Albert Camus, 106 anos de uma trajetória absurda

Alberto`Lui
Nov 7 · 5 min read

Há exatos 106 anos, no dia 07 de novembro de 1913 no pequeno distrito de Dréan, Argélia na época colônia francesa nascia Albert Camus, consagrado escritor, filosofo, jornalista, dramaturgo e crítico literário e ganhador do Nobel de literatura de 1957. Ainda recém-nascido Albert perde o pai em 1914 consequência da primeira guerra mundial, e cresce em um bairro proletário de Argel. O mundo de Camus estava entre a pobreza e simplicidade de sua casa que contrastavam com a beleza do mediterrâneo e o sol imponente de sua terra. Camus sentiu a vida na profunda relação dos seus conflitos e controvérsias.

Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na História, o sol ensinou-me que a História não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha a divindade.
(O avesso e o direito. Camus)

Albert Camus extrai da própria experiência de vida a sensibilidade para sua obra filosófica, o absurdo grande conceito filosófico desenvolvido como pilar de sua obra é fruto dessa sensibilidade. O conflito entre o desejo de viver e uma tuberculose que rouba várias oportunidades em sua vida. As guerras que contrariam todas as lógicas racionais de progresso e lançam a Europa em um banho de sangue sem sentido, sem limites humanísticos. Camus chega a uma conclusão diante da morte, da indiferença do mundo, do divorcio do ocidente com deus: a vida é absurda. As relações humana não estão distantes do conflito entre o o mundo indiferente e a obsessão humana em conter esse mundo em um sistema ou desejo de compreensão. Diante disso Camus se impõem diante da realidade que o cercava, rejeitando os apelos metafísicos dos racionalistas que tentavam a todo custo reduzir a crueza do mundo em seus sistemas, ou a ideia absoluta da historia como regente das obras humanas, ou de um deus que coordena tudo como se fosse um capricho de sua vontade e começa a construção de suas obras.

Quero libertar meu mundo de seus fantasmas, e povoá-lo de verdades de carne cuja a presença não possa negar. (Mito de Sísifo. Camus)

O absurdo se estabelece no cerne de sua obra através de seu tríplice: O estrangeiro (romance) O mito de Sísifo (ensaio filosófico) Calígula (teatro). Nesse tríplice de obra Camus explora a ideia de absurdo e a representação desse absurdo. A vida para o argelino não tinha um sentido último, pelo contrário a vida humana está cotidianamente sendo expressa em um trabalho fútil e repetitivo. O absurdo está entre o labor sem sentido da vida e o despertar da consciência que pode cobrar do homem uma postura criativa ou a fuga. Como ele representa através do mito de Sísifo: Os deuses condenaram Sísifo a rolar uma pedra ao cume de uma montanha diariamente, pois acreditavam que não havia maior castigo do que uma vida de trabalho fútil e sem sentido.

Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quadro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o “por quê” e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. “Começa”, isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência. Ela o desperta e provoca sua continuação. A continuação é um retorno inconsciente aos grilhões, ou é o despertar definitivo. Depois do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento.”
(Mito de Sísifo. Camus)

Camus retrata Sísifo como o herói trágico e absurdo. Mas existe para Albert na visão de Sísifo descendo o monte indo buscar a pedra para recomeçar seu trabalho uma valiosa lição: O desprezo pelo destino. (Não há destino que não se transcenda pelo desprezo.) O raciocínio do absurdo não leva a respostas, não se prende ao “amanhã” o raciocínio absurdo provoca uma postura frente a vida. Nessa postura encontramos a liberdade e a revolta.

O mundo é absurdo, a vida humana não tem sentido: mas isso não impede de vivermos. A reflexão final e que justifica tudo é essa: a vida não precisa de um sentido para ser vivida. O mundo não precisa de uma ordenação logica para ser desfrutado. O amor, a natureza e a liberdade não são valores posteriores a lógica racionalista ou a metafisica cristã, ou a descoberta da vontade e dos planos de deus. Os campos dourados pelo sol mediterrâneo sempre estiveram lá. A proposta é valorizar o que de bom mundo tem pois ele não está aqui exclusivamente por nós. Fazer a vida valer a pena, mesmo diante do absurdo, a futilidade da vida maquinal, ou da hostilidade do mundo é o desafio que o pensamento absurdo propõe.

Quantas horas passadas a esmagar absintos, a acariciar as ruínas, tentando conciliar minha respiração com os tumultuosos suspiros do mundo! Mergulhado entre os perfumes selvagens e os concertos de insetos sonolentos, abro os olhos e o coração à grandiosidade insustentável do céu transbordante de calor.
(Núpcias, Camus)

Todo o desejo de viver que transbordava por entre as linhas dos textos de Camus, encontrou seu desfecho no dia 04 de janeiro de 1960, aos 46 anos em companhia de seu amigo e editor Michel Gallimard em um acidente de automóvel. O veículo se chocou contra uma arvore matando Camus na hora, na sua pasta foi encontrado sua última obra ainda inacabada: O primeiro homem. Que anos depois foi publicada. Cinquenta e nove anos depois de sua morte as obras do pensador argelino tem seu dialogo vivo com o mundo que a concebeu. A absurdidade, a revolta contra os sistemas de opressão que se utilizam da ideologia e da filosofia para justificar a violência ainda encontram nos textos de Camus um adversário vivaz e incansável.

A propria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

Alberto`Lui

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Uma singularidade correndo descalça numa Comunidade dessas por ai.

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