Narrativas negras: BÁRBARA PORTELA

ALAYÉ DUDU
Nov 4 · 4 min read

Digitalmente conhecida por @794xbabibitch, Bárbara é carioca, residente de Goiânia, CEO da agência 794 que visa unir o mundo da música de resistência (rap, samba, funk) com o publicitário.

Filha de um casal afrocentrado, Babi não foi criada para ser boa, mas para ser 3x melhor e ter uma chance. Sua matriz é composta por duas frentes: sua família e a música. Além de lançar sempre referências musicais, vê a música como uma conexão entre pretos, o equivalente a uma conversa, ela ensina e instrui, traz consolo, forças e esperanças.

Mas vamos deixá-la falar e ouvir (quero dizer, ler) o que essa visionária tem a nos dizer:

Aniké: Você lembra do seu primeiro contato com a música?

Babi: No dia que eu nasci, meu pai fez uma roda de samba que durou 3 dias lá em casa, mesmo com minha mãe de resguardo. Acho que esse foi o primeiro contato, mas na memória fresca mesmo acho que é comigo cantando bonde do tigrão e empinando a bunda.

Aniké: Se a música é uma forma de comunicar, qual a informação mais importante que ela transmite?

Babi: Força. Acredito em energias, e o principal de toda música é a força que ela transmite independente do objeto que comunica.Não importa se é rap, samba ou metal, a força de impacto que ela toca os ouvintes.

Aniké: O ramo da publicidade tem agora a “fama” de estar restrito. O que você planeja para romper essa dificuldade?

Babi: Acho que o mundo da publicidade é restrito, mas com o cenário político atual e com o advento da internet, a indústria tem se forçado à ser mais aberta. Meu plano é como BK diz em Quadros:

“Se não pode com eles, junte-se a eles. Faça parte deles. Infiltre-se neles. E quando tu estiver lá dentro. Mate todos eles.”

Para além das minhas expectativas pessoais, isso ainda é sobre 54% da população brasileira. Somos mais da metade do target de qualquer campanha publicitária, e elas simplesmente não nos alcançam. E se for pensar mercadologicamente, seu cliente está perdendo as chance de conversar com grande parte do seu público. Pessoas negras e as periferias tem um poder de compra enorme — segundo a última pesquisa do Outdoor Social, favelas periferias chegaram a girar cerca de 7 bilhões de reais em 2019.. e quantas pessoas bilionárias você conhece? Enfim, meu plano é conectar pessoas negras, periféricas e quem mais quiser,com a publicidade por meio da música — especificamente, o hip hop.

Aniké: Por que o nome 794?

Babi: Isso é incrível. 794 é o número de uma linha de ônibus carioca, que liga a zona norte com a zona oeste. Esse busão segue por toooda realengo, vai na Piraquara, em Bangu, Cascadura, Guadalupe, tudo que é canto. Escolhi esse nome porque todos meus melhores momentos ou mais decisivos eu fui levada através dessa linha. Esse é meu caminho! É também uma forma de identificação e unificação dos suburbanos do Rio, sabe?!

Aniké: Onde você quer chegar com a agência?

Babi: Uh! Pergunta difícil. Quero construir um espaço em que produtores de conteúdo e mídia possam crescer, e principalmente criar algo que tenha a ver com o que eles gostam. Um dia, quero ser referência de publicidade para artistas do hip hop quando quiserem dar um novo passo na carreira, ou pra aqueles que querem começar com o pé direito, fornecendo desde ensaios fotográficos, gestão de mídias sociais até estratégias de campanhas.

Aniké: O que você não quer perder ou esquecer nesse percurso?

Babi: Quem eu sou (uma mulher negra), no que eu acredito (família e papo reto) e na essência do trabalho colaborativo.

Aniké: Quais são seus medos e quais são suas esperanças?

Babi: Acho que meu medo é não vingar, e me perder. Minha maior esperança é estar certa.

Aniké: O que você tem anotado no canto da folha, no fundo do celular ou na mão para sempre se lembrar?

Babi: Um dia após o outro, se hoje não tá maneiro só resta fazer o que dá e tentar de novo amanhã.

Aniké: Eu conheço pessoas que vêem em você muitas qualidades, te admiram muito (me incluo na lista). Mas, o que você enxerga em si mesma, que faz você e mais ninguém, ver que você é especial para esse ramo?

Babi: Cara, é como se eu conseguisse enxergar o caminho de tijolos dourados, sabe?! Eu sinto um feeling que ainda não sei explicar, as coisas simplesmente se desdobram quando vou atrás delas. Acho que o olhar é esse diferencial, consigo ver nas pessoas o que eu vejo em mim e aí aposto nelas, é assim que eu cresço, tenho ideias melhores e contribuo pro crescimento de outros profissionais também.

Aniké: Por final, mas não menos importante: O que você gostaria de dizer para Bárbara Portela de 5 anos atrás?

Babi: 1) Vai pra terapia o mais cedo possível 2) Respire fundo e continua firme e forte porque os próximos anos vão ser uma loucura total. Você vai construir um caminho que te levará a ser tudo aquilo que imagina ou sonha. De verdade, de coração. 3) Não tem problema não se encaixar no perfil das outras meninas pretas, de não gostar tanto de umas e outras coisas. Ser você é bom.


Por Aniké Pellegrini

ALAYÉ DUDU

Written by

Do yorubá, narrativas negras. Entrevistas por Aniké Pellegrini

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