de dias confusos
Nem seus dias mais tristes haviam sido tão tristes quanto os dias de agora.
Ela olhou-se no espelho, se achava feia, indigna, desnecessária… Sua face era um misto de sei lá o quê… Já não sabia ao certo o que sentia, o que queria… Não sabia quem era. Seus olhos pregavam silêncio, já havia chorado tanto nos últimos dias. Sentia vergonha das lágrimas derramadas e das palavras ditas. Sentia vergonha de sua fraqueza… Sentia vergonha de si toda. Ela era uma enorme vergonha.
O bom de viver se torturando é que em algum momento a dor cessa já cansada e acostumada com a dilaceração, há apenas o sangue, as cicatrizes, nem lágrimas há.
Ah, há… Sempre há lágrimas.
Certas dores são eternas.
Mas como você foi ser tão burra?
Ela era o mais estúpido dos seres… Estava destinada às lágrimas. Ela mesma havia nascido dum choro. Nascera dos olhos assim como Atena nascera da cabeça de Zeus. Ela era uma lágrima. Escorreu dos olhos direto ao chão. Uma brusca queda que a quebrou. Tornou-se então um remendo.
Ela era toda fraqueza. Tinha olhos fracos. Olhos pequenos e fracos. Tinha cara de boba. Arredondada e boba. Tinha manchas espalhadas por toda a extensão de sua pele. Talvez para combinar com as manchas de sua alma. Seus cabelos se fingiam de bonitos, mas se enrolavam e davam nó, como ela. Ela se enrolava com tudo. Dava nó em tudo. Ela era um nó. Um nó Górdio.
Ela via tudo com simplicidade e se achava desencaixada já que tudo a sua volta era complexidade. Todos eram complexidade. “Por que todos precisam transformar a sua vida e as vidas alheias em um grande drama?” A Navalha de Occam era o princípio de sua vida. Ela mesma era um navalha.
Cortava pessoas de sua vida com grande maestria. Umas por vontade própria, outras por pura falta de alinhamento. “As pessoas não estão preparadas para viver com minha honestidade, com minha sinceridade.” Se convencia, mas se doía em silêncio. Talvez ela não estivesse preparada para viver com as pessoas, com esse mundo. Talvez ela não estivesse preparada para viver com ela. Carma dela!