Dama de Companhia

Cresci com medo da loucura. Um dia ela ia me pegar. Ela engoliu minha avó paterna. Eu morria de medo dela. Ela ia tornar meu mundo apenas sombras e seria isso de mim. Eu não seria nada. Ficaria presa em mundo escuro, a luz nunca entraria.

Mas a loucura nunca chega primeiro, desavisada.

Ela tem amigos.

E os envia primeiro, em reconhecimento do terreno. Cresci com a solidão à beira de minha cama. Ela me embalava para dormir. Eu era isolada das demais crianças. Não sabia e não gostava de estar entre elas. E elas não gostavam de mim.

Eu fugia.

Em livros, filmes, em mundos que não existiam. Nas minhas músicas. Eu criava um mundo próprio, onde a solidão não conseguia me alcançar.

Por que, durante minha existência, sempre soube apreciar minha companhia. Eu gostava das minhas idéias, dos meus textos, das minhas músicas. De meu próprio mundo sem ninguém.

Eu não sabia, mas era assim que a solidão se aproximava mais. Nunca desconfiei que saber funcionar sem outréns poderia ser parte do problema.

Uma época, ela mandou o sono e o sonhar.

Eu amava dormir por horas. Quase um dia e meio inteiro. O mundo lá fora não era bom mesmo. Para quê perder tempo? Os sonhos eram lugar seguro, gostoso, fantasias divertidas, onde a dor não chegava.

Era cansativo viver em um mundo sem cores. Os sonhos ao menos eram coloridos.

Fui crescendo. Com poucos amigos, mas ainda assim, com algumas amizades. Ainda assim, o mundo nunca foi colorido.

Eu me tornei adulta com medo. Eu vi minha avó materna ser engolida pela loucura. Ela engoliu minha avó e regurgitou uma pessoa diferente. E a matou, como minha avó paterna.

O mundo é escuro. Sem cores. Algumas poucas coisas trazem cor. Mas são instantes fugazes. Todo dia uma luta diferente, uma crise diferente para administrar. Não existe tempo para respirar um ar limpo.

Desconfio que talvez ela já tenha me engolido e não senti.