Direto de “Floripa”: a artesã viajante

Patrícia, vendedora ambulante da passarela da Estação Sapucaia, comenta seu trabalho e a jornada interestadual.

Para maior imersão, leia com a faixa acima.

Quando pisei na passarela para iniciar a apuração para a reportagem, minhas retinas logo trataram de procurar o primeiro entrevistado. Meus olhos fixavam diversos pontos ao longo da caminhada. Quem me visse, poderia pensar que eu estivesse sob o efeito de alguma substância ilícita, segundo a constituição tupiniquim. Nada disso, eu era apenas um estudante de Jornalismo, procurando desesperadamente por uma fonte (o que poderia ser ainda pior).

Na metade do caminho, avistei uma jovem moça, vendendo colares de pedra, pulseiras e outros produtos que a sociedade “reaça” costuma associar aos chamados “drogados”. Pronto. Agora eu realmente poderia ser taxado como um vagabundo, um atentado aos cidadãos de bem. Então aproveitei a chance da fama e decidi que ela seria a minha primeira entrevistada da manhã.

“Meu nome é Patrícia, tenho 23 anos e estou aqui na passarela há uma semana. Sou de Florianópolis”, apresentou-se. De súbito, fiz uma careta de espanto. Ela deve ter percebido, pois logo emendou: “… mas… eu fico geralmente uns dois meses, depois volto para Florianópolis.’’

“Por que Sapucaia?’’, perguntei, com ar de âncora do Jornal Nacional. “Eu tenho vários amigos que trabalham nessa função por aqui. Então, quando nos reunimos, abrimos os panos na passarela e conseguimos trabalhar. Aí, quando chega o verão, vamos todos lá para a minha cidade”, respondeu.

Olhei rapidamente para o pequeno bloco em minha mão, a fim de não me perder ou esquecer alguma pergunta. E logo continuei: “Por que você vende esse tipo de produto? Você mesma produz?’’

“Sim, eu compro as pedras e as linhas, depois produzo. Geralmente eu faço só para uso pessoal, mas como nos últimos meses larguei vários currículos e ninguém me chamou, eu resolvi também produzir para vender e para ocupar a cabeça, sabe. E eu estou ganhando uma grana legal, em torno de uns dois mil por mês. O que incomoda é que há muitas pessoas preconceituosas, que olham feio para o nosso trabalho, pois acham que não é algo digno.’’

Para finalizar, comentei o pronunciamento da prefeitura e perguntei sua opinião.

“Olha, eu tenho até licença de artesã, concedida pela prefeitura. Não estou vendendo nada fora da lei. Há vários hippies que trabalham sem a carteirinha, pode ser que esses sejam até prejudicados, caso estejam aqui. Mas eu tenho autorização. Em último caso, se eu realmente precisar sair daqui por algum outro motivo, eu irei respeitar. Posso vender em outro lugar, eu acho um espaço, afinal, as ruas e as calçadas são públicas.’’

Agradeci e me despedi, sem encontrar motivos que comprovassem algum tipo de problema na venda ou na moça. Que pena para os desconfiados.

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