A Arte do Elogio ou "Como Destruir uma Vida"

"Ao contrário do que aprendemos, nem todo elogio é bom. Há palavras que envenenam. Elogios que matam lentamente."

O menino entra em casa, sorridente. Tem uma prova corrigida nas mãos. Os pais parabenizam pelo resultado. Elogiam. Meu filho é muito inteligente; é um dom; deve ser genética.

Por trás dessas palavras doces, no entanto, está o veneno.

Plata o Plomo?

Foi a psicóloga Carol Dweck quem trouxe a revolução bombástica. A nossa forma de pensar e agir é fruto duas formas distintas de enxergar o mundo:

Mentalidade Fixa: essas pessoas têm a tendência de enxergar inteligência e as habilidades como elementos estáticos, ou seja, você nasce ou não com elas. Por isso, se uma pessoa de mentalidade fixa falhar em algum teste ou fracassar ao resolver um determinado problema, ela enxerga isso como uma condição de sua própria personalidade: “eu sou burra”, “eu sou fracassado”,”eu não tenho força de vontade”. Como em sua visão de mundo os traços de personalidade não mudam, o seu mau desempenho é visto como um fato consumado e definitivo.

Mentalidade flexível: essas pessoas têm a tendência de enxergar a inteligência e as habilidade como elementos fluidos, ou seja, você pode desenvolvê-los. Por isso, se uma pessoa de mentalidade elástica falhar em algum teste ou fracassar ao resolver um determinado problema, ela enxerga isso como uma falha na sua estratégia e não um traço definitivo da sua personalidade. Ela pode ficar triste e insatisfeita com o resultado, mas sabe que, por meio do esforço e do emprego de novas táticas, ela conseguirá se sair melhor da próxima vez.

Um estudo da doutora Dweck e sua equipe demonstrou como crianças que tendiam à mentalidade fixa sofrem com piores notas e com o desinteresse nas salas de aula. Mas por que isso acontece?

Como para as pessoas de mentalidade fixa qualquer falha momentânea é um veredicto definitivo sobre as suas próprias capacidades, ela passa a evitar situações em que o seu ego esteja em jogo. Assim, esses adolescentes simplesmente param de estudar e se dedicar às aulas, como uma forma de se proteger de julgamentos. Essa estratégia é clara: não consegui porque não tentei. Para eles, cada teste, prova ou exame é um julgamento a respeito de suas identidades. Como ninguém gosta de ser julgado, eles preferem ficar de fora e preservar a integridade de seu mundo fixo.

As pessoas de mentalidade flexível, por outro lado, enxergam um fracasso como uma oportunidade de crescimento e aprendizado. É um fator de motivação para elas se esforçarem mais, implementarem novas estratégicas, repensarem a forma como estão fazendo as coisas.

Envenenado Mentes

Em um outro estudo, adolescentes responderam a um teste de inteligência. Os jovens foram divididos em dois grupos. Para o primeiro (A), os pesquisadores elogiaram o seu resultado com frases do tipo: “parabéns, você é muito inteligente” e “parabéns, você é muito bom nisso”. O segundo (B) recebeu elogios pelo seu esforço: “parabéns, você deve ter se esforçado muito”. Ou seja, no primeiro grupo, os pesquisadores incentivaram a implementação de uma mentalidade fixa: eu sou inteligente, eu sou habilidoso. No segundo, a mentalidade flexível foi incentivada: meu sucesso é fruto do meu esforço.

Antes de fazerem os testes, os dois grupos tinham exatamente o mesmo resultado. No entanto, depois dos elogios recebidos, seu desempenho mudou radicalmente. Quando receberam oportunidade de fazer um outro teste — mais difícil do que o primeiro — os jovens do grupo A não aceitaram a proposta. Por outro lado, 90% dos adolescentes do grupo B aceitaram. Mas o que aconteceu?

Os elogios ao grupo A estimularam o desenvolvimento de uma mentalidade fixa. Para eles, fazer um outro teste significa colocar a sua identidade em risco. Já os estudantes do grupo B foram elogiados pelo esforço, o que estimulou o desenvolvimento de uma mentalidade flexível. Para eles, fazer um outro teste significa uma chance de aprender e se desenvolverem.

O modelo de educação — envolvendo pais e escolas — é obcecado com notas e resultados. Destacamos o fim, e desprezamos os meios. Não é à toa que existe uma epidemia de desinteresse de estudantes em relação aos meios da educação tradicional. E, com a melhor das intenções, plantam-se mentalidades fixas em toda parte.

A Ciência do Elogio

Ao contrário do que aprendemos, nem todo elogio é bom. Há palavras que envenenam. Elogios que matam lentamente. Quando alguém por exemplo é elogiado porque tem um “talento natural”, ele tende a dar menos importância ao esforço. Quando alguém acredita que tem dom, a tendência é que acabe preso a uma mentalidade fixa. E isso pode trazer consequências desastrosas.

Um estudo de Margaret Kern e Howard Friedman constatou que jovens prodígios — aquelas que entraram mais cedo na escola — têm um desempenho profissional e emocional menor do que o esperado. Como isso não bastasse, essas pessoas também acabam tendo maiores riscos de morrer cedo. Dizer para uma criança que ela tem um QI alto é um anabolizante para a mentalidade fixa.

Por outro lado, muitas são as crianças “sem nenhum talento especial” que, por meio do esforço continuo e da criatividade, mudam os rumos do mundo. Sobre isso, nada mais claro do que o discurso do Steve Jobs em Stanford. Jobs, um jovem sem grande destaque além da vontade de conhecer. Jobs, um jovem de mentalidade flexível.

Em uma entrevista, Uri Levine, criador do aplicativo Waze, explica por que Israel é hoje o maior celeiro de Startups. Um dos motivos seria o fato de que “o medo de falhar não existe em Israel”, ou seja, existe uma cultura que estimula a mentalidade flexível. Num ambiente assim, assumir riscos é visto como algo positivo. E, como sabemos, só falha quem assume riscos. Como, então, condenar a falha?

Pais, filhos, amigos, mídia. Parece que todos nós estamos profundamente equivocados em relação ao que e como elogiar os outros. Talvez seja o caso de refletirmos:

Será que o estudante não deveria ser elogiado pelo seu esforço e não apenas pelas suas notas? Será que aquela modelo não deveria ser elogiada pela sua disciplina e não apenas pela sua beleza? Será que os funcionários não deveriam ser premiados pela sua tentativa de buscar soluções para a empresa e não apenas pelos seus resultados imediatos? Será que deveríamos valorizar aqueles que assumem riscos — mesmo com o risco de falhas?

Ou será que continuaremos sufocando talentos, desumanizando pessoas e abortando futuros?