Dunkirk: novo filme de Nolan desperta pouca emoção, mas compensa na técnica

Christopher Nolan pertence àquela categoria de diretores atuais que conseguem agradar tanto o público quanto a crítica, assim como Quentin Tarantino, David Fincher ou Martin Scorcese. Desde Batman: O Cavaleiro das Trevas, o cineasta vem conquistando uma legião de fãs que o idolatram como um Deus da sétima arte. Além de uma Gothan City mais realista, ele também já levou o espectador aos bastidores dos espetáculos de mágica (O Grande Truque), aos confins do universo (Interestelar) e ao submundo dos sonhos (A Origem).
Desta vez, Nolan se aventurou em um evento histórico, proeza até então inédita na carreira.
Seu novo filme é baseado na Operação Dínamo, ocorrida na cidade litorânea francesa de Dunquerque, durante a Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, as tropas aliadas da Bélgica, Inglaterra e França foram cercadas pelo exército alemão, sendo obrigadas à uma evacuação em massa pelo mar, onde eram alvos fáceis de submarinos e aviões nazistas.
Trata-se, portanto, de um filme de guerra. Gênero muito conhecido por conta de O Resgate do Soldado Ryan, Atrás da Linha Vermelha, Apocalipse Now e Platoon. Mas mesmo pisando em um território com tantas obras consolidadas, Dunkirk consegue inovar graças à imersão construída pela parte técnica.
A direção de Nolan é um dos grandes pilares que sustentam a narrativa. Para passar a sensação de instabilidade, há diversos usos de planos holandeses -sobretudo em cenas com aviões. A câmera também atira, rola na areia, mergulha e nada, refletindo o ponto de vista dos soldados. Por fim, planos gerais evidenciam o quão encurralados eles estão.
Outro grande trunfo da “mise en scène” do filme é a representação (ou falta dela) dos antagonistas (alemães). Nunca sabemos de onde os tiros são disparados. A ameaça é invisível - técnica difundida no cinema por Alfred Hitchcock e aprimorada por Steven Spielberg.

Como se não bastasse o excelente uso da lente, a edição de som (forte candidata ao Oscar) também tem um papel vital. Os ruídos incômodos dos aviões, dos tiros e das bombas estão presentes a todo instante, dotados de uma veracidade fantástica. Parece que a sala da sessão está no epicentro de um confronto bélico.
Para lapidar com maestria o processo de pós-produção, a trilha sonora, novamente elaborada pelo compositor Hans Zimmer (que acompanha Nolan desde a Trilogia Batman), é outro show à parte. O frenético ritmo instrumental é constante durante quase todos os 120 minutos do longa, agravando a tensão da evacuação da praia com faixas de tirar o fôlego.
Quer uma degustação da trilha sonora? (https://www.youtube.com/watch?v=n1VJ39nVIBk)
Dentre todos os filmes do diretor, o roteiro de Dunkirk é o mais contido (justo, pois é baseado em fatos reais). Não há grandes pontos de virada ou revelações bombásticas, nem cenas de ação que desafiam a física. É apenas um olhar honesto de um artista sobre a guerra.
Não há diálogos longos, pois não há tempo para repouso na trama. É uma luta contra o tempo, contra o avanço das tropas inimigas. Devido a isso, os personagens são pouco explorados. Alguns nem sabemos o nome. Por consequência, não sentimos muita empatia por seus objetivos individuais. Se morrerem, não fará muita diferença. O ator Tom Hardy, por exemplo, é pouco aproveitado. Quem mais consegue se destacar com poucas linhas de texto é Mark Rylance (que inclusive venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2016, por Ponte de Espiões).
Os discursos, divididos entre quatro núcleos de personagens, não conseguem fugir muito dos clichês. Cada subtrama se propõe a debater sobre um valor diferente: esperança, coragem, persistência e sacrifício. Temas presentes na maioria dos filmes do gênero.
Mesmo subtraindo os pontos fracos, o saldo de Dunkirk continua muito positivo. Christopher Nolan mais uma vez acerta a mão. O filme não evoca lágrimas ou suspiros, mas carrega a adrenalina pungente da guerra.
