Seu pet não é seu filho

E nunca será

Imagem de Raquel Lucena

Não, isso não quer dizer que você não ame seu bichinho. Não, isso não quer dizer que seu sentimento não tenha valor.

Apenas que você não é mãe.

Mãe é uma pessoa responsável por outro ser humano. Por advento da escolha ou da maternidade compulsória.Ela pode ter adotado seu filho, como pode ter tido de forma biológica. Frisando: responsável pelo desenvolvimento de outro ser humano.

Ela pode ou não amar esse ser humano.

Ela pode fazer o impossível por esse ser humano.

Ela pode ou não colocar esse ser humano à frente de si ou de suas necessidades.

Tirar o fator responsabilidade da maternidade é apagar a vivência e violências do que é a mesma. Fingir que se trata somente de amor acima de tudo é romantizar o que realmente acontece na relação mãe e filhos. Mães são isoladas do contexto social devido ao ódio social reservado às crianças. Crianças não são bem quistas em espaços sociais. Em nenhum aspecto. O argumento desses adultos é o seguinte:

“Crianças correm. Crianças fazem barulho. Crianças invadem espaço alheio.”

Adultos também são assim, inconvenientes. Entretanto são socialmente tolerados. E na maioria das vezes, plenamente E eles as vezes são inconvenientes com cheiro de álcool. E são tolerados em espaços públicos.

Nenhum pet nesse mundo leva a dona ao isolamento contra a vontade dela

A qualquer momento a cuidadora de animais pode abandonar para sempre seu posto, se assim escolher

Em outro texto sobre maternidade compulsória, falou-se das formas que institucionalmente o poder de escolha é retirado das mulheres.

Além de relembrar desse texto vale dizer: Abandono de incapaz é crime!

Uma criança não pode ficar sozinha em casa para que sua mãe possa trabalhar, estudar ou se divertir por algumas horas. Isso é crime, tipificado no parágrafo acima (abandono de incapaz). Mesmo que somente assim ela conseguirá prover para seus filhos. São 5.5 milhões de crianças cujos pais não constam na certidão de nascimento, mais outros milhares de crianças cujos pais abandonaram suas mães e também os filhos (muitos pais acreditam que quando eles deixam a mãe de seus filhos, também possuem o direito de abandonar os mesmos). Nada acontece socialmente a esses homens.

Deixar o gatinho ou cãozinho sozinho em casa por três dias não possui nenhuma consequência penal.

Mães ainda são humanas e precisam de uma folga da terceira jornada (sim os filhos são uma terceira jornada de trabalho, como também ja foi falado anteriormente aqui).

Mães não tem poder de decisão sobre a vida e morte de seus filhos

Da Concepção até o fim, não decidimos quase nada

Se um bichinho de estimação estiver sofrendo, com algum mal incurável, existe a possibilidade de eutanásia.

Do momento em que ocorre a concepção dentro do Estado brasileiro.. a mulher não possui mais escolha sobre o embrião, do ser que se desenvolverá em seu corpo.

O que isso significa?

Mães infelizmente podem vir a ver seus filhos definhar em seus braços por conta de doenças degenerativas terminais. Sem escolha sobre isso.

Mesmo que o filho seja adulto.

Mesmo que o filho adulto queira isso para si.

Eutanásia de seres humanos é crime. Ou seja, nem o filho tem direito a essa decisão.

Não tem existem atalhos dentro maternidade.

Emendando: pais e mães não podem ser omissos em termos de tratamentos médicos. Se os filhos precisam de terapias para poderem se desenvolver, tratamentos medicamentosos.. e eles não proverem (mesmo que por falta de dinheiro)… também é crime. Vale denúncia a Conselho Tutelar.


Não tem nada a ver com amor. Tem a ver com responsabilidade. Muitas vezes, também revolve com falta de escolha.

Muitas mães não escolheram ser mães. Aconteceu na vida delas a maternidade. E elas precisam administrar isso da melhor forma que conseguirem.

Não vou adentrar ainda no conceito de abandono afetivo. Mas ele também poderá ser futuramente tipificado como crime.

Maternidade compulsória não é algo com que apenas mães sofrem. Filhos também.

É provado que o nível econômico/educacional/etário das mães afeta seus filhos. Ou seja, em tese, o poder de escolha da mãe sobre quando exercer (se deseja exercer a maternidade) seria a melhor coisa para essas crianças e futuros adultos.

Acima de tudo:

Não é possível desistir de ser mãe depois que se torna mãe de um ser humano.

Não é um trabalho do qual é possível demitir-se e ir embora com toda calma do mundo.

Não é assim que funciona.

Em outro texto já foi explicado como funciona o processo de entrega para adoção de uma criança.Não se pode apenas passar uma criança adiante como se passa um cachorro.

Igualmente não há um discurso social que endosse violência contra animais. Maltratar animais, aliás, é levado em conta no DSM como traço de sociopatia. Com crianças é chamado de educação. Apenas em casos extremos como o da menina Isabella Nardoni (que não foi a mãe quem matou), a violência é vista como algo errado. O menino Bernardo pediu ajuda antes de morrer. Ignoraram. Novamente, não foi a mãe quem o matou. No primeiro caso, a mãe foi culpabilizada socialmente por deixar a filha com o pai. No segundo não foi possível, por que a mãe estava morta já.

Um pet não é uma responsabilidade imposta. Ele é uma escolha diária de ter-se em sua vida. Uma criança não. Não existe uma edição de fatos. Ela faz parte da sua vida e você é responsável por ela em todos os aspectos. E é seu trabalho cuidar para que ela não se torne uma pessoa como todas as outras no mundo. É sua responsabilidade cuidar dessa criança da melhor forma possível. Por que o mundo já possui pessoas ruins o bastante. A criança é tão vítima da maternidade compulsória quanto a mãe.

Seu pet não é seu filho. Não existe nada de errado nisso. Ele não é outro ser humano. Pelo qual tu deves ser responsável e cujo abandono há nenhuma responsabilização penal. Se tu quiseres, podes bater a porta, nunca mais voltar e não há crime nem penalidade para isso. Pode haver amor. Ninguém duvida disso.

Maternidade contempla muitas coisas, e todas elas ultrapassam os limites do que é amor.