alberto de lima
Oct 17 · 3 min read

eu achei o filme ok e até tive uma experiência digamos catártica com a cena das mulheres chorando junto com a protagonista, e com a do ritual do sexo entre christian e aquela ruiva lá. essa catarse se deu pela lembrança de um poema que traduz de forma assustadora essas duas cenas. o poema é de Marceli Andresa Becker (http://www.facebook.com/CamilaPlath). se não conhece, vale a pena dar uma conferia nos escritos dela, que são incríveis. eis o poema:

as mulheres são todas iguais

deixarás uma em busca de outra, crerás na promessa de vida nova, ao lado dela — a única

mas as mulheres são todas iguais
cedo ou tarde verás em mim a melancolia da raquel
a mesma paixão triste pelo inconsútil

cedo ou tarde entenderás que — como a roberta — não tenho onde pousar as mãos em dias como este domingo

e que através da luana também canto aos quatro ventos

“eu, mulher, monstro do meu desejo, cadela cabalística, a carta má dos tarôs da morte (…)”

(…)

são iguais as mulheres
onde encontrarás uma encontrarás todas

quantas me acompanham
nesta cidade em ruínas onde sigo só? à janela de uma das poucas casas que sobraram
me observas — sentada de lado, no largo parapeito; penso em nydia
em ana
em samantha — penso que estou vestida de preto, ouvindo os sinos ao longe
à espera de um deus
ou de uma menina morta para beijar as mãos

eu, que só acredito no que dizem quando o que dizem traz algo das lendas do animal nascido
da sombra
de um jarro intocado

onde amares uma mulher terás de amar todas

uma, se odiares — odiarás uma legião

somos em certo sentido como a ave; suspensas no ar, num só corpo: “frágil e forte — o mundo inteiro / depende / do pulsar cardíaco / do pássaro”

à voz da adriane

pesquisas mostram que os ciclos de sangue de mulheres que moram juntas tornam-se sincrônicos
o que não mostram pesquisas — que sincrônicos passam a ser também nossos sonhos

em sonho, a pronúncia do meu nome é mais vaga, um balbucio

bem poderias confundi-lo com
o da maiara
marieli, marceli — no escuro, antes que se rompa o fio de prata

não te deste conta
porque o diabo mora nos detalhes: às nossas costas vingam as mesmas pintas

amanda, farrah

as mesmas linhas marcam nas omoplatas os domínios de uma espécie de constelação

pensemos em ted hughes, por exemplo:

depois de se separar de sylvia plath, ele se casou com assia wevil

sylvia se suicidou com gás de cozinha
assia fez o mesmo alguns anos mais tarde

o mesmo ato
o mesmo gás
o mesmo homem

as mulheres são todas iguais

que eu não tenha decepado a tua cabeça, servindo-a na bandeja, como salomé: é questão de acaso

que eu não tenha te envenenado com a cantarella, como lucrécia borgia: é questão de acaso

que não me tenhas chamado de beatriz
que não tenhas morrido e renascido mil vezes no meu gozo

(…)

à noite te deitarás com ela
e nela serão todas

e qualquer uma

os mesmos casos perdidos
as mesmas mulheres sentadas no meio-fio da esquina onde a menina de isabela faz ponto

as mesmas freiras da ordem do carmelo
as mesmas tipas fazendo aborto
clandestinamente

as mesmas velhas à espera de não se sabe o que, olhando pela janela

porque numa somos todas
repetíveis, labirínticas
espelhos

espectros umas das outras

de madrugada ela te seduzirá com beijos e cheiros
e quando descobrires que é a mesma mulher de sempre

o mesmo antigo demônio fêmeo

nessa hora será tarde. já a terás fecundado
iniciado uma linhagem má

fundado uma nação

Marceli Andresa Becker

    alberto de lima

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    eis o pandemônio duma mente devorando prudências.