Em Casa
Ou como é escrever sendo mãe
Estou escrevendo sobre uma musicista feminina e suas músicas.
Enquanto isso, a máquina bate, os sobrinhos e a filha gritam e tentam se matar com brinquedos perigosos, e o bebê está calmo no colo. Talvez o bebê seja o único que colabore nessa história toda.
Eu não posso ouvir as músicas que quero citar, pois a hora da aventura está passando. Então sou obrigada a lembrar dos sons de cabeça e revisar as letras em outra aba do navegador.
Por mais que eu queira, não é possível usar fones de ouvido. Preciso ouvir os sons (ou o silêncio suspeito) das crianças.
Também não posso mais editar pelo celular como fazia antes. O celular foi quebrado ontem à noite por alguém que não será citado, mas atende como a Primogênita, Primeira de seu nome, Terror dos Adultos. Então, estou usando o notebook da avó das quatro crianças.
São as férias na praia.
Também é ser mãe.

Em casa a diferença seria talvez, o número de crianças. A máquina continuaria batendo, eu continuaria tentando raciocinar o texto, a Primogênita continuaria tentando brincar com algo que poderia matá-la. Como sempre fez, aliás.
O bebê, ah, esse seria o único a colaborar.
Meu raciocínio ainda teria de ser dividido em 3 coisas totalmente diferentes ao mesmo tempo (amamentação nessas horas é algo quase automático já, assim como digitar com uma mão só).
Toda mãe precisa se adaptar a esse tipo de situação. Ou ela termina se ignorando enquanto as crianças se desenvolvem. Ela perece. Perde sua identidade.
É incrível a ginástica mental que uma mãe tem que fazer para poder existir enquanto individuo.
Ter TDAH nessas horas é uma dádiva. Pois até para ler eu preciso conseguir focar em 3 coisas ao mesmo tempo. Lógico, ao mesmo tempo estou fritando meu cérebro no processo, aumentando o desgaste de uma máquina já desgastada. E com poucas chances de descanso, uma vez que a filha mais velha tem geralmente um sono fracionado durante a noite e acorda cedo pela manhã.
Seguimos, ainda assim.
E sim, amando profundamente as crias, embora ser mãe é trabalhar com uma séria desvantagem mental diante dos outros sem filhos.
