O bom Design é uma questão de tempo

Estive esta semana num evento com a designer de móveis Patrícia Urquiola. A palestra, realizada em uma escola de design de grife e oferecida por uma revista de decoração de luxo, me levou a boas conclusões: no Brasil há condições básicas de fazer bom Design, paradigmas devem ser quebrados e o Design é uma ferramenta para isso, o grande apelo do Design são as conexões proporcionadas por ele ao longo de todo seu ciclo de vida incluindo projeto.
 
As notas que fiz sobre a palestra de Urquiola me lembraram da série Abstract, veiculada pelo Netflix. Confesso que quando soube desta produção tive medo da fronteira entre design e arte, tão simples antiga e sutil, não ser notada por quem a dirigiu, mas terminei o primeiro episódio positivamente surpreso. Nele o designer gráfico Christoph Niemann fala entre outras coisas que o bom Design “é se livrar do que não é essencial”. 
 
Os primórdios do Design Industrial, na Alemanha do início do século XX, tinham como impulso o pensamento no essencial. O “Estilo Internacional” desconheceu fronteiras ao nascer da fusão de diferentes culturas, mas foi instaurado especialmente por atender a restrições pragmáticas de fabricação. A cultura que atendia a este pragmatismo era técnica, a parte humana do criador, a cultura tácita, era auxiliar.
 
Urquiola citou seus 6 princípios para o bom produto, que são não por acaso as “Seis Propostas para o Próximo Milênio” descritas por Italo Calvino. Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade e Multiplicidade se juntam à Consistência (esta escapou do escritor, falecido antes de a discutir) num grupo multidisciplinar de trabalho que da liberdade àquela cultura tácita escondida pelo “Estilo Internacional”.

Não posso dizer que o design foi dormir “Estilo Internacional” e acordou “Design Emocional”. A explosão de consumo do pós-guerra entregou ao Marketing a missão de explorar ícones e dizer ao Design o que, para quem, como, onde e quanto cada produto existiria. Décadas de publicidade tecnologia e recursos empenhados para produzir-vender-descartar, até que o colapso ambiental (e também o mental) forçou a alavanca da indústria para a responsabilidade em todos os processos: a Gestão de Qualidade. 
 
Os predicados escritos por Calvino, adotados por Urquiola e praticados silenciosamente por Niemann tratam justamente do essencial. Afinal, o que é importante? Conceitos como Exatidão, Visibilidade e Multiplicidade pareciam antagônicos, mas tornam-se cada vez mais nítidos e decisivos para a validade do produto ou peça gráfica. Aquela cultura tácita, que era secundária diante do pragmatismo industrial mostra sua inteligência ao flexibilizar conteúdos e permitir que a Exatidão não seja intransigente, que Visibilidade esteja no respeito cultural e não na massificação, e que Multiplicidade seja estímulo para inovação em vez de empecilho.

Sempre soberano, o tempo trouxe maturidade à Gestão da Qualidade, antes tão sisuda (o que esperar de uma filha de americanos criada no Japão?). Fatores humanos e ambientais desdobraram seus métodos sem perder seus princípios, aqueles da primeira página da ISO 9000. A preocupação ambiental e os fatores humanos na produção juntaram à qualidade as normas a elas referentes, das famílias ISO 14000 e OHSAS 18000, formando os Sistemas de Gestão Integrada. E estes tem conseguido fazer no projeto o que o Marketing não conseguiu com a produção pragmática: eficiência de resultado sem atrito no processo. 
 
Das Normas Técnicas atuais às orientações de Calvino pode parecer distante, mas ambas mostram o caminho que buscamos hoje: nos conduzem ao que é essencial. As misturas culturais, a humanização dos procedimentos técnicos e a integração do homem com o meio-ambiente divergem generosamente do slogan “menos é mais” e do compromisso final do Marketing antiquado (as vendas). O essencial desce a ampulheta, ou gira soberano as 12 casas: o tempo. 
 
Calvino foi-se antes de expor sua última proposta. Niemann afirma de certa forma que o prazo é seu motor e seu maior inimigo, enquanto Urquiola afirma que a única máquina que ainda não inventamos é a máquina do tempo. A informatização agilizou procedimentos enquanto a hiperconexão nos fez expandir as redes e nos entregou a sensação de ter menos tempo. Informatização e hiperconexão combinadas nos levam a produzir um volume de informação que cresce exponencialmente, seja ela relevante ou não.
 
Esta nova Era cheia de informação, conectada altruísta e flexível, pode nos entregar tecnologia e empatia. E isso é o que eticamente devemos oferecer como designers. O acesso às culturas permite ao projeto expressar corretamente o valor simbólico esperado. A identificação dos símbolos com respeito e qualidade confere aconchego ao produto/serviço, estendendo seu uso e reduzindo o período de adaptação. Eis que a empatia e a tecnologia podem ser transformadas pelo Design na possibilidade de usar o tempo de maneira proveitosa.