terra firme

alberto de lima
Jul 16, 2018 · 3 min read
Mark Daniel — Kolmanskop, 2008.

este poema foi escrito em 2014, quando estava no segundo ano do colegial. me lembro bem porque mostrei a minha professora de língua portuguesa. estava esquecido nos confins dessas pastas envelhecidas em meu computador, junto de outros poemas e textinhos ruins de que não gosto mais. hoje, voltando lá, parando para lê-lo, vi uma certa beleza que por vezes só se mostra após um bom tempo sem revisitá-lo. embora os verbos estivessem conjugados corretamente na segunda pessoa do singular, decidi fazer uns ajustes e tornar o poema mais próximo do coloquial, como parte de experimentos recentes meus. eis o poema, resgatado:

o quão alto tu consegue me ouvir?
o meu grito despejado ao éter, consegue ver?
toda a movimentação particular das nossas distâncias
é pertinente ao teu olhar longínquo?
ouve o meu suplicar, uma ópera se alastrando
derramando-se em teus móveis antigos
me vê lá de cima? olha pro céu, tão obscuro
tão intocável quanto a apreciação minuciosa dos mares
consegue me ver? eu te pergunto novamente
tu me confunde com a negritude deste céu tão único?
me vê, de onde estiver a tua alma tão delicada e nociva

me suporta? te questiono; despeja teus lábios sobre minha pele
um movimento crucial, neste momento estou ouvindo
findado o dia, consegue tu, ao ranger da porta, ao bater das janelas
ao crepitar do teu lustre, ao sussurro lento do piso, me notar?
escuta, escuta calmamente como um cego escutaria
não espero que a execução dos meus feitos seja, pra tu, uma escolha
é veracidade que não sente tu tal desespero que me atormenta?
não quero que seja isto tudo um pedido, um dever, obrigação
por que não pode ser tão fiel quanto a terra que tu pisa?
olha pra mim; teus olhos não veem o desabrochar dos meus?
me segura como o solo segura o seu mar, seu oceano
me suga e te nutre, embora isto não seja um pedido
congênito é tudo isto, ainda não percebe?

meu soluço ecoa tão longe como o sussurro das sirenas
minhas lágrimas se tornam enchentes, tão medrosas e barulhentas
o caos se torce como um rude quebrar de ossos
tão rápido, constante, lúcido até provocar a mais horrenda perturbação
isto é o que tu quer tocar com tuas mãos robustas e dóceis?
eu te pergunto tão alto desta vez; não é um pedido
me vê no céu, uma assustadora criatura abalada
me desmancho abismo que sou, tu é minha terra firme
o teu lustre no chão, deveras, uma tentativa tão falha…
um esforço tão inútil; a luz é o desacerto
me debruço em teu aposento; em teu piso gélido e sutil
tuas cortinas sopram fortes; enxerga as tuas janelas?
repara firmemente a perturbada movimentação delas
tão fixas, gritam ao horror da tempestade; não sente ressentimento?

não é um pedido; a virtude, pode sentir?
congênito é tudo isto; não é um pedido, vê que não é
tudo está se tornando calmo agora, eu sei que tu ri
sente os meus soluços; vê agora como me encontro?
me segura; é perceptível, isto? agora há de ser; sempre
me olha, debruçada em teu piso, de joelhos dobrados
eu, criatura tristonha, tão cansada do tormento inato
vê as janelas agora? tão calmas… braços abertos: um afago
teu lustre, inútil, esquece; sou as janelas do teu aposento
o abismo constante cessou, tu consegue perceber?
os mares estão tão calmos, tu é a terra que os amparam, eu sei
na escuridão, tão silenciosos, se contemplam…
tu és a terra firme dos mares, agora tão calmos, os mares

não é um pedido; congênito é tudo isto
sente agora a vastidão da nossa união?

alberto de lima

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