O fundamentalismo e os homens

O fundamentalismo separou o mundo em dois: Os eleitos e os condenados. Por mais que atualmente fileiras mais “humanistas” das grandes instituições religiosas tentem atenuar essas categorias apocalípticas dando de certa forma as mãos a um certo relativismo não ortodoxo dos (até muito pouco tempo considerados inflexíveis) textos sagrados, dificilmente poderão negar o que uma simples hermenêutica nos revela: seu substrato. O que por mais de milênios o solo que sustentou os pilares do que hoje se desemboca em inflamadas bolhas reacionárias e fundamentalistas que olham o mundo com estranheza e a vida humana com desdém. Afinal por maior esforço que se empregue em tornar “Deus”, mas próximo da “modernidade” e dos diretos humanos, eles acabam por não poderem negar a fonte de suas reivindicações: “a verdade”. A verdade em seu sentido metafisico e absoluto (Deus) não pode contradizer a si mesma, ela como dentro do molde que lhe define, que lhe descrimina como tal, deve afirmar-se, e negar o que está exterior a ela. Desta forma o deus dos fundamentalistas elimina qualquer coisa que tente estabelecer uma narrativa diferente a que por eles já foi estabelecida.
Em nome dessa verdade se matou, torturou e consentiu no assassinato de milhares de “objetos” que estavam exteriores a verdade, os que por muito tempo se adjetivou: diferentes, falsos, errados, demoníacos, satânicos, profanos, hereges e toda sorte do que eles considerassem ofensivos a sua verdade. Mas como pode um “deus” defender o amor e a paz aos domingos e nas segundas consentir no genocídio de cidades? Na morte de um ser humano que o crime foi amar outro? Na ferrenha oposição a dignidade humana já sagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Como pode um ser onipotente não interferir na mazela de milhares? Mas se preocupar com a conduta moral baseada no que em uma montanha, no meio do oriente médio estabeleceu em pedras: os fundamentos da justiça. Não há como aceitar uma premissa que credita centenas de desgraças naturais e humanas a um propósito maior e incognoscível. Não há como conceber o bem maior que só é acessível para os submissos, condescendentes ou silenciosos.
Dizer que todos os eventos históricos são o desdobramento da vontade ou do consentimento de um ser onipotente é brincar com a inteligência alheia. Pois se nos propusermos a defender a vida essa defesa deve estar aberta a todos os viventes. Não só aos que eu gosto mais, ou os que são da minha tribo. A manutenção de uma religião tribal no século XXI é importar mesmo que disfarçadamente esse mesmo elo de proteção tribal, o que está externo a nós ou é nosso inimigo ou nosso objeto. Isso em nada se aproxima da postura vendida por milênios como o verdadeiro amor, que diante disso se tona controverso. A graça que aparece como favor não merecido frente a comodidade do assassinato seja físico ou moral se converte em um fel de servidão ao dogma, que uma vez traído converte o pecador em uma figura execrável do convívio da comunidade.
A controvérsia transforma a certeza em uma dúvida lancinante. Pois até agora milênios depois do primeiro homem ouvir sua sentença em um estranho e perdido paraíso não se apresentou justificativa plausível para o silencio do céu frente ao assassinato, genocídio e infortúnio humano; desculpas não podem salvar o homem do seu destino. Talvez a dúvida possa redimi-lo de alguns pesares.
