A Fabula da Morte a Espreita

Manteve a sua cabeça baixa e escondida por um capuz negro. Logo avistou a luz dos faróis de um Ford Focus no meio da noite, mas isso não é um sonho, ele escuta as vozes calmas e percebe que as presas estão distraídas. A arma pesa em sua calça a vontade da droga pesa em sua lógica e ele se coloca na frente das moças, ambas primas, mas ele não sabe. Também não sabe que são mulheres para ele são disformes. Coloca a arma em direção a cabeça daquela que estava parada diante da porta aberta do carro. Ela teve uma única reação de susto pedindo — calma! — que foi negada com uma sentença imediata a arma disparada lançou uma bala que furou a sua têmpora. A prima em estado de choque não teve nenhuma reação apenas observou aquele jovem correr enquanto seus olhos se enchiam de lagrimas.

A saudade do filho ainda criança daquela mãe sempre orgulhosa e preocupada que lhe entregava carinho a cada abraço e gesto mínimo. Servindo uma comida bem preparada que agora ele nunca mais iria provar e cujos conselhos ele nunca iria receber quando se transformasse em adolescente e começasse a tentar compreender por que ela fora “roubada”.

E o pai de luto dormindo numa cama larga lembrando da boa sensação que tinha ao abraça-la e beija-la logo pela manhã, refletindo a respeito de cada dia que perderam numa rotina sempre prometendo a si mesmos uma viajem uma nova lua de mel e cada briga por motivos egoístas de ambos. Tudo isso enquanto se esforçava para criar o filho sozinho.

A prima que após o choque inicial ficou abraçada ao corpo gritando por socorro, tal um cachorro que uiva para a lua, chamou a atenção dos vizinhos que foram despertos pelo tiro e vieram ajudar. Chamaram a polícia mas o bandido foi impune por algumas semanas, o tempo que levou até a investigação começar efetivamente. Bastou analisarem o conteúdo das câmeras de vigilância que filmaram as andanças daquele jovem que só foi identificado por ter retirado o capuz na fuga, revelando aquela fuça magra de nariz curvo que contrastavam com a fala vulgar e as gírias que eram difíceis para o repórter que o questionou interpretar. Depois de preso não teve nenhum arrependimento.

Então o que aquele pai vai dizer ao filho quando aquele jovem assassino de sua mãe cumprir sua privação de liberdade, completando os dezoito anos sem registro de ficha criminal ou qualquer arrependimento — Essa é a justiça filho — provavelmente concluirá enquanto derrama pela sua garganta uma cerveja amarga lembrando da mulher amada. Ao contrário da detenção do jovem o luto da família pela morte repentina daquela que sabia cumprir tão bem seu papel de filha, prima, cônjuge e mãe é perpetuo.
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*Baseado em observações de uma reportagem que eu bem queria que não fosse verdade.