Esse é você, de olhos fechados, na chuva. Lutando contra o frio e sentindo a água penetrando por sua camisa e tocando sua pele. Com a sensação do chão ficando fofo embaixo do seus pés, o cheiro de terra, o som da chuva batendo nas folhas. Na sua cabeça, lembranças se instalam e, agora, fazem mais sentido do que quando foi sentido pela primeira vez.

Como naquela manhã no trem, em que você observava passageiros em sua volta e acabou deixando seu olhar na senhora de cabelo vermelho que folheava um livro de capa verde-esmeralda. Essa senhora de testa franzida que, num instante, desfez a expressão séria e abriu um sorriso lento ao ler a próxima página daquele romance que você não conhece. E você ficou ali, preso no flagrante, com o mesmo sorriso lento, sem olhar em volta. Esqueceu da pressa, dos dias chatos e planejou bobagens. Aquele acaso distraído, te distraiu.


Volta. Você ainda está na chuva, de olhos fechados. Lembra? O frio se confunde com pontas de agulhas, mas não existe dor. Tudo desaparece, desbota, se esconde. Você mexe seus dedos como quem toca as teclas de um piano. Suave e disciplinado. Pause. Tudo fica em silêncio. Será que acabou? Seus olhos entreabertos olham para o céu e você percebe que é aquele tipo de pessoa que gosta do fim de tarde, quando as nuvens ficam alaranjadas como estão agora. Os tons do céu dançam, repousando-se nas nuvens. Está tudo bem. O chão continua fofo embaixo dos seus pés. Está tudo calmo. O cheiro de terra envolve seus cabelos. Está tudo inteiro. Você está completo.

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