaticamente com a população, e inevitavelmente faz uso dessa nova estética dos meios. A presidenta Dilma, por exemplo, já não pode se reservar a inaugurar mil casas populares na região metropolitana do Rio de Janeiro sem ir até lá, cortar uma faixa cerimonial, entregar a primeira chave a uma família de moradores, entrar na residência, tomar um café com esta mesma família e tirar fotos com o prefeito, tudo isso coberto pela imprensa. Apenas assinar a execução de um projeto na solidão de seu gabinete não gera efeitos para sua imagem.
“Assim, a política na mídia não mais se faz como política, mas se despolitiza, pois passa inevitavelmente a obedecer a padrões de produção da mídia e do espetáculo. A mídia então faz a política. Midiatização e espetacularização constituiriam uma poderosa, inevitável e indissociável lógica produtiva que, no limite, inviabilizaria o exercício de qualquer política não totalmente transtornada pelo espetáculo, nesse novo espaço, nessas novas linguagens, enfim, nessa nova dimensão pública da sociedade contemporânea.” — Antônio Rubim
ILUDIR
Por fim, o truque de um mágico nada mais é do que ilusão. A voluntária da plateia que se ofereceu para se deitar em uma caixa e ser serrada pelo mágico não foi realmente cortada ao meio, e a plateia sabe disso. O que os fascina não acreditar ou não no truque, mas sim o mistério. Por mais que seja ilusão, eles não sabem como o truque foi feito, eles são mantidos no escuro e só têm acesso àquilo que foi mostrado a eles, pois um bom mágico nunca revela seus truques.
A comunicação funciona de forma semelhante. Ela é um filtro entre a realidade e o receptor. Não nos é dado acesso ao real, apenas às representações feitas dele. E, por mais que saibamos que os meios são apenas um recorte e uma interpretação discursiva dos fatos, continuamos a consumi-los, pois não só eles são o único acesso que temos àquela realidade como também acreditamos ser céticos ao que é dito. Não importa o quanto a mídia minta, eu nunca serei enganado por ela (efeito da terceira pessoa). Assim, consumimos a mídia sem preocupação de nos iludirmos — o que nos torna ainda mais suscetíveis à ilusão.
Guerras, esperança, escândalos, suspeitas, glórias. Tudo pode ser literalmente criado pela mídia — mais uma vez, fato bem demonstrado pelo filme Mera Coincidência. Um dos grandes exemplos que temos na história é o medo do comunismo. Foi-se criando um imaginário sobre a figura negativa do comunista tão forte que o medo se instaurou em grande parte da população internacional. Nas palavras do próprio Manifesto Comunista,
“Um fantasma ronda a Europa — o fantasma do comunismo” — Karl Marx e Friedrich Engels
O Brasil não foi exceção, tanto que o golpe militar de 1964 se justificou na opinião pública como uma prevenção à tomada do poder por parte dos comunistas. E essa construção ilusória foi tão grande que ronda a sociedade até hoje, de forma que vemos manifestantes pedindo a volta do regime militar e acusando o PT de estar instaurando um Estado comunista no Brasil, como visto nas manifestações do dia 13 de março de 2016.