De quem é a Culpa?

Só sei dizer que não é da mãe

Ter um filho diferente dos demais tem dessas coisas. As pessoas precisam achar um culpado para uma rolada de dados genética aleatória que produziu um ser humano maravilhoso, porém, diferente. Geralmente culpam a mãe. Afinal, quem educou é responsável.

Como se houvesse responsabilidade pela diversidade genética.

Como se houvessem culpados.

Como se nossas crianças fossem quebradas. Produtos com defeito.

Filhos não são coisas. São pessoas. Não pertencem a gente. Não são posse. Então, seguindo essa lógica, não são passíveis de serem quebrados. Também não são moldáveis como argila para uma educação mal feita, uma introdução alimentar mal feita, um apego e um sling... O transformem em algo diferente de um ser humano que a família imaginado pela família. Sendo que a criança imaginada e a que nasce, são duas entidades totalmente diferentes. Por que a criança se desenvolve em um ser próprio, separado dos pais.

Ela não é uma cópia, é uma mistura de gens de pessoas diferentes.

Existem teorias científicas para culpar a mãe

Existe uma coisa chamada teoria da mãe geladeira. Que ela faz? Culpa as mães pelo autismo dos seus filhos. Dizendo que foi a falta de afeto das mães que os deixou autistas.

Laura Guttmann uma vez culpou as mães pela pedofilia praticada pelos filhos. Comentou algo sobre que quem pratica pedofilia não seria um monstro, criminoso, apenas uma pessoa que se enamora por outra criança frágil, perdida, como um dia o próprio abusador foi. Falta de carinho materno transforma pessoas em abusadoras, aparentemente. Não consegui achar o artigo em si, apenas críticas à mesmo, devidamente linkadas aqui.

A mãe leva as culpas,as dores, afinal ela quem educa.

Ou seja, não basta ter de lidar com um diagnóstico de um transtorno, uma perspectiva de deficiência do filho pelo resto da vida. A mãe ainda tem que lidar com dedos apontados para si por algo pelo qual ela não tem responsabilidade total. Por algo que só poderia ser evitado se vivêssemos na distopia de Gattaca (para quem não viu é um filme dos anos 90 onde os pais podiam escolher através de seleção genética todas as características dos filhos e de um homem que burla esse sistema para poder ascender socialmente).

Existem coisas que acontecem a nós e temos que aprender a lidar com isso. Ninguém tem culpa. Apenas acontece.

Leite Materno nenhum vai ser milagroso o suficiente para isso. Por que sim, tem cientista que afirma algo assim. E mães que reafirmam essa loucura.

Mães são pessoas sobrecarregadas , socialmente isoladas

Eis um fato que a sociedade ignora para poder isolar mães e poder continuar intolerante à crianças

Como são isoladas do resto do mundo, mães são as únicas que realmente lidam com crianças (além de professores) diariamente. Fora isso, em nossa sociedade crescem a passos largos espaços childfree (livres de crianças), que deixam bem claro que não aceitam crianças.

Com direito a mãe sendo escoltada para fora desses locais.

Agora só estão avançando e pondo placas. Antes a intolerância aos infantes era mais sutil. Temos já hotéis childfree, restaurantes childfree. Declaradamente childfree. A forma sutil e mais antiga de dizer que crianças não eram bem vindas em um restaurante pelo menos era a de não ter cadeirinhas especiais para crianças pequenas.De qualquer forma, não são apenas as crianças que não são bem vindas nesses espaços. Quando se exclui crianças… suas mães também são excluídas. Universidades tentam ser espaços childfree. Não conseguem. Mães seguem resistindo, apesar de tudo. Existe até página no facebook para denunciar esses abusos.

Agora se põe uma placa na porta.

Eu acho que já vi isso em algum lugar antes… em fotos:

“Servimos apenas brancos. Hispânicos e mexicanos não.”

Acontece então que as mães acabam por serem as únicas responsáveis pelas crianças que existem na sociedade. As únicas que terminam se importando com o desenvolvimento desses seres humanos que a sociedade tanto necessita para continuar existindo e produzindo. Findam então tendo de dar conta da demanda que essas crianças geram, assim como pela continuação da sociedade humana.

No caso das crianças com deficiência, muitas mães são solo. Sozinhas. Sem apoio paterno. Abandono paterno é uma realidade constante de pais que muitas vezes não conseguem lidar com o luto do filho imaginado. Para comprovar o que é dito aqui, basta apenas observar a saída de uma escola especial, de um consultório de um terapeuta infantil. As mães lidam com deficiência sozinhas. No máximo, com ajuda familiar, na maioria das vezes. Infelizmente. Então essas mães tem que trabalhar, produzir, levar seus filhos às terapias necessárias, as aulas extras que precisam para acompanhar o desenvolvimento dos demais… Sozinhas.

Não esquecendo, porém, que uma mãe de uma criança sem deficiência já é sobrecarregada. Ao ponto de que muitas suportam a maternidade apenas com apoio de medicações tarja preta. Betty Friedan comentou algo sobre isso. O isolamento materno levava as mães à falta de identidade, crises existenciais e ao fim, às medicações. Isso nos anos 60 em seu livro a mística feminina.

E ainda tem de lidar com a culpa de ter feito tudo errado. E por isso seus filhos serem um problema social.

Os filhos são um problema social por que a sociedade os transforma nisso

Crianças não são um problema social. Não importa como são. Futuros adultos não são futuros problemas sociais. A sociedade cria os problemas sociais quando não dá oportunidades de desenvolvimento justo para essas crianças.

A falta de oportunidades transforma as crianças e futuros adultos (importante não esquecer disso) em problemas sociais. A falta de acesso à educação, terapias em caso de deficiência, acesso à necessidades básicas que contribuem para o crescimento enquanto ser humano, lançam essas crianças em um limbo social. As marginalizam.

As mães como podem, tentam sanar esse problema. Muitas vezes com múltiplos empregos, longas jornadas, desistência de empregos e de longas jornadas ficando em casa o dia inteiro. Tentam de todas as formas possíveis inserir seus filhos em uma sociedade que os põe à margem de si. Lidando com desde abandono afetivo, financeiro e presencial dos pais.

Enquanto isso, os espaços childfree crescem, o capacitismo continua em voga, assim como o racismo. As mães, entretanto, seguem na luta. E quem luta para que tudo mude e melhore, não há de falar em culpa.