As vantagens de ter um curativo na mão

Ontem de manhã eu me machuquei.

Estava entrando no banho, ainda meio dormindo, meio ocupado pensando no dia cheio que teria pela frente, quando resolvi mexer minha mão pra fazer sei lá o quê! Talvez ajustar a temperatura do chuveiro, uma vez que tava mega frio àquela hora. Minha mão nunca alcançou o regulador de temperatura, porém. Ela ficou presa no caminho, num suporte de metal pra sabonetes, que fica na parede. Ainda não me acostumei com a presença daquilo ali.

Depois do baque seco e surdo, sangue. Foi um corte profundo e imediatamente me senti fraco pela energia que se esvaía por aquele corte. Desisti do banho — antes que caísse. Me sequei um pouco e voltei pro quarto, auxiliado por minha avó, que me trouxe água e um pano umedecido. Depois de constatar que não morreria ali, decidi que tomaria café antes de procurar um médico que fizesse um curativo na minha mão.

Desci até a mercearia, na esquina de casa. A vizinha que não me via havia meses ficou toda contente em me ver. “Estou aqui por acidente”, disse sorrindo e levantando a mão que minha avó havia enfaixado provisoriamente. Me senti acolhido por ela, que ficou toda interessada em saber como ia a minha vida e demonstrou preocupação com o machucado. E isso foi bom!

Uma hora mais tarde — e alimentado — eu caminhei até uma clínica próxima de minha casa. O porteiro, pra quem eu me identifiquei mostrando a mão enfaixada, recolheu minha carteirinha e disse: “Pode ir até o final do corredor e entrar numa porta que tá escrito ‘Enfermagem’; vai direto”. Não precisei esperar longamente a minha vez de falar com a moça que me daria papeis pra assinar. Fui agraciado com a possibilidade de ser atendido quase que imediatamente!

Depois da sutura, voltei pra casa, com uma faixa nova na mão. “Mantenha por 24 horas”, o médico recomendou, e assim eu fiz! Primeiro porque a sensação de segurança com aquilo envolvendo meu ferimento aumentava consideravelmente; segundo, porque eu estava recebendo um tanto mais de cuidado das pessoas com as quais conversei aquela manhã. A presença da faixa tornava as coisas um pouco mais confortáveis. Havia um ganho, apesar da dor chata na mão.

Depois do almoço fui ao trabalho e o atestado que eu disse ao médico que era desnecessário, de repente, veio a calhar! Não consegui ir ainda aquela manhã tomar uma vacina, que ele também prescreveu, e resolvi que faria isso aquela tarde.

No trabalho e em todos os outros lugares que passei ao longo do dia, tive voltados a mim os olhos das pessoas, expressando sua preocupação com o meu estado; um cuidado bom de se receber.

Mais tarde, resolvi que tiraria a faixa, afinal, ela já estava me incomodando e a própria enfermeira, antes do médico, disse que algumas horas mais tarde não haveria problema em ficar sem. “Estraguei minha mão de pôr no bolso”, pensei, pois guardo tudo no bolso esquerdo da calça, exceto pelo celular, mas este é fácil de acessar com as pontas dos dedos. O que senti ao desenrolar minha mão foi um estado de extrema vulnerabilidade. Além disso, remover aquele “sinalizador” demonstraria que eu estava recuperado e eu não queria que as pessoas pensassem isso e descuidassem de mim, afinal, ainda doía.

Sentia aquela ardência aguda que surgia por debaixo da pele, me lembrando que eu estava exposto. “Preciso coloca-la outra vez”, disse a mim mesmo antes de me arrumar para sair de casa.

No meu trajeto fiquei me lembrando da sensação de me despir da faixa e de como tirá-la me fez sentir sem segurança, além de todo o cuidado com o qual fui tratado ao longo do dia por um corte tão pequeno, e então pensei no meu sintoma — seja ele qual for.

A forma como nos relacionamos com o sintoma e com aquilo que nos faz sofrer é algo muito curioso!

Não foi bom levar as injeções de anestesia e ainda sinto a dor da vacina que tomei mais tarde naquele dia… mas, ao mesmo tempo, algumas circunstâncias me fizeram ver como estava aproveitando a situação toda. A presença de um sintoma visível fez com que outras pessoas me tratassem melhor.

Lembrei da minha caminhada na análise e me perguntei, sem responder de fato, quantas vezes já havia feito aquilo, do quanto havia sido aproveita(dor) do meu sintoma.

O sintoma é importante! É uma “formação de compromisso” e surge, como Freud ousa nos dizer, para satisfazer um desejo recalcado. Como lidar com isso? O que pode haver do desejo num corte feio feito na mão? Ou numa vida complicada, de saúde comprometida? Ou de relações que desgastam?

Bem, as coisas não se dão de forma tão aleatória assim, isso é certo! O corte tem sua razão de ser. Não por acaso, duas vezes cometi o ato de substituir a letra “o” pela letra “e” e transformar “mão” em “mãe”, enquanto escrevia esse texto — o que me dá alguma ideia de por onde iniciar a investigação do porquê do ferimento!

O sintoma pode ser dito sem enfrentar as consequências da censura. O corte é visível. Mas é uma pena ter que fazê-lo para então poder dizê-lo.
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