PRAIAS, ASFALTO E INTROSPECÇÃO: O CAMINHO BRASILEIRO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

Alan Christian
Jul 22, 2017 · 8 min read

Inaugurado na manhã de 29 de junho de 2017, em Florianópolis, o primeiro trecho oficial das Américas do Caminho de Santiago de Compostela atrai aventureiros e peregrinos católicos.

Reportagem produzida por Alan Christian.

Vistas do caminho: Praia Brava.

Para maior imersão, leia a reportagem com a playlist acima.

A Ilha

Vista da ponte Gov. Pedro Ivo, cuja estrutura possui um pouco mais de um quilômetro de extensão, a ilha de Santa Catarina (parte insular da capital Florianópolis) aumenta de tamanho conforme os pneus do carro giram em direção a leste do globo terrestre. Logo à frente, uma leve descida encontra o centro da cidade. Enquadrada no segundo plano, uma linha em formato de onda contorna o cume do Morro da Cruz, ponto turístico com 285 metros de altura, onde estão encravadas as maiores antenas de telecomunicações da região, que tocam as nuvens em dias que o céu está mais retraído. À direita, recuada pela borda da baía sul, está a passarela Nego Quirido (se escreve assim mesmo), onde desfilam as escolas de samba do carnaval “manezinho”. À esquerda, para além do fluxo inverso de veículos, com seu majestoso arco em formato de uma letra U cansada, a antiga e charmosa ponte Hercílio Luz, símbolo da capital, dá boas vindas aos motoristas. Essa visão, que se multiplica em redes sociais no verão, acena para os turistas e moradores que flutuam metros acima da água salgada.

Rodeada pelo oceano Atlântico, a ilha possui praias para todos os gostos, dotadas de cores que ilustram a serenidade das canções do jamaicano Bob Marley e ao mesmo tempo o ritmo dançante de Chico Buarque.

Algumas delas, em épocas de alta temporada, seduzem jogadores da Seleção Brasileira de Futebol e outros milionários famosos que mergulham na efervescência boêmia. Outras são destinos carimbados de aventureiros que procuram dunas, trilhas ou ondas favoráveis à prática de esportes aquáticos. Dentro desta segunda categoria, encontram-se as praias de Canasvieiras, Ponta das Canas, Lagoinha, Brava e Ingleses, cujas areias ganharam recentemente uma atenção maior dos holofotes internacionais, passando a integrar oficialmente parte do Caminho de Santiago de Compostela — primeiro trecho das Américas reconhecido pela Catedral de Santiago, na Espanha.

Trajeto de Florianópolis do Caminho de Santiago de Compostela. Imagem: Diário Catarinense

A Origem

Surgido de uma tradição católica e percorrido desde o século IX, na Europa, o Caminho de Santiago de Compostela possui rotas partindo de diversos países e com distâncias variadas. Todas atraem e hipnotizam milhares de devotos e praticantes de trekking (ato de caminhar em trilhas naturais), que desgastam calçados cruzando artísticas paisagens urbanas e rurais até descansarem na sombra da Catedral espanhola de Santiago, a linha de chegada — onde está o túmulo de um dos apóstolos mais próximos de Jesus, segundo a Igreja Católica.

De acordo com a tradição, quem completa o percurso atinge a clarividência e encontra o rumo certo da vida. Para ganhar a Compostela (como é chamado o certificado da caminhada) é preciso percorrer no mínimo 100 km — a pé, de bicicleta ou a cavalo.

A rota mais conhecida é a francesa, que inicia na cidade de Somport. De lá até Santiago são cerca de 860 km.

O Caminho ganhou ainda mais fama internacional a partir de 1993, quando foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Um dos responsáveis pela repercussão no Brasil foi o escritor Paulo Coelho (embora muitos brasileiros questionem sua literatura), através da obra O Diário de Um Mago, na qual ele relata a experiência da travessia.Também há um documentário sobre a rota: Footprints: The Path of Your Life.

O Caminho

Reconhecido como trecho oficial desde 29 de abril, mas inaugurado em 29 de junho, o trajeto americano do Caminho de Santiago de Compostela possui 21 km de extensão, ligando quatro igrejas através das estonteantes praias de Canasvieiras, Ponta das Canas, Lagoinha, Brava e Ingleses, na região norte da ilha.

Fábio Farah e Mariana Mansur, moradores de São Paulo e idealizadores do Caminho Brasileiro de Santiago de Compostela, escolheram Florianópolis por se tratar de uma cidade com aeroporto internacional, além de ser mais segura e semelhante (geograficamente) com a rota espanhola de La Coruña.

“A ideia surgiu quando a Catedral, por meio do Deão Dom Segundo López, decidiu rever a regra sobre uma rota histórica: a que sai de La Coruña em direção à Santiago. Ela só tem 77km e, portanto, não dava direito à Compostela (certificado) ao final do trajeto. Com a mudança, quem comprovasse ter feito a quilometragem faltante ao trajeto poderia receber a Compostela. O Fábio entrou em contato com o Deão e foi autorizado a criar este trecho complementar no Brasil. Agora o brasileiro tem a oportunidade de começar o Caminho na porta de casa, como os europeus fazem desde a época medieval”, esclarece Mariana.

Na manhã do dia 29 de junho, cerca de 600 pessoas participaram da cerimônia de abertura na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, onde também adquiriram o carimbo do Caminho, para então começar a jornada sob o sol intenso que iluminava o importante marco.

Ponto de saída: Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, em Canasvieiras.

“Na inauguração tivemos pessoas de quase todos os estados brasileiros, alemães, argentinos e uruguaios. O Caminho de Santiago de Compostela mexe com o imaginário das pessoas e é sonho de muitas em realizá-lo até o sepulcro de São Tiago na Espanha”, argumenta João Élcio Trierveiler, presidente da Associação Catarinense dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela, entidade responsável em auxiliar quem deseja realizar o trajeto.

Vistas do caminho: praia de Canasvieiras.

Iniciando pela praia de Canasvieiras, o trajeto de Compostela desperta sobre as areias mais disputadas por argentinos, uruguaios e paraguaios no verão, quando bares e vendedores ambulantes exibem queijo coalho, camarão frito e drinks típicos de épocas de altas temperaturas. Mas aqui, a atração principal é outra: a água calma que se transforma num longo tapete reluzente sob a luz solar.

A paulista Rosana Guidugli, 38 anos, advogada e personal trainer acostumada com maratonas, conta que teve facilidade em completar a distância, percorrida no dia 30 de junho: “Tive a companhia de um amigo ultramaratonista de Belo Horizonte que conheci na maratona do Deserto do Atacama, em 2016. Como somos atletas amadores não tivemos dificuldades. Paramos muitas vezes para tirar fotos e admirar a beleza”.

Vistas do caminho: praia da Lagoinha

Após Canasvieiras, a trilha segue pelas costas de Ponta das Canas e Lagoinha, região mais dominada pelos pescadores locais e menos badalada que a praia anterior. Entretanto, a paisagem continua a servir de colírio para os olhos.

Nessa área também está localizado o segundo pilar do caminho, a igreja São Pedro, cujo símbolo tem valor especial para Gilson Schiavini, catarinense de 51 anos que vive em Florianópolis há cinco invernos.

“Fiquei sabendo do Caminho com o Padre Mário, da igreja onde frequento. Minha motivação para realizar o trajeto possui duas razões: aventura e religião, mas talvez mais por religiosidade. Foi um momento especial de encontro entre mim e Deus, de muita reflexão. Foi um daqueles dias em que descobrimos que não precisamos de muito para viver, apenas uma mochila nas costas já é o suficiente”, revela Gilson, que realizou o percurso no dia 29.

Segunda parada: Igreja São Pedro.

Gilson também relata que a trilha precisa ser mais sinalizada, com placas indicativas mostrando o trajeto. Por fim, confessa que o plano de completar o caminho na Espanha tem um gosto especial: “Tenho esse grande sonho que é fazer o trecho da França à Espanha. É um sonho, mas vou continuar alimentando diariamente, pois esse é o verdadeiro caminho do bem e do conhecimento. Quem sabe um dia poderei ir”.

Uma subida asfaltada anuncia que a Praia Brava é a próxima paisagem que irá compor a peregrinação. Após alguns minutos ladeira acima, a vista do mar compensa o esforço. Lá embaixo, a areia novamente é a protagonista do trajeto, agora ladeada por uma vegetação rasteira densa, que acompanha o andarilho até um morro de mata fechada, onde as sombras das árvores e o som das ondas faz qualquer um esquecer que está em uma metrópole brasileira.

Vistas do caminho: subida para a Praia Brava.

A natureza do Caminho Brasileiro de Compostela enche os olhos, faz suspirar, mas também gera obstáculos físicos. Fabian Bormida, 43 anos, uruguaio que vive em Pelotas/RS, já havia realizado a rota francesa com a esposa Tatiane Machado, e destaca que o trecho brasileiro foi um dos mais difíceis que eles percorreram, devido à instabilidade do percurso, que oscila entre subidas, descidas, areias, rochas e mata.

O casal completou a principal rota europeia em 10 de maio, e depois realizou a parte de Florianópolis: “No dia 14 de junho eu e Tatiana voltamos ao Brasil, e pelo Facebook descobrimos sobre o caminho brasileiro, que inauguraria ainda naquele mês. Embalados pelo espírito peregrino, resolvemos sair novamente da nossa cidade (Pelotas) e participar deste momento histórico. Para quem fez 843 km a pé, 500 km de carro era uma barbada”, compara Fabian.

Fabian e Tatiane realizando o trecho de Florianópolis, em 29 de junho.

No fim da conversa, ele pontua qual foi a maior recompensa que o desafio proporcionou: “Não imaginávamos encontrar tanta gente. Ficamos surpresos positivamente. Fizemos amizade e isto é uma das melhores coisas que o espírito peregrino permite”.

O casal também criou um canal no YouTube com o objetivo de auxiliar os interessados na caminhada, chamado Caminhos do Êxito, no qual mostra partes das rotas (tanto a francesa quanto a brasileira).

Vistas do caminho: praia de Ingleses.

Após uma descida íngreme por entre os troncos do morro verde, os olhos dos andarilhos emolduram a última parte da jornada, a praia de Ingleses, onde a espuma marítima encontra os pés das dunas.

Quando o corpo atravessa o portão do Santuário Sagrado Coração de Jesus, ponto de chegada, lá está o prêmio. Para os católicos: a iluminação interior. Para os aventureiros: o autoconhecimento. Recompensas abstratas, mas para eles, inesquecíveis.

Ponto de chegada: Santuário Sagrado Coração de Jesus.
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