O fundamentalismo e os homens

Alberto`Lui
Nov 4 · 3 min read

O fundamentalismo separou o mundo em dois: Os eleitos e os condenados. Por mais que atualmente fileiras mais “humanistas” das grandes instituições religiosas tentem atenuar essas categorias apocalípticas dando de certa forma as mãos a um certo relativismo não ortodoxo dos (até muito pouco tempo considerados inflexíveis) textos sagrados, dificilmente poderão negar o que uma simples hermenêutica nos revela: seu substrato. O que por mais de milênios o solo que sustentou os pilares do que hoje se desemboca em inflamadas bolhas reacionárias e fundamentalistas que olham o mundo com estranheza e a vida humana com desdém. Afinal por maior esforço que se empregue em tornar “Deus”, mas próximo da “modernidade” e dos diretos humanos, eles acabam por não poderem negar a fonte de suas reivindicações: “a verdade”. A verdade em seu sentido metafisico e absoluto (Deus) não pode contradizer a si mesma, ela como dentro do molde que lhe define, que lhe descrimina como tal, deve afirmar-se, e negar o que está exterior a ela. Desta forma o deus dos fundamentalistas elimina qualquer coisa que tente estabelecer uma narrativa diferente a que por eles já foi estabelecida.

Em nome dessa verdade se matou, torturou e consentiu no assassinato de milhares de “objetos” que estavam exteriores a verdade, os que por muito tempo se adjetivou: diferentes, falsos, errados, demoníacos, satânicos, profanos, hereges e toda sorte do que eles considerassem ofensivos a sua verdade. Mas como pode um “deus” defender o amor e a paz aos domingos e nas segundas consentir no genocídio de cidades? Na morte de um ser humano que o crime foi amar outro? Na ferrenha oposição a dignidade humana já sagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Como pode um ser onipotente não interferir na mazela de milhares? Mas se preocupar com a conduta moral baseada no que em uma montanha, no meio do oriente médio estabeleceu em pedras: os fundamentos da justiça. Não há como aceitar uma premissa que credita centenas de desgraças naturais e humanas a um propósito maior e incognoscível. Não há como conceber o bem maior que só é acessível para os submissos, condescendentes ou silenciosos.

Dizer que todos os eventos históricos são o desdobramento da vontade ou do consentimento de um ser onipotente é brincar com a inteligência alheia. Pois se nos propusermos a defender a vida essa defesa deve estar aberta a todos os viventes. Não só aos que eu gosto mais, ou os que são da minha tribo. A manutenção de uma religião tribal no século XXI é importar mesmo que disfarçadamente esse mesmo elo de proteção tribal, o que está externo a nós ou é nosso inimigo ou nosso objeto. Isso em nada se aproxima da postura vendida por milênios como o verdadeiro amor, que diante disso se tona controverso. A graça que aparece como favor não merecido frente a comodidade do assassinato seja físico ou moral se converte em um fel de servidão ao dogma, que uma vez traído converte o pecador em uma figura execrável do convívio da comunidade.

A controvérsia transforma a certeza em uma dúvida lancinante. Pois até agora milênios depois do primeiro homem ouvir sua sentença em um estranho e perdido paraíso não se apresentou justificativa plausível para o silencio do céu frente ao assassinato, genocídio e infortúnio humano; desculpas não podem salvar o homem do seu destino. Talvez a dúvida possa redimi-lo de alguns pesares.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade