Colecionadora de memórias

E então ela observava a vida através da janela do carro.
 
Seus grandes olhos castanhos percebiam cada movimento vindo do outro lado daquele vidro meio sujo, parcialmente embaçado. Foi assim que tocou a superfície daquela separação transparente, como se pudesse tocar a vida lá fora. Ansiava pelas pequenas coisas, momentos instantâneos de estranhas pessoas. Os leves sacolejos de seu transporte quase silencioso começavam, continuavam, então paravam. Ela não podia escutar nada que acontecia nas calçadas, por isso imaginava.
 
Viu um rapaz e uma garota conversarem e rirem e, instantaneamente, por poucos segundos, tocarem suas mãos, uma na outra. Um movimento que poderia passar despercebido… Se ela não conseguisse ver o brilho no olhar do casal. Ou futuro casal. Ou possível casal. Que talvez nunca teve nem teria a oportunidade de ser um. Não sabia, cada um tinha seus motivos. Imaginou o diálogo, “Nossa, faz tempo que a gente não se vê, como você tá?” “Eu tô bem e você? Ainda continua frequentando aquele bar que costumávamos ir?” “Ah, não… a vida anda tão corrida ultimamente, o meu tempo parece ser todo pro trabalho, você sabe”. Mas não pôde imaginar o resto da conversa. O sinal ficara verde, o carro já andava, deixando pessoas, histórias e acontecimentos para trás.
 
Os lugares passavam correndo diante da sua vista e ela pensava. Quantas pessoas estariam sozinhas nesse minuto. Seria uma solidão sem a presença de alguém, ou aquela que se sente no meio da multidão? Elas estariam sozinhas como ela? Ou cada solidão é única? Então o carro parou outra vez e os pensamentos se dissiparam, seus olhos fitavam um novo momento agora.
 
Uma criança brincava com seu balão de gás e, de repente — pobre criança — o deixou escapar. E voar, pelo céu, livre. Ficou tão feliz ao ver seu balão colorido subindo, subindo, que, quando percebeu que ele nunca mais iria voltar, desatou a chorar. Um homem ao seu lado fechou o rosto e proferiu algumas ríspidas palavras para o menininho. “Não consegue ficar nem um minuto com um balão? É por isso que não gosto de comprar essas coisas para você”, ela imaginou, claro, não conseguia escutar.
 
E sonhou, de olhos abertos, com o balão que voava pelos céus. Já teria se estourado? Atravessaria toda a Terra e iria para o universo? “Claro que não”. Mas por alguns instantes ele foi verdadeiramente livre. Seus olhos famintos, seus dedos no vidro da janela, sua mente contida, todo o conjunto que fazia parte de si queria ser como o balão e voar por aí. Não poderia, não hoje, talvez nunca. Não tinha tanta força quanto aquele balão e provavelmente não teria no futuro.
 
Se contentou, então, com a liberdade de observar a liberdade das outras pessoas. Ou as pequenas coisas, os momentos simples, as memórias que ela coletava — e criava? — de pessoas sem nome, sem identidade, sem endereço.
 
 Mas que ela guardaria na memória, como uma zelosa colecionadora.


Conto revisado e publicado originalmente há 4 anos atrás em um blog que agora é porta-rascunhos.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Alana Pacheco’s story.