Um sonho em rascunho

Uma voz a acordou.

Não foi de forma assustada que ela abriu os olhos. Foi como se despertasse de um bom sonho e, ao mesmo tempo, como se ainda não tivesse acordado dele. Acordou, totalmente lúcida mas ainda assim sonhando e, por mais que fosse, nada parecia muito real, ao seu redor todas as formas eram mais suaves do que sempre vira. Pareciam envolvidas por algum tipo de névoa, pareciam banhadas pela luz pálida da lua.

A voz que a tinha acordado parecia ter vindo de lugar nenhum, e ao mesmo tempo de todos os cantos do quarto, de todos os objetos e móveis e de todas as pessoas do mundo. Parecia ter vindo de anjos, se ela acreditasse na existência destes. Sim, uma voz a tinha despertado sem motivo aparente, sem ter um lugar originário, sem futuro certo. Ela apenas sabia que não poderia dormir mais, que deveria procurar, pelos corredores, pelos céus ou dentro de si uma resposta para qual seja a pergunta que existia entre ela e a paz que lhe era devida.

Não se preocupou com as vestes, com o cabelo desalinhado e até mesmo com calçados. Apenas seguiu, assim, uma sonâmbula em seu sonho real. Os pés não pareciam nem tocar o chão e ela se levava para lugar algum, assim como é o futuro: indeterminado. Diversas perguntas poderiam se formar em sua mente programada e astuta, mas elas se afastaram, sumiram, pareciam que tinham respeito pelo seu particular momento de sonho-realidade.

Atravessou o quarto em silêncio enquanto uma melodia conhecida tomava conta da sua mente à medida que se afastava, porém ela não conseguia se recordar onde a tinha escutado. Passou pela sala com passos quietos e lentos e a pouca iluminação do local pareceu refletir em sua pele branca e exposta. Não olhou para trás nem se distraiu olhando para os lados, deixava os olhos verdes fixos no nada, à sua frente e apenas para frente.

Se encontrou nos jardins, onde o verde sombrio das árvores e plantas se exibia, imponente. A fria luz da lua deixava o cenário ainda mais tenebroso, quase melancólico e a canção melancólica deu lugar à uma melodia fúnebre, preparando-a. Mas preparando-a para que? O ar gelado arrepiou os pelos dos seus braços nus, mas ela não se incomodou com o frio. Poderia sentir medo, mas até o medo estava ausente naquela noite e não se pôs a cair sobre ela.

Foi quando ouviu uma voz.

— Não te assombras, Alice?

E era a mais gélida e cortante das vozes.


Conto revisado e publicado originalmente em dezembro de 2012 em um blog que agora é porta-rascunhos.

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