Porquê o The Intercept é vital para a democracia do Brasil.

Estive acompanhando nos últimos dias um acirramento das mídias a favor e contra cenários políticos no Brasil. Notícias maquiadas, perguntas tendenciosas, e uma verdadeira cortina de fumaça aos olhos da população acostumada a sentar no final do dia e assistir “o que aconteceu enquanto eu estava pagando impostos”, no intervalo entre a propaganda da (coloque aqui sua marca de produtos de massa com dinheiro para horário nobre), e o tradicional “Boa Noite” que certamente não vai lhe garantir uma boa noite de sono, levando em conta que a maior parte do noticiário é composta de notícias que tirariam o sono da maior parte das pessoas.
O Brasil passa por um reducionismo no campo político que não se via desde os tempos da Arena e o MDB (atual PMDB). Mas este reducionismo binário teve viés gastronômico, quando dois dos principais itens das mesas de boteco foram utilizados como armas de guerrilha: coxinhas e mortadelas. Pois bem, junto com cerveja, estas duas iguarias estão presentes nas mesmas mesas onde por muito tempo tem se discutido futebol, religião e política (apesar do ditado de que não se discute futebol, religião e política). Pois bem, o simples pedido que se faz para o garçon hoje em dia pode acirrar ainda mais o combate.
Neste cenário temos a entrada de um novo jogador. O The Intercept, site estadunidense que conta em seu cast o jornalista Glenn Greenwald, agraciado com o prêmio Pulitzer e radicado no Brasil por razões pessoais, desponta como uma chama de lucidez neste cenário caótico (ou de que está tudo bem, dependendo do assunto abordado, e de qual veículo de informação você escolhe).
Tome como exemplo a notícia de que José Serra recebeu 23 milhões de reais para a campanha de 2010. Notícia estridente, fundamentada em documentos provenientes da delação premiada de membros da empresa Odebrecht. Notícia veiculada na Folha, foi um duro golpe no governo interino que luta por aceitação e busca desesperadamente se desvencilhar do que considera “herança maldita” dos anos em que os que agora são chamados mortadelas eram amigos íntimos, daqueles de compartilhar festas juninas, dentre outras.

Pois bem, esperava-se que esta notícia, que poderia abalar a frágil “Nova República” fosse veiculada nos principais sites de notícias do Brasil, incluindo aquele que se gaba de ter como slogan a frase: “absolutamente tudo sobre…” Pois bem, absolutamente nada da notícia constava no site, nem no principal noticiário da rede responsável pelo site. Aquele do famoso “boa noite.” Lei de mercado. Lei dos patrocínios (coloque aqui sua marca que influencia no conteúdo editorial de seu veículo).
E é justamente aqui que se insere o The Intercept. Sabemos que fazer jornalismo de qualidade envolve custos, mas também envolve desprendimento das instituições estabelecidas. Às vezes precisa chegar alguém em nossa casa pra gente se dar conta da bagunça que está. Tem muito brasileiro com mais vergonha agora que o site está lançando para o mundo as notícias da podridão que antes se jogava para baixo do tapete. E o mundo está vendo.
The Intercept é muito bem vindo. Tem versão em português. E torçamos para que prospere com informações isentas, se é que isso é possível.
PS: Com esse texto não quero desmerecer o esforço hercúleo que os blogs independentes realizam para a divulgação de notícias. O diário do centro do mundo dentre tantos outros nadam contra a maré.