O amor é Stones, Beatles e um casal de idosos na seção de jardinagem.

Nunca me aventurei a escrever sobre relacionamentos. Ao me perguntar as razões, a resposta que encontrei foi doída. É difícil escrever sobre um assunto que não dá pra ter aquele humor raso, cínico, não tem como parecer muito inteligente em um tema tão cliché. No momento em que todo mundo tem uma opinião sobre tudo, bem mais fácil disparar nossos pareceres sobre assuntos mais banais ou de consenso.

O amor é uma das coisas mais clichés que existem. É só olhar pra a música: All you need is Love, dos Beatles. Love me two times, dos Doors. Love is Strong, dos Stones. Whole Lotta Love do Led. O pop em todas as suas eras, a MPB, o Samba, o Reggae, todo mundo já falou disso. Aí bate aquela sensação: o que mais posso dizer?

E mais, sempre preferi Stones a Beatles. Nunca gostei muito da fase ingênua dos garotos de Liverpool, para mim o melhor momento dos caras é no final dos 60 em álbuns como o Revolver, o White Album, Abbey e outros. Mas o que a música, a poesia e o cinema tentam explicar, só a realidade é capaz de colocar na frente de olhos céticos.

Esses dias eu estava num supermercado em Porto Alegre que tem como gimmick um esquilo. Andava com meu carrinho de compras e passei por um corredor que pouco frequento: produtos de jardinagem. E testemunhei algo que superou qualquer balada do rock, do pop ou da MPB. Um lirismo digno dos melhores momentos de Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Quintana, Shakespeare, Cortázar, Gabriel García Marquez.

O que eu vi foi uma das cenas mais belas e(desculpem a rima) singelas possíveis nesse mundo. Um casal idoso comprava ferramentas e outros produtos para jardinagem com uma alegria e cumplicidade que nem Bonnie and Clyde, nem aquele casal perfeito da comédia romântica nunca teve. Eles estavam muito felizes porque iam mexer na terra juntos. MEXER NA TERRA. Cavocar e plantar flores. Só isso.

Em vez de postar fotos para impressionar os outros, os dois estão cultivando(com o perdão da analogia óbvia) coisas reais. Eles estão vivendo no plano real, sem algoritmos, sem memes, sem menes, sem UX e UI, não estão preocupados com Leads, usuários, personas, métricas, engajamento. Eles apenas estão sendo eles mesmos, criaram uma conexão de verdade. Os dois, a semente e a terra preta. Muito LOUCO isso.

Talvez o lance de hoje é tipo uma música do Verve que eu curto: amor é barulho. Desconectamos, perdemos a sintonia. Só gritamos coisas sem sentido e propriedade nas redes sociais. Mudamos status, tags mas nada mais dá aquele "click".

Olhando aquelas sementes tive um flashback desconfortável: me vi em praias paradisíacas, em viagens planejadas, em eventos de premiação, em situações que deveriam me deixar feliz, mas eu não estava. Depois flagrei os dois discutindo sobre como matar uma praga na roseira, felizes. Dava pra ver que era de verdade. A felicidade em tempo real, brotando da simplicidade bem na minha cara.

Não pude evitar de pensar, dia desses, o que fez um talento da envergadura do CHRIS CORNELL tirar a própria vida.

Talvez tenha faltado um canteiro de flores pra ele.